



Audrey sempre amou o marido, mas a vida do casal estava se transformando em uma loucura!Decidida, resolveu largar York e tentar uma nova vida...Mas sete anos depois
eles se reencontraram, e York, para sua surpresa estava diferente...


         Gaiola Dourada
                    Penny Jordan

                          "Long Cold Winters"

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                                         CAPITULO I



O pequeno avio circulou a Ilha de St. John, no Caribe. Audrey seguiu o pssaro prateado, protegendo os olhos do brilho forte do sol.
- Nosso peixe est chegando. - Alan sorriu, passando os braos nos ombros dela. - Espero que me ajude a pesc-lo.
Eles estavam em p na areia macia, em frente ao hotel. Audrey era alta, magra e elegante, tinha os cabelos muito loiros, que esvoaavam sob a brisa, e os olhos castanhos
claros de uma tonalidade profunda, chegando quase ao dourado. Seu companheiro aparentava trinta anos, no era muito alto e era um pouco cheio demais para ser considerado
elegante. Contrastando com o biquini moderno dela, estava vestido com terno e gravata.
Ao sentir o toque das mos de Alan, Audrey instintivamente se afastou. Ela j nem notava mais que reagia assim, mas Alan Shields percebeu, e seus lbios se apertaram
numa linha fina
Alan era dono de uma companhia de turismo, a Travel Mates e, por conselho de sua secretria havia admitido Audrey na empresa. Em relao a trabalho, no tinha o
que se queixar dela, mas Audrey sempre se recusou a aceitar seus gracejos e mesmo tentativas de um contato um pouco mais pessoal. A princpio, Alan no acreditou
que essa maneira de reagir pudesse ser sincera, mas, com o correr do tempo, foi percebendo que era verdadeira e ficou apenas muito curioso.
Audrey tinha vinte e dois anos e com certeza j devia ter tido relaes com outros homens, pois era demasiadamente atraente para que isso no tivesse acontecido.
Ento, por que ela se mantinha distante dele? No era feio, estava muito bem de vida, era livre, mostrava interesse por ela... No conseguia entender por que ela
reagia dessa forma.
Alan tinha tentado saber maiores detalhes sobre Audrey com sua secretria, Sally Ferrara, mas ela se recusou a esclarecer as coisas.
"Deixe Audrey em paz", era tudo o que Sally, comentava. Ela era noiva de um piloto da British Airways e tratava o chefe com um carinho quase maternal.
- Temos que fazer o mximo para conseguir que esse peixe - Alan indicava o avio - nos salve a situao. Se ele no concordar com o que precisamos, a Agncia Tropicana
vai nos engolir e vamos ficar sem emprego!
Audrey sabia que no havia exagero nenhum nas palavras de Alan.
Ele tinha investido tudo que possua naquele projeto da ilha St. John, construindo o hotel e tentando, fazer daquele recanto um lugar turstico de grande procura.
Era um homem experiente em negcios, bem-sucedido e nada mostrava que a escolha de St. John como lugar da moda pudesse no dar certo. A primeira temporada do hotel
havia sido um sucesso, tendo as reservas se esgotado muito antes do prazo previsto. O que faltava para terminar as ltimas obras do conjunto turstico estava em
bom andamento, e tudo estaria pronto para a prxima temporada.
Mas, um violento furaco havia se abatido sobre a ilha, destruindo boa parte do hotel e das instalaes. As reservas j feitas foram canceladas e o dinheiro teve
que ser devolvido. Sendo assim, Alan tinha que encontrar algum disposto a fazer um grande investimento em seu negcio ou enfrentar a falncia.
As outras grandes companhias de turismo estavam na expectativa para ver o que podiam fazer com o que sobrasse, caso Alan Shields no conseguisse se recuperar. Por
isso, Audrey sabia como era importante esse encontro com o investidor que os bancos haviam arranjado. Se ele resolvesse reerguer St. John, tudo estaria bem de novo
e eles poderiam prosperar, como vinha acontecendo at ento.
Mesmo assim, Audrey no tinha gostado da sugesto de Alan de que ela deveria usar todo seu charme, para conseguir que o homem se interessasse pelo investimento.
Gostava de Alan e gostaria de ajud-lo. Sem o emprego que ele havia lhe dado, ela... Audrey suspirou.
-  Hoje  noite, vamos jantar os trs sozinhos na minha cabana - Alan preveniu-a, sorrindo. - Use um vestido bonito.
- Bonito ou sexy? - Havia desafio nos olhos de Audrey. - No quero ser usada como isca, Alan.  bom que isso fique bem claro, desde o incio.
Alan tinha uma expresso sentida no rosto corado.
- No est entendendo direito. A nica coisa que quero que faa  que seja simptica e agradvel, para que ele se sinta bem e  vontade. Acho que no tem nada de
errado nisso, no ?
- Se ficar s nisso...
Audrey sabia que Alan a achava um enigma, mas ela tinha sido muito clara ao recusar os avanos dele; desde ento, ele a tratava como um membro eficiente de seu pessoal.
Embora ainda houvesse ocasies em que a conversa caa para o lado pessoal, Audrey sempre dava um jeito de mant-lo  distncia.
- No quer vir comigo para receber nosso visitante?
O avio havia aterrissado alm do recife e, deslizando sobre as guas calmas, aproximava-se da margem.
- Tenho o que fazer agora, Alan. Vejo voc mais tarde.
Alan foi para a lancha, enquanto Audrey seguia pelo caminho que levava ao hotel, passando por entre folhagens muito verdes e tropicais. Esse caminho era cheio de
curvas e passava pela rea destinada aos brinquedos das crianas, pelas quadras de tnis e pela piscina, de gua azul-turquesa, no meio de um imenso gramado e atrs
do qual se abriam as escadas do terrao do hotel.
Audrey entrou na recepo, que estava vazia e silenciosa. O nico som era o que vinha do aparelho de ar condicionado, que dava uma temperatura agradvel ao aposento.
Por trs do balco, uma nativa sorria para ela.
- Hoje no h clientes para voc. Parece que os hspedes esto se divertindo muito e no tm o que reclamar ou pedir! No querem perder um minuto dag diverses programadas!
Esse emprego  maravilhoso, pensou Audrey. At agora no tinha tido nenhuma queixa. Sabia que ser relaes-pblicas no era fcil, pois muitas vezes surgem problemas
difceis de serem resolvidos. Mas estava com sorte. At agora tudo havia corrido muito bem. Resolveu dar uma volta pelas dependncias do hotel, para ver se tudo
estava em ordem.
Foi at o bar, uma sala ampla, de teto baixo, que se abria de um lado para o mar e de outro para o jardim muito bem tratado. O cho era recoberto por cermica, o
que dava uma sensao mais agradvel. Por todos os cantos, havia grandes vasos com plantas e folhagens, xaxins com samambaias, avencas e outras plantas tropicais
colaboravam para tomar aquela sala um paraso de frescor e cores.
Passando pelo restaurante, Audrey ouviu as duas araras, muito coloridas, que pareciam conversar. Essas aves eram o grande encanto das crianas, que no se cansavam
de olh-las e que procuravam sempre lhes ensinar novas palavras.
Quando chegou ao terrao, Audrey se sentou numa das cadeiras e ficou olhando o mar, o movimento incessante das ondas que se erguiam para logo depois depositarem
sua coroa de espuma na areia fofa e branca da praia.
Tudo aqui  maravilhoso! - Audrey falou a si mesma. - Parece um sonho tornado realidade!
Alan tinha procurado fazer daquilo um lugar luxuoso e descontrado ao mesmo tempo, em que as pessoas pudessem gozar de todas as comodidades do mundo moderno, mas,
ao mesmo tempo, estar em contato ntimo com a natureza. E realmente tinha sido bem-sucedido. Isto , se conseguisse que esse desconhecido resolvesse investir no
negcio. Seno... o sonho seria como um castelo de areia que se desfaz com a primeira onda!
O complexo turstico tinha tudo para proporcionar a seus hspedes frias maravilhosas! Tinha duas piscinas, quadras de tnis, reas de lazer para crianas, bosques,
lanchas, excurses de pesca, pesca submarina, golfe e ainda outras atraes menores. Era uma rea muito grande, mas no tinha prdios altos, porque os apartamentos
estavam agrupados em edifcios baixos e pequenos, espalhados pela enorme rea. Havia ainda algumas cabanas, para quem apreciasse maior privacidade.
O restaurante apresentava excelente cozinha francesa, cujos pratos tambm podiam ser servidos nos terraos de cada apartamento. No entanto, para aqueles que quisessem
se divertir preparando seus quitutes favoritos, havia cozinhas nas cabanas e tambm um bem sortido minimercado, com vrias espcies de peixe e frutos do mar.
Completando esse lugar paradisaco, elevava-se por trs do conjunto hoteleiro um magnfico vulco, rodeado de uma densa floresta tropical.
-  Como vai, Audrey? Alan me disse que eu a encontraria aqui. Aproveitando o sol?
- Tudo bem, Sally? Alan j lhe pediu que tentasse me convencer a ser delicada com o nosso investidor?
Sally Ferrars no pde evitar uma gargalhada gostosa e alta.
- A culpa  toda sua, por parecer to maravilhosa! - Com inveja, Sally reparou no bronzeado uniforme de Audrey, em suas pernas bem torneadas. - Espero ficar aqui
bastante tempo para conseguir um tom como o seu. Me sinto branca como um rato d'gua! Rick vai ter um fim de semana de folga e quero estar bem atraente quando ele
chegar.
- J tem planos definitivos para o casamento? - Audrey estava realmente interessada. Conhecia Sally h dois anos e sempre tinham sido amigas. Haviam se encontrado
na aula de alemo e quando Sally soubera que a amiga estava procurando um emprego, logo tratou de recomend-la a Alan.
-  Esperamos casar pouco antes do Natal, mas ainda no marcamos a data, precisamos primeiro terminar de construir nossa casa. - Sally sentou se ao lado de Audrey.
- Estou aqui h apenas trs dias e j me acostumei a ser servida. Que delcia de vida!
- Tem razo. O clima, o sol, os servios do hotel, tudo torna esse lugar perfeito!
Audrey estava l desde a inaugurao, h trs meses. Por causa do problema do furaco, Alan tinha ficado muito tempo em Londres e deixou que ela continuasse tomando
conta das obras. Agora, felizmente, ele estava de volta e havia assumido essa responsabilidade.
-  Alan foi aguardar nosso visitante. Acho que ele nunca esperou que algum se interessasse to depressa pelo negcio. Seno, provavelmente, teria ficado em Londres
mais tempo para resolver tudo l mesmo.
- De qualquer jeito, o investidor ia querer ver tudo por aqui, no acha?
- Talvez. Estou torcendo para que tudo d certo! Como ser esse ricao?
- No est pensando em trocar Rick por esse homem, est?
- Audrey adorava brincar cora a amiga.
- Eu no! Sabe muito bem como amo Rick! - Entrando na brincadeira, Sally retrucou: - Ainda bem que voc no foi com Alan! Vestida assim era capaz de causar um enfarte
no nosso investidor! Esse seu biquini  um convite  seduo.
- No  mais ousado do que os que vemos constantemente na piscina e na praia.
- Sei disso.  o que est dentro dele que faz toda a diferena.
-  Com um ar srio, Sally continuou: - Tem um corpo to perfeito! Nunca pensou em ser modelo?
- Acho que tenho busto demais para isso. - Audrey olhou para seus seios, rijos e bem delineados sob a lycra vinho do biquini. - Alm disso, j me disseram que 
um servio chato e cansativo.
-  Mas j pensou na oportunidade que teria de conhecer homens ricos, maravilhosos e interessantes?
Audrey no respondeu e seu rosto se tornou duro e sem expresso.
- Pensei que j tinha decidido pr uma pedra em seu passado! Tem apenas vinte e dois anos, Audrey. Precisa comear a viver outra vez!
- Um casamento desfeito no pode ser embrulhado e colocado no fundo de uma gaveta. Alm disso, essa  uma experincia que no quero ter de novo, nunca mais.
- Mesmo que o homem certo aparea?
- No existe o homem certo, Sally. O que h  apenas uma poro de homens errados.
Embora elas fossem muito amigas, Sally no fazia idia de que tipo de homem havia sido o marido de Audrey, como era seu casamento e o que acontecera para se separarem.
Sabia somente que a experincia a tinha deixado muito desconfiada e amarga. Como Audrey nunca quis falar no assunto, Sally havia respeitado a vontade da amiga:
- Voc ainda se sente machucada, no ? Gostaria de falar a respeito?
- No h nada a conversar, Sally. Cometi um erro, s isso.
- Errou por qu? Por am-lo ou por ter casado com ele? A expresso de Audrey era triste  desiludida.
- Errei ao pensar que ele me amava. - Audrey levantou e andou at a beira do terrao, ficando diretamente sob o sol.
-  Acho que os cabeleireiros fariam uma fortuna se conseguissem dar esse tom de loiro to claro aos cabelos de suas freguesas. Sabe que seus cabelos ficaram ainda
mais claros, apanhando tanto sol? - Com muito tato, Sally mudou de assunto.
- Mas o sol e a gua salgada esto estragando meus cabelos! Acho at que vou mandar cort-los, assim compridos esto me dando muito trabalho.
- Se eu fosse sua rival, eu a levaria correndo para cort-los. Mas, como j tenho meu noivo, posso lhe dar um conselho sincero. Deixe seus cabelos como esto. So
maravilhosos e ainda por cima muito sensual.
Audrey no se sentiu feliz com os elogios. Ser sexy no era bom, parecia que ela estava querendo atrair a ateno dos homens e isso era a ltima coisa que desejava
na vida. Havia sofrido muito por causa de sexo e as lies que aprendera no casamento j eram suficientes. Tinha tido como professor um homem super experiente, embora
na ocasio fosse muito ingnua para perceber que o homem que escolhera para marido no a amava. Mas agora que estava mais madura, no ia permitir todo o ardor que
havia em sua alma e que tanto a prejudicara no passado.
"Fria!", um de seus namorados havia dito dela, mas Audrey no se deixaria impressionar. Sabia que os homens usavam esse tipo de insulto como arma para conseguirem
o que queriam; era a chave que usavam para abrir uma porta fechada, mas isso no ia funcionar com ela.
- Alan j est voltando! E uma pena que a lancha ainda esteja to longe! No aguento de curiosidade de ver como  nosso investidor desconhecido.
- Deve ter uma barriga enorme, ser careca, estar beirando os cinquenta, e ainda se achar irresistvel! - Audrey nem se esforou para ver a embarcao que se aproximava.
- Ento voc vai ter um tempo quente hoje  noite! Tenho ordens expressas de Alan para me dedicar inteiramente a ele, de modo que voc fique livre para entreter
nosso convidado.
- J avisei a Alan que no quero servir de isca. - Audrey estava zangada por estarem querendo us-la.
-  J sei disso, Audrey. Por isso mesmo convenci Alan de que devemos ficar na cabana dele, apenas para os aperitivos e que depois o melhor  irmos os quatro jantar
no restaurante do hotel. Foi para isso que vim falar com voc. Alan quer que voc esteja na cabana dele s seis e meia, mas s iremos jantar s oito.
Audrey ficou contente que Sally tivesse conseguido mudar um pouco os planos, tudo seria mais fcil no restaurante, no meio de mais gente e mais movimento. Ela no
se sentia nada ansiosa em enfrentar esse jantar, com um desconhecido, em que teria que parecer atraente para deix-lo interessado no negcio, Mas, embora gostasse
muito de Alan e realmente lhe devesse favores pelo muito que ele a ajudara, no pretendia abrir mo de seus princpios.
- J vou indo - Sally interrompeu os pensamentos da amiga. - Ainda tenho que bater alguns dados  maquina para apresentar ao ilustre desconhecido. Espero que tudo
d certo. Seria um crime se Alan perdesse St. John depois de tudo que fez por aqui. Sei que ele enterrou seu ltimo nquel nesse negcio!
- Vou fazer o que puder para ajud-lo. S me recuso a ser usada como uma isca sensual!
- Acho que nem Alan pretende mais do que uma paquera sem consequncias, Audrey. Faz idia de quem seja este desconhecido que vai ser nosso salvador?
- No fao a menor idia! Alis, acho que esses homens de altas finanas adoram manter tudo em segredo, s dando detalhes de qualquer projeto depois que ele foi
resolvido. Vejo voc mais tarde.
Sally foi embora, para tratar de seus afazeres.
Audrey reparou que o bar comeava a ficar cheio de hspedes. Levantou, para ver se o passeio de lancha programado para o dia seguinte tinha tido bastante aceitao,
e para sua satisfao viu que os lugares estavam quase todos preenchidos.
Seguiu para sua cabana e notou que j eram cinco e meia. Abriu o armrio e escolheu um vestido de seda rosa escuro que combinava muito bem com seus cabelos. Deixou-o
sobre a cama e foi para o chuveiro.
Sentiu-se bem melhor depois do banho. Quando se enxugava, viu se no espelho grande que havia na porta do banheiro, mas no mesmo instante desviou o olhar. Logo depois
do rompimento de seu casamento, culpava seu corpo ardente por tudo o que tinha acontecido e, desde ento, passou a usar roupas discretas, que escondessem seu corpo
bonito.
Sentou se na penteadeira e comeou a escovar os cabelos. Enquanto isso, pensava na carta que havia recebido de seu advogado. Como ela s tinha sido casada durante
um ano antes de abandonar o marido, no poderia se divorciar a no ser depois de cinco anos de separao. Isso significava que ainda teria que esperar mais dois
at ser completamente livre. Audrey no tinha plano nenhum de voltar a casar, e esses dois anos passariam rapidamente. Mas s se sentiria independente e feliz outra
vez quando todos os laos tivessem sido rompidos.
Ela achava que, enquanto houvesse a menor ligao com o marido, mesmo que apenas no papel, era como se o ferimento que tinha na alma continuasse aberto e doendo,
envenenando-lhe a vida e o esprito. Sabia que seu raciocnio no era lgico, mas tinha certeza de que s se reconciliaria com a vida depois que o ltimo elo desse
casamento infeliz estivesse rompido. Deveria pedir ao marido que a deixasse livre antes dos dois anos?
Talvez implorando ele acabasse concordando. Mas nunca! Jamais agiria de maneira to humilhante!
A seda rosa, quase sulferina, realava o tom claro de seus cabelos, seu tom bronzeado, seus olhos castanhos. O tecido fino aderia  sua pele, revelando os quadris,
a curva suave dos seios. Audrey completou a maquilagem com um batom claro e passou seu perfume predileto. Sempre achou que sua boca era um pouco grande demais, mas
acabou descobrindo que esse era um de seus traos mais apreciado pelos homens.
Saindo de sua cabana, Audrey atravessou o gramado. A noite estava quente e agradvel, com cigarras cantando e uma brisa suave balanando as folhas dos coqueiros.
As estreias brilhavam altas no cu de veludo.
Ao abrir a porta da cabana de Alan, viu Sally que lhe sorria. Alan estava sentado na beira da cadeira, dando toda a ateno ao homem sentado  sua frente. Ele parecia
cansado e preocupado, as rugas profundas marcando seu rosto ansioso. Mesmo assim, conversava animadamente, mostrando papis que depois colocava sobre a mesa de centro.
Sally se levantou e serviu um ponche a Audrey. E foi nesse momento que ela conseguiu ver o rosto do hspede. Reconheceu-o imediatamente! Sentiu tamanho tremor que
precisou segurar o copo com ambas as mos para no derrub-lo no cho. O homem que ela via era moreno, tinha cabelos escuros e grisalhos nas tmporas e vestia uma
camisa de seda creme, sua jaqueta estava colocada displicentemente ao lado.
Alan havia parado de falar e estava escutando com ateno. Audrey, no entanto, tinha a sensao de estar vivendo um pesadelo. Aquela voz fria, os argumentos muito
claros e precisos, o tom profundo lhe eram to familiares como se fossem os dela prpria.
- Diz que tudo estaria s mil maravilhas se no fosse pelo furaco - o desconhecido falava em tom calmo e pausado. - Mas acho que furaces e ilhas tropicais so
duas coisas que se completam, no  verdade?
Alan deu vrias explicaes e novamente se ps a ouvir seu hspede. Como Audrey reconhecia aquele tom de "voc no tem outra sada"! Sabia que Alan no conseguiria
venc-lo com argumentos, fossem eles os mais razoveis possveis. Ela comeou a sentir-se mal, um frio no estmago, uma vontade irreprimvel de fugir. Mas nesse
momento Alan a viu e seu rosto mostrou uma expresso de alvio.
Levantou-se, e dirigindo-se a ela, pegou-a pelo brao e a levou para perto do desconhecido.
- Audrey, quero lhe apresentar York Laing, presidente da Companhia Laing de Aviao.
Embora Alan tentasse disfarar, Audrey tinha certeza de que ele sabia quem York Laing era. Ela estendeu a mo e, com um sorriso frio e muito breve, cumprimentou-o.
-  Como vai, York? - No havia como fingir. Sentia que Sally a olhava muito espantada e ficou feliz por saber que pelo menos a amiga no fazia parte daquela trama.
Audrey no precisou ver os olhos muito verdes e irnicos de York para saber o que ia encontrar neles, j conhecia muito bem do que eles eram capazes.
York era um homem muito bonito, com uma beleza mscula, dura, viril, seu queixo era quadrado, sua expresso forte e determinada. Parecia no ter medo de nada e estar
sempre pronto para enfrentar desafios.
Meu Deus, pensou Audrey, Alan fisgou um peixe grande demais para seu anzol, e pensava em us-la como isca!
York olhou Audrey de alto a baixo, examinando-a desde seus cabelos muito brilhantes at a ponta de seus ps, calados com sandlias elegantes. Ele parecia despi-la,
deixando seu corpo a descoberto.
Audrey forou-se a enfrentar esse olhar, conservando-se parada e quieta. Tempos atrs esse olhar seria suficiente para colocar seu corpo em chamas. Mas naquela poca
era muito ingnua e podia perceber somente a atrao sexual que exercia sobre ele, sem perceber a frieza que existia por baixo daquele ardor aparente.
As mulheres viviam perseguindo York. Ele era muito vivido e experiente e parecia conhecer tudo sobre elas: no s como proporcionar-lhes prazer como tambm elogi-las.
- Acho que j podemos ir para o restaurante. Assim tomamos uns drinques antes do jantar. - Alan parecia ansioso por interromper a conversa com York. - Mais tarde
poderamos discutir sobre nosso assunto de novo. Estaremos mais relaxados e nos compreenderemos melhor.
Alan foi encaminhando todos para a porta e Audrey foi a primeira a sair, sentindo o olhar espantado de Sally quase lhe pedindo explicaes. York saiu logo a seguir
e Audrey sabia que ele continuava a examin-la. Teria que manter seu sorriso gelado, capaz de desanimar qualquer homem com pretenses de dom-juan.
A sensualidade de York j estava causando efeitos em Sally que, embora loucamente apaixonada por Rick, se deliciava com a conversa dele.
Aps fechar a porta da cabana, Alan chegou junto de York e ambos seguiram conversando. Sally aproveitou para ficar um pouco mais para trs e no conteve sua curiosidade.
- No vai me contar tudo, Audrey? Senti como se uma corrente eltrica tivesse atingido a cabana quando voc entrou! Alm disso, voc ficou branca como cera quando
viu York!
Audrey no pde responder, pois nesse instante York virou-se para ela e comentou:
-  Que esposa devotada voc , meu amor! Ainda bem que vim de to longe s para v-la! - Como se tivesse dito a coisa mais natural do mundo, York continuou a conversar
com Alan.
- Acho que estou ficando louca! - Sally no podia se conter. - Ele  mesmo seu marido?
Audrey ficou impressionada com o poder de atrao de York. A amiga sabia muito bem o mal que o casamento com York havia lhe feito e, no entanto, parecia ach-la
uma idiota por t-lo abandonado! Mas como ela podia culpar Sally, se ela mesma tinha cado pelos encantos diablicos daquele homem?
Os quatros continuavam pelo caminho que levava ao restaurante. York agora conversava com Sally e Alan fazia companhia a Audrey.
- Sinto muito por ter causado esta situao, Audrey, mas ele no me deixou outra alternativa, Quando eu o conheci, no fazia idia de que era seu marido. Ele, me
foi apresentado atravs do banco e parecia muito interessado pelo negcio. Foi somente depois que ele descobriu como minha situao era difcil que imps a condio
de vir at aqui, s que fazia questo que voc estivesse presente. Chegou at a me ameaar de me deixar falido, se eu no concordasse com o que ele queria.
- E voc concordou e me atirou na cova do leo, no ? - Ela procurou no demonstrar a raiva que sentia, mas no foi bem-sucedida. Lembrou os sonhos terrveis que
tinha logo depois de abandonar o marido, e tornar a v-lo foi reviver a mesma situao. Nunca havia sido discutida a possibilidade dele quer-la de volta, pois os
dois acabaram com os vnculos que os mantinham unidos. Assim que se separou, Audrey voltou a usar seu nome de solteira e York nunca fez nenhuma tentativa de procur-la.
Ento, por que agora ele fazia tanta questo disso?
- No faa uma tempestade num copo d'gua, Audrey! Ele quer apenas conversar com voc.
- Voc no foi leal comigo, Alan. Sabia quem ele era e no me disse nada, pelo contrrio, ficou sempre me dizendo que fosse simptica com ele!
- York me fez prometer que no contaria nada a voc. Se eu no concordasse, ele me arruinaria com um estalar de dedos. Para ser honesto com voc, ele ainda pode
faz-lo, se quiser.
- Mesmo assim, Alan, voc devia ter dito.
- Ento, agora vou colocar minha vida em suas mos. Sabe o que St. John significa para mim, no ? No s financeiramente, e esse homem tem o poder de tornar essa
ilha meu sonho dourado ou me arruinar para sempre. Sei que no tenho o direito de lhe pedir, mas... pode me ajudar?
- Andem mais depressa - Sally chamou-os. - Deixem a conversa para depois.
Entraram no restaurante e York parecia no tomar conhecimento da presena de Audrey. No entanto, ela estava to consciente da figura forte do marido que mal conseguia
respirar naturalmente.
Por que ele a estaria procurando agora? Ser que ia pedir o
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divrcio? Se fosse isso, no poderia ter tratado de tudo atravs dos advogados?
E ainda tinha que pensar em Alan! Ser que ele compreendia que agora lhe seria impossvel permanecer em St. John? No. Com certeza ele no pensava em nada que no
fossem seus negcios, e York tinha um papel muito importante neles.
Sentaram-se numa mesa muito bem localizada. O restaurante era luxuosssimo e decorado com muitas plantas e corais tirados dos recifes que circundavam parte da praia.
O salo tinha sido escavado na prpria rocha e atravs de grossos vidros podia-se ver o fundo do mar, raso naquele lugar e repleto de plantas marinhas e peixes muito
coloridos. Era como se estivessem fazendo uma visita ao reino encantado do fundo do mar. A princpio, todos se entretiveram com a vida submarina, comentando sobre
a beleza das estrelas-do-mar, os corais, os peixes pequenos e grandes, que muitas vezes colocavam se ao vidro, olhando-os como se realmente pudessem se comunicar.
Logo a seguir a conversa na mesa comeou. S Audrey permaneceu quieta, enquanto observava a atitude do marido. Ele se dividia conversando ora com Sally, a quem fazia
rir com suas observaes inteligentes, ora com Alan, com quem mantinha uma conversa trivial, mas interessante.
Como ela havia vibrado com essa voz intensa e profunda! Como tinha ficado excitada ao mais leve toque daquelas mos! Lembrava-se ainda de seus desejos, desesperados
pelas carcias suaves e deliciosas que o marido to bem sabia fazer! Audrey mantinha os olhos fixos no copo de vinho. Tinha medo de demonstrar no olhar seus pensamentos.
Mas o marido, agora com trinta e quatro anos, parecia bem diferente do homem que ela conhecera h trs anos. Estava mais duro, mais desconfiado, com uma expresso
que no admitia concorrncia, jamais permitiria que algum se aproximasse de uma coisa que considerasse dele.
At que ele tinha motivos para ser assim calejado! Tudo que sabia foi aprendido na escola dura da vida. Seu pai havia abandonado a esposa quando York tinha apenas
seis anos. Nunca mais o pai os procurara, preferindo dar apoio  filha que tivera com outra mulher.
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GAIOLA DOURADA
York jamais esqueceu essa rejeio. Somente uma vez, enquanto casados, ele havia mencionado o nome do pai para Audrey. Ela perguntou sobre o sogro e York lhe contou
que o pai foi um construtor muito bem-sucedido mas que, quando morreu, no tinha deixado nada para ele nem para sua me.
Audrey sabia que, para York, o desejo de progredir era resultado dessa rejeio. Sua necessidade de mandar, de dominar a situao, provinha desse incio de vida
amargo e difcil. Mas, sem dvida nenhuma, ele tinha alcanado seus objetivos, pois se tornara um homem poderoso, rico, independente e dono de um imprio, representado
principalmente pela companhia area de sua propriedade, que era mundialmente conhecida.
O garom trouxe a lagosta que Audrey havia pedido como entrada, mas ela estava to nervosa que mal conseguiu prov-la. Desde que se separara de York, preparava-se
para o instante em que teria que enfrent-lo de novo. Agora que o momento tinha chegado, ela se sentia amedrontada e evitava qualquer contato, mesmo visual, com
o marido. No entanto, podia sentir que ele estava sempre olhando na direo dela. 0 que ele queria? Todos j tinham terminado de saborear o prato de entrada e Audrey
mal havia tocado no seu.
- Alguma coisa a fez perder o apetite? - Era York que se dirigia a ela.
Audrey limitou-se a sorrir, mantendo a atitude distante. Tempos atrs ela no teria tido frieza suficiente para se manter assim alheia, pois em poucos minutos York
conseguia deixar seu corpo em brasas, seus sentidos ficavam completamente  merc da vontade daquele sedutor! Naquela poca, Audrey achava que o marido a amava,
e no fim tinha chegado  concluso de que o que ele sentia era muito mais dio do que amor. No fim de seu relacionamento, o casamento havia se tornado um inferno
e Audrey lutava com toda a fora de sua mente para livrar o prprio corpo daquele domnio irresistvel que York exercia. No havia dvida de que tanto Alan como
Sally estavam encantados com a presena marcante de York. Audrey sabia o que era isso, pois tinha lhe acontecido a mesma coisa. Agora, porm, mais experiente, conseguia
resistir ao sorriso simptico e sensual do marido e a sua nica aspirao era sobreviver s poucas horas que ainda lhe restavam na companhia dele.
Por alguns instantes, Alan e York se envolveram num animado papo sobre negcios. Sally aproveitou o breve intervalo para conversar com Audrey.
- Adorei seu vestido! Ficou maravilhosa com ele! Acho que se pudessem, as outras mulheres aqui presentes a matariam de inveja... Em compensao, acho que todos os
homens dariam a vida para ver como voc  na cama!
Audrey ficou vermelha ao ouvir o comentrio da amiga. Estava acostumada com as idias liberadas de Sally, mas desta vez estava realmente chocada. Sem saber por que,
olhou na direo de York. Infelizmente para ela, ele estava prestando ateno na conversa e ouviu o ltimo comentrio de Sally.
-  E verdade, Audrey. Que tal voc ? J faz tanto tempo que praticamente esqueci como era.
- Acho que me acharia um fracasso. - Com coragem, Audrey olhou fundo nos olhos do marido e depois desceu o olhar pelo corpo dele, como se o estivesse avaliando.
Sabia que isso irritava o marido pois, como bom macho, achava justo que os homens fizessem isto com as mulheres, mas no o contrrio.
No entanto, York no se mostrou abalado nem sem jeito, pelo contrrio, lhe devolveu o mesmo olhar observador, detendo se por um longo tempo no ponto em que o vestido
de Audrey ousadamente, mostrava o inicio da curva dos seios. Ela se virou para Alan, como se estivesse muito interessada na conversa, mas na realidade tentava se
recompor emocionalmente.
Apenas o fato de estar na mesma sala com York j a deixava sem foras. Ele parecia um campo de fora extrema, que a mantinha magnetizada e incapaz de pensar com
calma.
A comida devia estar deliciosa, pois todos a saboreavam com muito prazer. Audrey, porm, nem fazia idia do que tinha no prato. Tinha o estmago fechado pela tenso
que sentia. Alguns casais estavam danando e ela tremeu de medo ao pensar que York poderia convid-la. No iria! Isso seria superior s suas foras! No poderia
sentir de novo os braos do marido!
Foi com alvio que ouviu a voz de Alan:
- Vamos danar, Audrey?
Os dois foram para a pista, que estava bastante cheia. Pouco depois, York e Sally tambm comearam a danar. Assim que uma nova msica comeou, Audrey sugeriu a
Alan que se sentassem.
- Ainda no me desculpou pelo que fiz, no , Audrey? No tive a menor chance de agir de outro modo, acredite. E acha que, mesmo que eu no tivesse concordado, ele
no teria dado um jeito de vir para c? York est muito acostumado a ter tudo o que deseja e a transformar sua vontade era lei.
- Sei disso, Alan, mas devia ter me prevenido. - Audrey levou o copo de vinho aos lbios para tomar mais coragem. - Vou deixar a Travei Mates, no posso mais continuar
nela depois do que aconteceu.
Alan praguejou em voz baixa e ficou olhando para York e Sally que danavam muito juntos. Audrey seguiu o olhar dele e, para sua surpresa, no se sentiu magoada ao
ver York abraando outra mulher. Em outros tempos, talvez tivesse ficado desesperada e infeliz, mas agora j conseguia enfrentar essa situao com calma e frieza.
A msica parou e o casal se separou. Continuaram juntos e conversando e, pelo jeito de York, Audrey tinha certeza de que ele estava passando uma cantada em Sally,
exatamente como anteriormente havia feito com ela.
Num movimento rpido, Audrey se levantou, pegou a bolsa e avisou Alan que ia ao toalete retocar a maquilagem. Sentada em frente ao espelho, ela penteava os cabelos,
quando a porta se abriu e Sally entrou.
- Voc est bem? - Sally perguntou, solcita.
- To bem como se pode estar quando se  posta frente a frente com um passado que se julgava morto e enterrado.
- E que passado! - Sally suspirou, os olhos sonhadores.
- O que quer dizer com isso? Que se voc tivesse sido casada com ele jamais o teria deixado escapar?
Sally percebeu a amargura na voz da amiga, sentou-se a seu lado e manteve-se calma.
- J somos amigas h muito tempo, Audrey, e sei que espcie de pessoa voc . Tenho que admitir que York no  nem de leve o marido que voc descrevia. Ele  muito
mais excitante, sensual e maravilhoso do que voc contava. E acho que pode compar-lo com tudo, menos com um pedao de ao gelado. Acho que ele  muito insinuante,
mas morreria de medo de t-lo como inimigo. Quanto a Alan, acho que ele agiu muito mal, no a prevenindo que era York a pessoa esperada. Mas acredito que manter
isso em segredo tenha sido idia do prprio York. Audrey concordou com a cabea.
- Ento Alan deve ter sido obrigado a guardar segredo sobre quem vinha para c. Pense bem, ele no foi inteiramente culpado por mant-la na ignorncia.
- York ameaou destruir a Travel Mates se Alan no fizesse como ele queria. - Audrey confirmou as suspeitas de Sally.
- E agora, o que pretende fazer?
- Vou embora daqui assim que puder. No sei o que York quer, e no tenho a menor vontade de saber. S h uma coisa que quero dele: o divrcio!
Sally estava preocupada com o estado de nimo da amiga.
- Quer que eu fique com voc esta noite? Parece to agitada!
- No, obrigada, no  necessrio, mas agradeo por ter se oferecido.
Audrey saiu do restaurante e se sentiu melhor ao respirar o ar fresco e perfumado da noite tropical. Logo comeou a pensar em como poderia escapar daquele lugar.
No dia seguinte tinha que participar do passeio de lancha em redor da ilha, pois ela mesma o organizara e no havia ningum que a pudesse substituir. Mas sabia que
saa um vo direto de Santa Lcia, uma ilha prxima, para Londres. Poderia dar um jeito de seguir nesse avio.
Quanto ao que faria quando chegasse em Londres, achava melhor no pensar agora, mais tarde teria tempo suficiente para isso. O mais importante naquele momento era
pr a maior distncia possvel entre ela e York. Ser que o Atlntico era distncia suficiente para mant-lo afastado?


                                                      CAPTULO II

Saindo do restaurante, Audrey no foi diretamente para sua cabana, preferindo andar pela praia, para refrescar as idias. Tirou as sandlias e caminhou pela areia
ainda quente do calor do dia.
Ela se sentia ansiosa e tensa, aproveitava a amplido do mar para se acalmar. Como seria bom entrar na gua e caminhar, at que a gua a envolvesse completamente
e pusesse um fim a todos seus sentimentos.
Depois de andar bastante, molhando os ps na beira d'gua, Audrey finalmente se encaminhou para sua cabana. Assim que entrou, seu sexto sentido a preveniu de que
no estava sozinha. Havia um cheiro suave de tabaco na sala escurecida e no mesmo instante ela reconheceu o odor. Sabia quem estava ali, envolto na sombra, perto
da janela.
Antes que ela esboasse qualquer reao, ele cruzou a sala e segurou-a pelo pulso. Puxando-a para mais perto de si, fechou a porta, trancou-a e colocou a chave no
bolso.
- Voc continua a mesma, Audrey. Nunca luta quando pode fugir.
- No estava rugindo, York. Na verdade, estava to cansada pelo dia exaustivo que tive, que j estava indo para a cama.
Imediatamente ela percebeu a inconvenincia do que tinha dito. Se conhecia bem o marido, ele entenderia com malcia suas palavras. Os olhos verdes de York adquiriram
um brilho maroto e seu tom foi bastante irnico.
- Eu tambm.
- Quis dizer: ir para a cama sozinha. - Audrey nem tentou disfarar, fingindo que no tinha entendido a sugesto. -Acho muito mais agradvel, principalmente com
o calor que faz aqui.
Embora com a cabea erguida, em atitude de desafio, Audrey mal alcanava o queixo de York. Ela sentiu que sua resposta o tinha surpreendido. Normalmente teria ficado
zangada com a sugesto dele, e se poria na defensiva. Mas agora procurava agir de modo mais adulto.
- Est ficando mais experiente! Com quem tem ido para a cama? No deve ter sido com seu amigo Alan, no ? Diga a verdade, Audrey, j dormiu com ele?
- Acho que isso no  da sua conta. - Ela foi at o canto da sala e acendeu a luz. Ouviu o respirar pesado do marido e teve certeza de que ele estava zangado. Finalmente
tinha conseguido atingi-lo! Otimo! Ele sempre conseguia venc-la com sua lgica e firme determinao, e ela, por am-lo muito, sempre entregava os pontos. Mas agora
a situao era diferente!
- Dormiu com ele? - York insistiu.
- Por que no pergunta diretamente a ele?
Audrey tinha certeza de que York no faria tal coisa, por isso no teve medo de enfrent-lo. Ia ser mais fcil do que supunha! Imaginara que ele fosse um adversrio
invencvel, mas, com o passar do tempo, ela havia crescido e passado de uma adolescente ingnua e inexperiente a uma mulher madura e resoluta, e o via agora com
outros olhos.
- Me entregue a chave e saia, York. Quero descansar porque preciso trabalhar amanh cedo.
- Essa maneira fria e distante pode funcionar com outras pessoas, mas no comigo, Audrey. Sei muito bem o que existe por trs dessa aparncia de gelo! Alm disso,
no atravessei milhares de quilmetros para ser dispensado assim. - Ele fez uma pausa, olhou-a com interesse, detendo-se nas curvas bem feitas de seu corpo. - Alis,
ns dois sabemos que essa frieza toda  apenas fachada, no  verdade?
-  Que voc quer? No estou disposta a ficar aqui falando sobre minha pessoa. Diga o que quer de uma vez e v embora. - Audrey apontou a porta.
Os olhos de York se estreitaram numa expresso de raiva to grande que ela teve que reconhecer que ele representava o mesmo perigo de sempre. York deu um leve sorriso
e comeou a fazer carcias sensuais nos pulsos dela.
- Quero voc, Audrey...
Alguns anos atrs, esse modo de agrad-la teria sido suficiente para fazer com que ela se atirasse em seus braos, ardente de paixo, ansiando por fazer amor com
ele, nica maneira de aplacar o desejo intenso que crescia em seu ser. Agora, no entanto, Audrey se controlava, e no havia nela o mais leve sinal de ardor, paixo
ou desejo.
- Acontece que eu no quero voc!
Ele ficou surpreso com essa resposta, mas logo depois estava novamente senhor da situao, o rosto impassvel.
- Pelo jeito, est querendo se vingar de mim! Tenho razo quando digo que por trs dessa aparncia fria e calculista voc  to vulnervel quanto um beb que perdeu
a me!
Audrey deu um risinho leve, frio, de zombaria. Procurava com isso se manter indiferente ao que ele dizia.
-   voc que no me conhece, York. J faz dois anos que no me v e se engana quando pensa que essa dureza que tenho  apenas fachada... ela  profunda e est bem
enraizada em mim. No sei por que resolveu colocar Alan em nossos assuntos particulares, mas j resolvi que vou deixar a Travei Mates. Vou pegar o primeiro avio
que me leve para bem longe daqui. A verdade  que no temos nada a dizer um para o outro.
- Voc no vai a lugar nenhum. - York parecia estar muito firme e decidido. - Vou tomar minhas providncias para que no v. E no adianta fingir, Audrey. No esquea
que conheo tudo sobre voc!
-  Voc conhecia tudo sobre uma jovem chamada Audrey que no existe mais. E no sabe nada a respeito da mulher em que essa garota se transformou.
- Ento acho que preciso comear a conhecer. - York chegou mais perto, mas ela escapou, indo ficar junto da janela.
- Nosso casamento terminou, York, e a nica coisa que quero de voc  minha liberdade.
- Pode-se dar um jeito sobre isso.
- Ento concorda com nosso divrcio? - Ela no pde esconder a surpresa que sentia.
-  Poderia concordar, se algumas condies fossem preenchidas.
- Que condies? - Audrey no conseguia imaginar o que ele pretendia dela.
-  Quero voc de volta, como minha esposa, morando na minha casa.
- Sua casa? E onde seria, York? Em seu apartamento em Londres, onde voc s fica uma vez por ms, no intervalo de suas viagens de negcios? - Audrey estava indignada.
- No, muito obrigada, mas isso no me serve e no tem como me convencer a voltar para voc. Lembre-se de que um prisioneiro nunca  punido duas vezes pelo mesmo
crime,
- Era isso que nosso casamento representava para voc? Uma priso? No entanto, se me lembro bem, voc concordou com ele com muita vontade e satisfao!
"Como ele era arrogante e seguro de sua vitria final!", pensou Audrey. Por dois anos ela tinha construdo um muro que a separava de um passado que desejava esquecer,
e agora York queria derrubar essa parede!
- Por que est fingindo que nosso casamento significou alguma coisa para voc? - A amargura aparecia claramente em sua voz. - Ns dois sabemos que, se eu no tivesse
partido voluntariamente, na certa voc me obrigaria a isso. J esqueceu que voc mesmo disse que nosso casamento havia sido um erro e que eu o cansava e aborrecia?
Ou no se lembra mais da rapidez com que me substituiu?
S de pensar nos maus momentos por que tinha passado durante o ano em que convivera com o marido, Audrey sentiu uma dor profunda em seu ntimo. Tornou-se tensa,
como se assim pudesse se livrar daquelas recordaes.
- Por que no pediu o divrcio assim que o deixei?
-  Para qu? Nada melhor que uma esposa para manter afastadas as mulheres que no se quer.
Ele era to cnico que Audrey sentia o sangue ferver nas veias. York no a amava, nunca se dera ao trabalho de negar esse fato!
- Por que me quer de volta? Sei que no me ama.
- Porque preciso de voc.
- Precisa? Nunca precisou de ningum em toda a sua vida, York! Sempre se vangloriou disso, me dizendo como era auto-suficiente! Alm disso, eu no preciso de voc!
J constru uma nova vida para mim e voc no faz parte dela.
- No quer o divrcio, Audrey? Concordo com ele, se me der quatro meses de sua vida. E s isso que quero, que fique junto comigo durante os prximos quatro meses.
Apesar da noite quente, Audrey sentia-se tremer. Durante o curto espao de tempo em que estivera casada com York, tinha conseguido notar que, por baixo daquela atitude
charmosa e sedutora, o marido era dono de uma vontade indomvel, que no admitia oposies  sua vontade. Ento, se dizia que queria que ela ainda ficasse como sua
esposa durante algum tempo, era porque tinha o firme propsito de consegui-lo.
- Mas por qu? - acabou perguntando-lhe.
- Por motivos de negcios.
Esse homem era louco! Como, negcios, se foi esse o motivo da separao? York nunca quis realmente se casar com ela, o que ele pretendia, na verdade, era ter um
caso passageiro, nada de permanente. Audrey sabia que teria sido muito melhor manter um romance com ele, mas... na ocasio tinha somente de-zenove anos, era ingnua
e inexperiente, ainda uma menina inocente.
- No vejo porque os negcios iriam nos unir, agora, York!
- No foram eles que nos separaram. Se eu tivesse alguma coisa que me fizesse querer voltar para casa, as coisas teriam sido diferentes. - Seu tom de voz era cruel,
direto. - Mas no vamos falar do passado, Audrey,  o futuro que nos interessa. Sei que vo me oferecer o ttulo de cavalheiro, vou passar a me chamar sir York Laing.
Essa homenagem me vai ser concedida por grandes servios prestados  indstria do pas... pelo menos foi essa a explicao que me deram.
Audrey sabia como o marido era ambicioso e trabalhador, mas jamais havia pensado que ttulos e honrarias lhe fossem importantes. Ficou quieta, deixando que ele continuasse
com as explicaes.
- Para mim  indiferente ter esse ttulo, mas ele vai representar muito para minha companhia area. No entanto, fui prevenido de que, se eu for casado, o governo
ver com mais satisfao e rapidez essa honraria.  por isso que preciso de uma esposa.
- Voc no vale nada, York! V arranjar esposa onde quiser e me deixe em paz!
- O que esperava, Audrey? Que eu dissesse que tinha atravessado meio mundo s para convid-la para ir para a cama comigo? Seria muita pretenso de sua parte! Voc
era atraente, mas no tanto, assim!
Tamanho sarcasmo deixava Audrey cada vez mais indignada.
- E para que devo procurar outra esposa, se j tenho uma aqui?
Ela procurava se manter fria e controlada, mas sua vontade era dar um sonoro tapa na cara de York e p-lo dali para fora. Se agisse assim, porm, teria um inimigo
implacvel pela frente.
- Pare com isso, York. No sou propriedade sua e nada me far voltar para voc.
- Est com medo? Ainda continua fugindo assustada? Ainda fica apavorada de enfrentar a vida e viver a realidade das coisas?
Apesar de tudo, York a conhecia bastante bem, pois essas palavras tocaram um ponto sensvel de Audrey, que foi obrigada a reconhecer que ele falava a verdade.
- No tenho medo de voc, nem de homem nenhum! O passado, para mim, est morto!
-  Como pode dizer isso se continua ligada a mim, como minha esposa? Por mais que queira se livrar desse fato ou de suas recordaes, no o consegue, no ? Posso
perceber claramente que odeia tudo que aconteceu, mas no pode esquecer!
-  J lhe disse que coloquei uma pedra sobre tudo e no quero mais falar sobre isso! - Audrey procurou manter a voz firme, mas sentia que seu corpo no parava de
tremer.
- Voc  covarde, Audrey. Pensa que pode escapar de tudo
que aconteceu, fazendo de conta que o passado no existiu? Ou est tentando esconder alguma outra coisa da qual tem mais medo ainda? Talvez no seja to indiferente
a mim como pro-
cura parecer?
-  De fato, no sou indiferente, porque na realidade eu o odeio e vou continuar odiando at o dia em que morrer! V embora! Saia daqui, York!
Virou as costas, tentando se controlar. Esse tipo de cena j havia se repetido antes. Ela tomava atitudes desafiadoras, mas ele tinha certeza de que acabaria vencendo
sua resistncia. No ia deixar que isso acontecesse de novo! No seria a perdedora dessa vez!, decidiu.
-  J no sou mais aquela que voc conheceu e no vou deixar que me deixe to revoltada a ponto de reagir como costumava fazer. O passado est morto e agora sou
imune a seus encantos e manobras. Sei que daqui a dois anos posso requerer o divrcio e ficar livre para sempre. Por isso, vou esperar com pacincia  no h nada
que possa fazer para me convencer do contrrio.
York se aproximou e puxou-a com fora para junto de seu corpo quente, viril...
- Quero ver se est mesmo imunizada - ele murmurou e com movimentos selvagens a prendeu em seus braos, chegando aos lbios dela, apertando-os, forando-os a se
abrirem e corresponderem, reavivando memrias, despertando em Audrey as lembranas de como se entregava  menor carcia dele.
Ela sentiu a boca seca, os msculos retesados, os sentidos bem alertas. Quantas vezes ele no tinha vencido sua resistncia, acabado com seu controle, dominado sua
vontade? Mas no ia conseguir nada dessa vez!
Audrey permaneceu fria, distante, indiferente, mantendo-se quieta, apertando as unhas contra as palmas da mo, para que sentindo essa dor no pensasse no encanto
msculo e dominador do homem que a beijava. Sentiu que a raiva tomava conta dele, que a presso de seus lbios se tornava mais insistente, que York tentava de todas
as maneiras faz-la corresponder a seus carinhos.
Quando finalmente ele ergueu a cabea, Audrey pde notar uma fria quase assassina nos olhos do marido,
- J terminou? - ela perguntou, gozando a prpria vitria.
- Acabei coisa nenhuma! -Mais uma vez ele a beijou, com mais selvageria ainda.
Audrey conseguiu ficar nos braos dele como uma boneca de pano, inerte, enquanto York a beijava no pescoo, na boca, nos olhos, abrindo velhas feridas, deixando-a
com o corao em pedaos. Mesmo assim, ela no demonstrou emoo alguma.
York acabou soltando-a, e empurrou-a para o lado, ao mesmo tempo que demonstrava sua raiva.
- Vagabunda, bem que gostou disso, no foi?
- No, York, no gostei, no. Nenhuma mulher gosta de ser humilhada e usada e, felizmente, aprendi a distinguir entre castigo e prazer. Talvez agora esteja convencido
de que nada no mundo me far voltar a viver com voc como sua esposa!
- Nem mesmo se eu prometesse lhe dar o divrcio assim que recebesse o ttulo de sr? Pense bem, Audrey. Posso facilitar as coisas ou ento arrast-la aos tribunais
para conseguir o divrcio. J pensou o que seria levar a pblico tudo que j aconteceu entre ns? Acho que teria mais a perder do que eu. No entanto, podemos fazer
nosso acordo amigavelmente e voc ficar livre sem maiores dores de cabea. Tudo que peo  que permanea como minha esposa durante quatro meses. Se fizer isso,
prometo que meu advogado lhe entregar os papis assinados assim que conseguir meu ttulo.
Audrey sabia que York no a estava somente ameaando, sabia que ele cumpriria tudo o que havia dito e ela no tinha a menor vontade de reviver o passado diante de
estranhos, deturpado por advogados, comentado pela imprensa vida de fofocas e novidades.
- Sei que quer demais esse divrcio, Audrey. Portanto, consiga-o da maneira mais fcil. Se quiser, dou por escrito um documento, concordando com ele assim que meu
caso estiver resolvido.
- Ento  melhor comear a escrever.
- Ainda bem que concordou comigo.
Aquele mesmo sorriso vitorioso aparecia nos lbios de York.
Mas... que alternativa ela tinha? No era melhor aguentar a situao de esposa por mais quatro meses e ficar livre, de uma vez, do que ainda esperar dois anos e
ter que enfrentar o tribunal?
- Exijo, porm, duas condies, York. Que nosso divrcio seja concedido assim que conseguir o que quer e que ajude Alan a reerguer o que tinha aqui em St. John.
Voc no vai perder nada com esse investimento, pois sei que, uma vez que tudo esteja reconstrudo e pronto, vai dar muito lucro.
- No vai exigir uma terceira condio? Que eu me mantenha afastado de sua cama? S para se manter a salvo, caso derreta esse gelo que a cobre e se recorde de como
costumava ser conosco?
Ela engoliu em seco ao pensar em como costumava corresponder s carcias dele. Mas no queria pensar nisso!
- No preciso dessa terceira condio. Como provavelmente, vamos morar em seu apartamento, sei que a cama  sua e no esqueci do que me disse: que a nica maneira
de voltar a ela seria pedindo de joelhos. Acontece que no vou lhe pedir nada, mesmo que estivesse morrendo de sede no lhe pediria um copo d'gua! Como v, no
preciso impor essa condio. Quero deixar bem claro que vou voltar a morar com voc, somente para ter o prazer de ficar completamente livre em muito pouco tempo.
York ficou plido e Audrey exultou por ter tocado num ponto sensvel. Ele no se importava com o quanto pudesse humilhar os outros mas, quando era ele que recebia
as humilhaes, a situao era bem diferente. Ela sentiu um gosto amargo na boca ao recordar aquele dia distante em que ele a fizera sofrer tanto. Foi ento que
resolveu partir, antes de ser destruda. Se tivesse continuado com ele acabaria por no resistir e provavelmente pediria que fizessem amor de novo, perdendo completamente
o respeito por si prpria.
- Espero que Alan valorize o que est fazendo por ele - York disse, interrompendo os pensamentos dela.
-  por mim mesma que estou agindo assim. Na verdade, gostaria de lhe dizer que o contato com voc me enche de desprezo e repugnncia, mas isso no  verdade. O
que acontece  que no sinto absolutamente nada, nem por voc nem por ningum mais. Voc simplesmente destruiu minha capacidade de sentir.
Muito devagar, York se dirigiu para a porta, tirou a chave do bolso, abriu a fechadura e lhe devolveu a chave.
- No tente fugir de mim - ele avisou-a -, ou nunca mais a deixarei em paz. Vamos sair juntos daqui, assim que tiver resolvido as negociaes com Alan.
Audrey no respondeu, pois mal tinha foras para respirar. Sentia-se como se tivesse morrido e renascido, como se tivesse passado por um holocausto, para reaparecer
como uma nova pessoa.
Encostando a cabea no vidro frio da janela, Audrey se deixou ficar parada, sem pensar em nada, como que procurando recobrar as energias. Pouco depois ouviu que
algum batia  porta. Era Sally, que entrou com uma expresso preocupada.
- Vi que York acabou de sair daqui. O que aconteceu?
- Ele concordou em me dar o divrcio, desde que eu ainda fique durante quatro meses com ele.
- Acha que se voltar a viver com ele vai conseguir vencer os fantasmas do passado, no , Audrey?
- Acho que sim. No  assim que os psiquiatras fazem para que as pessoas venam seus traumas?
- Espero que saiba o que est fazendo. Talvez esteja brincando com fogo.
- J estou vacinada contra York. - Era bom discutir o caso com Sally, parecia que tudo ficava mais claro e que ela ia perdendo o medo de enfrentar as situaes.
De uma coisa estava certa: j no devia mais fugir e sim enfrentar de uma vez por todas seus problemas. S ento poderia se considerar uma mulher adulta.
-  No quer mesmo que eu fique aqui com voc? - Sally quis saber.
-  Prefiro ficar sozinha. Tenho muito o que pensar. Muito obrigada.
Quando a amiga saiu, Audrey foi at a janela e ficou olhando o movimento rtmico das ondas que iam e vinham. Essa imensido azul a fazia ficar mais calma. Abriu
a porta e saiu para o terrao.
A praia estava deserta e escura. Ela se ps a caminhar na areia macia, aproximando-se da beira d'gua, molhando os ps. Aproveitava a liberdade que a solido lhe
dava.
Sempre tinha gostado do mar, e ficava fascinada pelo seu movimento incessante. Era delicioso sentir o cheiro de maresia, ter os cabelos flutuando no vento, ouvir
o barulho cadenciado dos ondas se quebrando na areia. Quando alcanou o ponto em que a praia era interrompida por rochas, Audrey parou e se sentou, numa pedra. Suas
ideias pareciam ter clareado.
Desde que abandonou o marido, estava sempre se escondendo de suas recordaes. Agora agiria diferente: ia enfrentar as situaes, por mais dolorosas que fossem,
e sair vitoriosa! H dois anos que ela se considerava livre, embora fosse prisioneira de seu passado. S estaria realmente e completamente curada quando pudesse
se abandonar nos braos de York sem sentir nada...


                                                         CAPTULO III

Audrey trabalhava num hotel, como recepcio--nista, quando viu York pela primeira vez. No mesmo instante se impressionou com seu ar dominador, sua masculinidade,
seu poder de atrao. Ele parecia sado de uma revista, dessas que anunciam seus produtos com homens dinmicos, cercados de mulheres e carros de luxo.
A outra recepcionista, Mary, que estava lhe ensinando a funo, ficou to encantada quando o viu que no conseguia fechar a boca, maravilhada.
- Isso  que  homem, Audrey, o resto  conversa - Mary conseguiu murmurar baixinho. - E est sozinho! A nica pena  que sendo moreno deve preferir as loiras, e
eu tenho cabelos to escuros...
Audrey olhou espantada para a amiga. Ser que os rapazes morenos realmente gostavam de loiras?
- No fique me olhando feito uma boba, Audrey! Meu Deus, voc no sabe nada de nada!
Audrey poderia ter dito que sabia um monte de coisas. No entanto, sabia o que Mary queria dizer com "nada de nada", ela referia-se a rapazes. Por isso, ficou quieta,
enquanto aquele homem maravilhoso se aproximava.
Mary o atendeu com o mximo de ateno e charme, mas ele nem reparou nela. Limitou-se a assinar o nome no livro de registros, enquanto esperava que o carregador
viesse para levar suas inalas.
Quem seria esse homem? O que estaria fazendo ali? Audrey no conseguia tirar os olhos do desconhecido. Num determinado momento, ele ergueu os olhos e encontrou os
dela, perdendo aquela expresso indiferente. Audrey sentiu que ficava vermelha e desviou o olhar.
York seguiu para o quarto e logo depois terminou o tempo de servio para Audrey. Mas, no dia seguinte, Mary tinha muitas coisas para contar sobre o visitante.
Seu nome era York Laing e estava ali por ordem mdica, para se recuperar de uma gripe muito forte. A princpio, aquele nome pareceu familiar para Audrey. Somente
depois  que lembrou que ele era o Presidente da Companhia Laing de Aviao, que fazia centenas de linhas dentro da Inglaterra e tambm para o exterior. Que faza
um homem to importante num lugar pacato como aquele, no norte da Inglaterra? A Riviera Francesa seria um lugar muito mais apropriado para ele!
- Que homem sensacional! - Mary comentou, quando York passou pela portaria. - E, pelo jeito, deve ter uma experincia incrvel com as mulheres!
York se deteve por uns segundos diante do balco da recepo, cumprimentou as duas com um sorriso e deteve seu olhar em Audrey, que corou como uma garotinha. Embora
tudo fosse muito rpido, nada passou despercebido a Mary.
Todo o pessoal do hotel considerava Audrey como sua mascote. Embora ela tivesse dezenove anos, sua inexperincia era to gritante que todos procuravam proteg-la
de uma maneira carinhosa.
Somente quando comeou a trabalhar nesse hotel  que Audrey se deu conta de como sua educao tinha sido  moda antiga. Ela havia perdido os pais num acidente de
carro, quando ainda era um beb, sendo criada por uma tia solteirona, cujo noivo tinha morrido na Primeira Guerra Mundial. Emma Kane era um produto da poca em que
as moas eram educadas para serem "moas direitas e honestas" e foi esse o tipo de educao que deu  sobrinha. A escola que Audrey havia frequentado era pequena
e lhe proporcionara boa cultura, mas, por ela ser muito tmida, nunca tinha tido amigas ntimas com quem pudesse conversar sobre maneiras de agir, ou com quem trocasse
ideias.
279
GAIOLA DOURADA
Assim, a diferena que existia entre o tipo de criao de Audrey e o das outras moas foi se tornando cada vez maior.
Quando tia Emma morreu, Audrey tinha ficado chocada, desanimada, completamente perdida. A casa em que viviam foi vendida e ela sentiu-se sozinha pela primeira vez
na vida, sem saber o que fazer. Por sorte, o advogado que cuidava dos negcios da tia teve pena dela e conseguiu-lhe um emprego de recepcionista.
Convivendo com outras moas de sua idade, Audrey tentou se adaptar. Todas caoavam de sua ingenuidade, mas ela sentia o carinho com que as observaes eram feitas
e no ligava. Chegou at a sair com alguns rapazes, mas nenhum deles a impressionou o bastante para que aceitasse um segundo convite.
Audrey nunca tinha se apaixonado na vida e, quando reparou no sorriso cheio de promessas de York Laing, comeou a se sentir no s muito excitada ramo tambm amedrontada.
- Acho que ele tem uma quedinha por voc - Mary observou com uma ponta de inveja. - No lhe disse que os morenos gostam das loiras?
Audrey sorriu, achando que Mary estava brincando com ela.
- Voc  o cmulo da inocncia! Aquela sua tia nunca lhe explicou nada da vida? - Sally levou a amiga para diante do espelho. - D uma boa olhada em si mesma.
Olhando seu reflexo no espelho, Audrey sentiu-se corar. Seus cabelos muito loiros lhe caam sobre os ombros em ondas suaves, os olhos, de um castanho dourado, eram
sombreados por clios compridos, o corpo, esguio, apresentava curva nos lugares certos, deixando sua cintura fina ainda em maior evidncia.
- No tem jeto, mesmo, Audrey. Sem dvida nenhuma, voc  uma das moas mais lindas que j vi na minha vida! E, no entanto, voc faz uso dessa beleza toda? No!
Tem o ar de uma freira, vive se escondendo e no reala todas as coisas boas que Deus lhe deu. Nunca reparou como os homens a olham?
Na verdade, jamais tinha dado muita importncia para isso, Audrey reconheceu. Mas, lembrando-se de como se sentira quando York Laing havia olhado e sorrido para
ela, reconheceu tambm que, pela primeira vez na vida, desejara que ele a achasse bonita.
- Estou de folga hoje  tarde. Vamos fazer compras juntas? - Mary props.
-  Vamos sim, adoro ver vitrines. Como s trabalho at a hora do almoo, vamos ter tempo de sobra para sair.
Audrey acabou de se vestir e foi para a recepo cumprir seu turno de trabalho. A manh no foi muito movimentada e quando j era quase hora de parar, ela ouviu
a voz de York. Virando-se para lhe responder, encarou-o vermelha e sem jeito.
- Posso servi-lo em alguma coisa? - Sua maneira de falar era forada, sem nada da naturalidade que ela costumava ter.
- Gostaria de saber se pode ir comigo, hoje  tarde, dar um passeio pelas vizinhanas. No conheo nada por aqui e talvez me pudesse servir de cicerone.
Audrey ficou entusiasmada com o convite, mas ao mesmo tempo triste, porque ele precisava apenas de algum que conhecesse o lugar, e no dela, especialmente.
- Sinto muito, mas hoje vai ser impossvel. J combinei com Mary para irmos fazer compras.
- Fica ento para qualquer outra ocasio. - Imediatamente York foi embora.
Mais tarde, estando com a amiga, Audrey lhe contou o que tinha acontecido e ouviu um bom sermo.
- Voc  uma boba! Deveria ter dito a ele que estava livre e passar uma tarde maravilhosa! S mesmo uma tonta como voc deixaria de sair com aquele homem maravilhoso
para fazer compras comigo!
- Mas ele no fazia questo que fosse eu! S queria algum que pudesse lhe mostrar o que h de bonito por aqui.
- Homens como York Laing no precisam procurar companhia, sua boba. Eles tm mais gente  sua volta do que gostariam de ter. Por isso mesmo so eles que escolhem
com quem querem estar.
Audrey escutava atentamente o que a amiga dizia. Abria bem os olhos, tentando compreender melhor aquele mundo desconhecido para ela.
- Em parte, acho que foi melhor que no tivesse sado com ele. Voc  to ingnua e inocente que talvez no soubesse nem como agir com um homem daqueles, charmoso
e experiente!
- Deixe de ser exagerada! Ele me convidou apenas para um passeio de carro e no para um assalto  minha virtude.
- Acho que  um perigo deix-la sozinha, Audrey! Voc no entende bem como age um tipo de homem como York Laing. Ele no precisa forar ningum, ele obtm o que
quer com pouco esforo. York  perigoso, Audrey, e est na cara que est a fim de voc. Se quer um conselho, no se envolva com ele!
Mary tinha intenes de faar mais, de dizer que homens como York Laing no querem se envolver em nada permanente, que s pensam em satisfazer seus caprichos. Mas
achou que j tinha falado bastante e no quis destruir as iluses de Audrey de uma vez s. Alm disso, ela pensou, York Laing no iria convidar sua companheira para
sair outra vez, portanto, no precisava arrasar de vez com a ingenuidade dela.
Durante os dois dias que se seguiram, Audrey no viu York. Depois, o via sempre a distncia e achava que ele lhe sorria, mas no tinha muita certeza se era um sorriso
feliz ou de zombaria. Ela no conseguia classificar seus sentimentos, porque nunca antes tinha se sentido assim.
Algumas noites depois, Audrey estava na recepo, acertando as contas de alguns hspedes que partiam. Estava entretida em seu servio, mas sentiu que algum a observava
e, levantando os olhos, viu York encostado ao balco. Quando o casal partiu, ele sorriu e se aproximou.
- Algum j lhe disse que tem olhos maravilhosos? s vezes so castanhos, s vezes tornam se dourados. E, para completar, so muito expressivos!
Audrey tentou fingir que estava acostumada a ouvir essa espcie de elogio e, para disfarar sua timidez, inclinou a cabea sobre alguns papis de modo que os cabelos
lhe escondessem o rosto. Sentia o corao bater descompassadamente e estava consciente da excitao que percorria seu corpo. Alis, j estava
comeando a se acostumar com essas reaes, porque elas aconteciam cada vez que o via.
- Sei que est de folga hoje  noite -York murmurou junto dela. - Vamos sair juntos? Podemos dar uma volta de carro.
- Eu... eu...
-  No vou mord-la - ele brincou. - No vai me deixar ficar a noite toda sozinho, vendo televiso, no ?
Audrey achou engraada a maneira dele falar e deu uma boa risada. Antes que se desse conta do que fazia, estava concordando em passear com York.
O carro dele era grande, luxuoso, todo estofado em couro. Durante algum tempo ficaram em silncio, o carro muito veloz vencendo a distncia com facilidade. Audrey
tentou conversar com York, de maneira educada e prpria para uma moa. Ele parecia divertir-se com o que ela dizia.
- Mal posso acreditar no que ouo, Audrey. Voc me parece uma herona dos romances do sculo XIX.
Ela sorriu, aborrecida. Pelo jeito, ele no estava gostando de sua conversa mole, sem consequncias. Devia estar acostumado com mulheres sofisticadas e espertas,
capazes de mant-lo interessado no que tinham a dizer e que usavam palavras de duplo sentido, cheias de conotaes sensuais.
Eles foram a um barzinho e, para no demonstrar que ainda era uma adolescente, Audrey pediu um martni. No estava acostumada a bebidas alcolicas e nem gostava
delas, mas isso a faria parecer mais velha. Foi um sacrifcio tomar a bebida toda, a cada gole sentia sua garganta queimar. S esperava que York no notasse nada,
mas nem nisso foi bem-sucedida, pois, quando ele pediu uma segunda rodada, mandou vir um suco de frutas para ela.
Para manter a conversa, Audrey lhe pediu que contasse o que fazia. York contou sobre sua companhia area e sobre suas viagens, pois, como tinha negcios em diferentes
partes do mundo, estava sempre viajando.
Ainda conversaram por mais algum tempo e depois foram embora. Enquanto voltavam, Audrey se deu conta de que nem uma vez York pareceu indeciso sobre aonde ir. No
lhe perguntou o caminho e se movimentava por todos os lados como se conhecesse muito bem o lugar.
Quando pararam em frente ao hotel, ela estava nervosa, pensando em como seria a despedida. Os rapazes com quem tinha sado lhe deram um beijo de boa noite e foram
embora, mas, s de pensar que York poderia beij-la, Audrey sentia tonturas e um frio no estmago.
Tia Emma a havia ensinado sobre "os fatos da vida" e sobre a maneira como uma jovem decente e honesta deveria se comportar diante deles. No entanto, quando contou
a Mary os ensinamentos que a tia lhe passara, a amiga se torceu de tanto rir! Era por isso que estava to nervosa agora. Com os outros rapazes, os beijos lhe pareceram
inofensivos, mas agora... tinha medo! Sabia que as moas modernas, no consideravam uma coisa feia e cheia de pecado fazer amor com o namorado, mas, para ela, isso
ainda significava uma coisa proibida e por isso sentia medo desse beijo que poderia acontecer.
York j estava se aproximando dela quando um carro parou  frente do dele, e uma turma ruidosa, que falava e ria alto, desceu. Essa barulheira quebrou a intimidade
que havia dentro do carro. Antes que York chegasse perto dela de novo, Audrey abriu a porta e desceu, agradecendo-lhe pela noite agradvel. Ele no fez o menor gesto
para det-la e ela no sabia se isso a tinha deixado alegre ou infeliz.
No dia seguinte, ao comear seu trabalho, Audrey encontrou uma carta endereada a ela, escrita com a letra personalssima de York Laing. Suas mos tremiam de emoo
ao abri-la. York a convidava para sair em seu prximo dia de folga. Ento ele devia ter gostado dela! Se no gostasse pelo menos um pouquinho, no a teria convidado
outra vez. Naquela tarde, quando ele passou pela portaria, Audrey aceitou o convite com um sorriso radioso.
Era esquisita a maneira como ela se sentia em relao a ele. Tinha uma vontade louca de passar a mo em seu rosto, de sentir o calor de seu corpo, de acariciar aqueles
cabelos escuros... Ser que poderia dizer que isto era amar?
Dois dias depois eles saram juntos, a tarde tinha sido perfeita. Aproveitando a brisa fresca que o outono trazia, eles deram um longo passeio de carro para depois
pararem numa estrada secundria, onde deram uma volta a p.
Audrey estava de cala jeans e malha leve, que marcava suas formas jovens. Quando desceu do carro, reparou que York a devorava com os olhos.
O dia estava claro, e o ar perfumado pelas flores. Eles seguiram um caminho cheio de curvas que levava a um pequeno lago, cujas margens eram cobertas por folhagens
que apresentavam os mais variados tons de verde. York se jogou no cho, estirando o corpo.
- H muito tempo no andava tanto assim... Em Londres nunca tenho tempo para exerccios. Chego at a esquecer que existem lugares maravilhosos como esse!
- Tudo aqui deve ser quieto demais para voc.
Audrey no sabia se devia permanecer de p ou sentar-se. Mas no precisou decidir, pois York estendeu a mo, fazendo a abaixar-se at junto dele.
- No pode imaginar como me faz falta essa calma e tranquilidade que encontrei aqui! - Ele colocou a jaqueta sob a cabea e depois dirigiu o olhar para Audrey.
Ela tinha frio e calor, tremia e se sentia abafada sob aquele olhar intenso.
York segurou sua mo e comeou a lhe fazer carcias leves, acabando por passar o polegar em seus pulsos latejantes. Audrey procurava se manter tranquila, mas era
a primeira vez que se via to perto de um homem. Podia sentir o perfume seco e masculino que a deixava fascinada, reparava no peito forte de York que aparecia por
entre a camisa entreaberta, sentia a atrao total que ele exercia sobre ela. No conseguia tirar os olhos dele, numa observao muda mas total.
- Estou aprovado? - ele perguntou com um riso zombeteiro no olhar.
Audrey procurou se afastar, mas ele a segurou, colocando as pernas sobre as dela e mantendo-a firme no cho. Examinava cada detalhe de sua figura.
- Seu corpo  maravilhoso! - Havia um tom de admirao em sua voz. - Mas, naturalmente, no sou o primeiro a lhe dizer isso.
York baixou a cabea, procurando os lbios dela, sentiu a resistncia que eles ofereciam para logo depois se amoldarem ao dele.
Muito devagar, passou a lngua sobre seus lbios, convidando-os a se abrirem. Os lbios de York eram macios, quentes, insistentes... Audrey estava em pnico  comeou
a lutar para se libertar daqueles braos.
Ele soltou-a, mas segurou o rosto dela entre as mos.
- No posso acreditar. Voc no pode ser real... Nunca foi beijada antes?
-  Claro que sim. - Audrey queria parecer experiente e vivida.
- Devem ter sido beijos de garotos. - Ele ainda a mantinha sob a presso de suas pernas e, mesmo com medo, Audrey achava delicioso sentir o corpo firme e forte de
York sobre o seu. - Ficou assustada?
Ela concordou com a cabea, atrapalhada demais para tentar mentir.
- Devo estar louco - ele resmungou, antes de juntar seus lbios aos dela.
Dessa vez, Audrey se colou mais a ele, sentindo a volpia daquele contato que a embriagava. Colocou as mos ao redor do pescoo de York, sentindo os msculos fortes
das costas, e no protestou quando ele enfiou a mo sob sua malha, acariciando seu estmago e subindo at encontrar o redondo macio de seus seios. Ela quase perdeu
o flego ao sentir que o desejo crescia em seu corpo, ao receber as mos de York em seus mamilos rijos. Entreabriu os lbios e ele pde sentir a suavidade mida
de sua boca, seu corpo se arqueava para ficar ainda mais perto do dele.
O contato de seus corpos se tornava mais ntimo, mais possessivo... Audrey correspondia s carcias com prazer e excitao, as mos sob a camisa dele, sentindo sua
pele, seus msculos, sua presena. Nesse momento, ela nem se lembrava do que tia Emma havia lhe recomendado tantas vezes. A nica coisa que importava no mundo era
estar ali, com York.
Ele se afastou primeiro, deixando-a com um sentimento de solido e fracasso.
- Meu Deus! Voc no existe, Audrey! Voc  a mulher mais sensual que j tive nos braos e, no entanto, parece desconhecer qualquer coisa relativa a sexo!  incrvel!
York levantou-se e passou a mo pelos cabelos, como se com esse gesto pudesse clarear as idias e entender melhor a moa que estava com ele.
- Nunca deveria ter permisso de sair sozinha... Voc no faz idia do que seja tomar conta de si mesma. Acho que teria consentido que eu fizesse com voc o que
eu quisesse sem dizer uma nica palavra contra, no ? Nunca a preveniram contra homens como eu?
Essa mudana brusca de atitude deixou Audrey plida e sem ao, principalmente pela importncia do que ele estava dizendo. As lgrimas brotaram de seus olhos e lhe
escorreram pelo rosto. O que ele estaria pensando dela? Audrey levantou e arrumou a roupa com movimentos trmulos. O que poderia dizer? Gostaria tanto de ser esperta
e viva e dar uma resposta que escondesse dele toda a emoo que estava sentindo.
- No espere que eu lhe pea desculpas - York falou com secura e brutalidade. - Tem que dar graas a Deus por eu no ter me aproveitado da situao.
Audrey estava to envergonhada que sentiu o rosto em fogo. Ser que ele achava que ela tinha aceitado o convite sabendo o que poderia acontecer? Ao pensar nisso,
sentiu-se pior. Pela primeira vez na vida lastimou que a tia no a tivesse esclarecido melhor a respeito de assuntos sexuais. Tia Emma era antiquada e a tinha tornado
uma moa desatualizada. A verdade era que os homens no gostavam de virgens. Era isso o que Mary sempre havia lhe dito, e ela no queria acreditar. Mas York estava
aborrecido com ela justamente pela sua falta de experincia e habilidade. Seno, por que a teria largado assim to de repente?
- Sinto muito, York. - Ela tentava engolir as lgrimas.
- Voc sente muito? No faz a menor idia do que me causou? Audrey olhou-o, surpresa, cada vez entendia menos. Por um
instante achou que ele ia dizer alguma coisa, mas York continuou quieto. Depois, balanou a cabea, parecendo cansado.
-  Esquea tudo isso, Audrey. Vamos embora, vou lev-la para o hotel antes que esquea meus princpios. E, pelo amor de Deus, pare de chorar! Deve ficar feliz de
no ter realmente alguma coisa por que chorar.
- Estou triste porque o decepcionei. - Audrey torcia os dedos procurando se acalmar. - No posso evitar de ser virgem. Fui criada de uma maneira que pe a castidade
acima de todas as outras virtudes.
- Castidade! - Ele a olhou sem poder acreditar. - No  possvel! Voc pertence a um outro mundo, a uma poca que j passou. Agora s falta me dizer que est guardando
sua virgindade para d-la ao homem que for seu marido, e que ningum a respeitar se no fizer assim!
Mas era isso exatamente o que tia Emma havia lhe ensinado! Por que ele estava to surpreso? No era assim que deveria ser?
Voltaram para o hotel em silncio e o dia, que tinha comeado com tanta alegria, teve um final cheio de desiluses.
No dia seguinte, Mary encontrou Audrey e encheu-a de perguntas. Queria saber onde ela estivera, o que fizera, enfim, tudo.
- York Laing tem perguntado sobre voc, Audrey, Ouvi que ele queria saber uma poro de coisas a seu respeito, e conversava com o sr. Hopkins, nosso patro.
Deve estar perguntando ao sr. Hopkins onde ele descobriu essa moa sada do sculo anterior, pensou Audrey com amargura. Ainda bem que York achou que ela tinha correspondido
s carcias com tanto ardor devido  sua inexperincia! Felizmente nem desconfiava que ela estava irremediavelmente apaixonada por ele!
Por alguns dias Audrey no viu York, e Mary acabou-lhe contando que ele havia ido embora. Ela sentiu um vazio to grande em seu corao que s tinha vontade de chorar.
Mas seu bom senso falou mais alto, e ela comeou a se considerar uma boba por pensar que um homem poderoso como York Laing pudesse algum dia se importar com ela.
O jeito era esquecer tudo e continuar vivendo.
O Natal chegou e o hotel estava borbulhante de movimento. Os funcionrios trabalhavam alm do horrio, e Audrey mal tinha tempo para pensar. Ela achava que era melhor
assim: se afogar em trabalho para esquecer um amor impossvel. As frias de Natal terminaram, o servio acalmou um pouco e trs meses se passaram.
Audrey andava plida, emagrecera um pouco e seu rosto de menina tinha adquirido linhas mais maduras. Seus olhos j no viam o mundo com a inocncia de uma criana,
neles j havia sinal de dor e sofrimento.
No final do inverno, o sr. Hopkins chamou Audrey em seu escritrio. Ela j estava trabalhando ali h seis meses e o patro queria lhe dizer como estava satisfeito
com seus servios. Ao ouvir os elogios, Audrey ficou feliz e seus olhos brilharam com a mesma intensidade de antes.
Quando ela saiu da sala, o sr. Hopkins comentou com a secretria:
- No posso acreditar que algum dia ns todos fomos jovens e inocentes como ela!
- Mas no se esquea que Audrey  uma pessoa incomum, nos tempos de hoje, ela no  como todas as outras moas. Acho que foi devido  educao antiga que recebeu.
Ela  to ingnua que at d medo!
Ao sair do escritrio do patro, Audrey foi para seu quarto. Estava de folga naquela tarde e queria aproveitar para lavar os cabelos. Depois de lav-los e pente-los,
colocou uma cala de veludo preto e uma malha branca, leve mas quente. Tia Emma nunca tinha dito que ela usasse cala comprida, mas agora ela adorava vesti-la.
Resolveu ir at o bar, onde encontraria as outras moas. Ao cruzar o hall do hotel, deu de cara com uma pessoa ao mesmo tempo amada e temida.
- York... Sr. Laing!
- Como vai, Audrey?
York estava com o casaco coberto de flocos de neve, parecia mais magro, mas estava lindo como sempre.
-  Por favor, Audrey, pare de me olhar desse jeito... Parece que est vendo alma do outro mundo! - Ele a segurava pelos pulsos e a puxava para mais perto,
- No sabia que tinha voltado! - Ela procurava se manter controlada. - Est doente de novo?
- No sei se posso dizer que  doena... - ele respondeu de maneira enigmtica. Usava jeans, camisa xadrez e uma malha azul-clara.
S de v-lo, Audrey j sentiu o corao bater mais forte.
-  Como assim? - Ela no conseguia afastar os olhos daquele rosto querido.
- Acho que estou doente por me sentir dessa maneira a respeito de uma criana como voc.
- J no sou mais criana! Tenho dezenove anos.
-  Sei disso, mas  inexperiente como um beb! Acho que estou perdendo o uso da razo. Esta manh resolvi vir ver voc, mesmo que para isso tivesse que deixar de
lado a resoluo de que nunca mais iria procur-la! E sabe por que vim, minha pequena feiticeira?
Audrey no conseguiu responder, tinha o olhar perdido no dele, incapaz de acreditar que o que estava ouvindo fosse verdade. Ele tinha vindo somente para v-la!
- Venha comigo, Audrey!
- Agora no posso! Prometi s outras meninas que as encontraria no bar.
-  Mande-as pro inferno e venha comigo! Quero ficar com voc, Audrey! Quero t-la em meus braos e lhe mostrar o que  o amor. - Ele falava baixinho, puxando-a para
mais perto. - Quero ser seu amante, minha fada encantada.
Essas palavras a deixaram completamente sem ao. Sentia um frio no estmago, tremores por todo o corpo, uma sensao de calor que lhe subia pelas pernas e se espalhava
por seu corpo inteiro.
- No me recuse, Audrey! No sabe o quanto sofri nos ltimos meses! Minha vida se transformou num inferno, s via sua imagem na minha frente e sabia que voc estava
a centenas de quilmetros de distncia! Todas as noites, sonhava que fazamos amor, nos beijvamos, nos dvamos um ao outro... Estou ficando louco por voc, sabe
l o que  isso?
York a tinha levado para um canto escondido e suas mos a prendiam bem junto de seu corpo, fazendo com que ela sentisse o quanto ele a desejava.
- No vou machuc-la, prometo! Meu Deus, como quero voc, Audrey!
Seus lbios se fecharam sobre os de Audrey, que correspondeu feliz por saber o quanto ele a desejava. Todos os conselhos de tia Emma deixaram de existir. A nica
coisa concreta era York, que tinha vindo de to longe porque a queria! Ele devia am-la tanto quanto ela o amava!
Audrey sorria feliz, encantada por descobrir que era amada pelo nico homem por quem tinha sentido o domnio da paixo. Nesse momento, algum passou por onde estavam
e os olhou com muita curiosidade.
- Onde  seu quarto, Audrey? No posso lev-la para o meu, porque ainda nem preenchi a ficha de registro.
- No posso lev-lo a meu quarto, York! No  permitido... Perderia meu emprego!
- No se preocupe com permisses! Voc contnua agindo como criana! Sabe quantos anos tenho?
Audrey sabia que ele era bem mais velho que ela, mas no avaliava bem a idade dele, alis, isso no fazia diferena alguma.
- Tenho trinta e um anos, doze a mais que voc. No entanto, voc, com esse sorriso bonito, est me deixando completamente louco. Tenho necessidade de estar com voc.
Nada mais importa, Audrey, preciso ficar com voc, me entende? Vamos para seu quarto, Audrey - ele falou em tom imperioso.
Audrey olhou em direo  recepo e viu que todos estavam ocupados, mas uma das moas os tinha notado naquele canto e os olhava com curiosidade. Talvez fosse melhor
lev-lo para
seu quarto, pensou Audrey. No faria mal algum, ela poderia explicar tudo ao sr. Hopkins, caso fosse necessrio. - Vamos, ento. Venha,  por aqui.
O hotel tinha dependncias muito bem arrumadas para seus empregados. O quarto de Audrey era pequeno, mas agradvel, e o banheiro era partilhado apenas por ela e
pela moa que dormia no quarto ao lado.
Como no possusse casa prpria, Audrey havia transformado aquele quarto em seu lar. Tinha plantas nas janelas, fotografias sobre a cmoda. York pegou a fotografia
de uma senhora, vestida com muita austeridade, com uma criana a seu lado.
- Essa  tia Emma - Audrey explicou -, e a menininha sou eu, quando tinha oito anos.
Agora que estavam sozinhos no quarto, Audrey se sentia nervosa e ficava o tempo todo se reafirmando de que estava com York, o homem que amava e que a amava muito
tambm. York recolocou a fotografia no lugar e, voltando se para Audrey, tomou-a em seus braos, beijando lhe o rosto, o pescoo, conseguindo que arrepios de paixo-lhe
percorressem o corpo. Com uma das mos, ele comeou a desabotoar a malha que ela usava. Lembrando-se da reao anterior de York, Audrey olhou-o com ansiedade.
- No se incomoda que eu... que eu seja virgem?
- Me incomodar? Que bobinha!
- Nunca fiz amor com ningum e na realidade no sei... muito bem... no sei...
Ele no a deixou falar, colando os lbios aos dela, entreabrindo-os, enquanto a fazia deitar sobre a cama. Acabando de abrir a malha, exps seus seios e os acariciou,
primeiro com as mos, depois com lbios ardentes. Audrey estava to arrebatada, to tomada pela intensidade da paixo, que arqueava o corpo, sentia o calor do desejo,
a necessidade de t-lo ainda mais perto...
York pousou a cabea entre seus seios, o que a fez ficar ao mesmo tempo excitada e maravilhada. Sentiu que ele desabotoava o zper de seu jeans e o jogava no cho,
onde j estava
sua malha. Logo depois, eram as roupas dele que faziam companhia s dela.
Como se tivesse recebido uma descarga eltrica, ela tremeu violentamente quando sentiu o peso do corpo dele sobre o seu. York lhe beijou o pescoo, as orelhas, deteve-se
por longo tempo nos lbios carnudos de Audrey, gozando as delcias daquela boca jovem que se abria para receb-lo.
- Quero voc, Audrey. Procure relaxar - York murmurou em seu ouvido.
Audrey entregou-se totalmente ao prazer daquele contato. Seus sentidos estavam dominados pela sensao de prazer e satisfao que sentia com os lbios de York beijando
seus seios, acariciando-os com a lngua, explorando cada pedacinho de sua pele.
Ela gemeu e arqueou mais o corpo, num desejo incontido, ansiando apenas ser possuda pelo homem que amava. Por um instante, Audrey sentiu a presso das coxas de
York sobre as suas, tentando, exigindo... mas um instante depois ele se afastou, sentando-se na beira da cama, a cabea entre as mos, espasmos sacudindo-lhe o corpo.
-  No posso - ele disse, zangado. - Simplesmente no posso fazer isso com voc!
Audrey teve uma horrvel sensao de fracasso e dor. York no a queria! Sua inexperincia o afastara, porque ela no sabia como manter a paixo e o prazer que havia
despertado nele! Ela estendeu a mo, segurou lhe o brao e viu que seus olhos estavam cheios de uma mistura de desejo e angstia.
York segurou o rosto dela nas mos e puxou-a para perto de si. Apesar de se sentir infeliz, Audrey encontrou conforto na proximidade daquele corpo.
-  O que fiz de errado? - ela perguntou, num fio de voz, controlando as lgrimas.
York a deitou novamente sobre o travesseiro. Estavam to absorvidos neles mesmos que nem ouviram que a porta do quarto se abria e uma moa morena, muito alta e bem
vestida, os olhava com desprezo e raiva. O sr. Hopkins estava logo atrs dela e tinha a expresso chocada e aborrecida.
Com muita rapidez, York cobriu a nudez de Audrey com a colcha que estava no p da cama. Mas ela se sentiu queimar de vergonha, pois os intrusos sabiam que ela estava
nua e tinham quase certeza do que ela e York estavam fazendo ali na cama.
York permaneceu sentado, apenas pegou um cigarro, acendeu-o e comeou a fumar sem dizer uma palavra.
- Est vendo? No lhe disse? - A morena apontava para Audrey. - E o senhor no queria acreditar, sr. Hopkins! Chegou at a dizer que Audrey seria incapaz de uma
coisa dessas! - Sua voz, estava exultante. - Ela  sonsa, isso sim, banca a inocente, mas vai correndo para a cama com o primeiro homem que aparece. - Ento a morena
dirigiu sua raiva para York. - E quanto a voc, York... Acho que seus outros scios na companhia vo adorar saber o que faz quando diz que est viajando a negcios.
Tambm a imprensa vai achar essa notcia um prato cheio. Ainda bem que o segui at aqui! Imagine o furo que vai ser quando os jornais noticiarem que, em vez de estar
cuidando de negcios, voc estava se divertindo com a primeira empregadinha que encontrou!
Apesar de se sentir arrasada de vergonha, Audrey no pde deixar de comparar aquela moa com uma cobra fina, esguia e venenosa! Ser que ela significava alguma coisa
para York?
- Audrey, quero v-la em meu escritrio em dez minutos - 0 sr. Hopkins ordenou com voz abatida. Ele no havia olhado para ela nem mesmo para lhe dar essa ordem.
Audrey queria morrer. J estava se sentindo pssima, coberta de vergonha, e ainda por cima ia ser despedida.
-  Como teve coragem, senhor? - Agora o sr. Hopkins se dirigia a York. - No v como ela  jovem e inocente?
- Acho que ele est comeando a ficar velho - a morena se dirigiu ao sr. Hopkins. - No  isso o que acontece, quando os homens maduros procuram mulheres muito mais
jovens?
- Vocs dois esto esquecendo o principal. - York estava calmo e falava em tom bem normal.
- E qual  o principal? - a morena perguntou, em atitude de desafio.
-  Esto esquecendo que o grande pblico gosta muito de um bom romance de amor. E no  uma coisa absurda que um homem de trinta anos se case com uma garota de dezenove!
- Casar?! - A morena cuspiu a palavra.
Audrey abriu bem os olhos, incapaz de acreditar no que ouvia, o corao cheio de alegria. Todo o tempo ela tivera certeza de que ele a amava, mas essa declarao
a fez transbordar de felicidade.
-  No pode casar com ela, York! E ns dois? - Agora a morena no parecia mais uma cobra, mas sim uma barata esmagada.
- Ns dois? O que tem isso, Jlia? Voc sempre soube como eu me sentia... Foi bom enquanto durou, mas agora est acabado e para sempre. No v fingir que eu fui
o nico homem em sua vida! No  porque seu pai  um acionista na minha empresa que isso lhe d direitos sobre a minha pessoa!
- Voc vai pagar por isso, York Laing. - Ela estava furiosa. - Voc e essa cara de bolacha com quem vai casar. - Voltando-se para Audrey, Jlia continuou: - Ele
s est casando com voc pelo que aconteceu, sua idiota! York  conhecido pelos inmeros casos que tem e voc no vai durar mais que cinco minutos no papel de esposa!
- Saiu do quarto batendo a porta, seguida imediatamente pelo sr. Hopkins.
York e Audrey estavam novamente sozinhos.
- No precisa casar comigo s por causa desse incidente.
- Sei disso. - York parecia ter a cabea noutro lugar. - Vista-se, vamos partir para Londres.
- Agora? Para Londres? - Ela estava espantadssima. York j estava se vestindo e nem respondeu. Audrey no se
importou, a nica coisa que sabia era que ele queria casar com ela. No ligava a mnima para o que aquela morena invejosa tinha dito! Ela estava era com cime! E
que diferena fazia que York tivesse tido outras mulheres na vida, se escolhera ela para casar? Ela ia ser a ltima e a nica permanente.
- Jlia foi sua amante? - Ela j estava se vestindo.
- Jlia  passado, Audrey, e o que ela foi no  da sua conta. Arrume tudo o que  seu, e me encontre l embaixo.
Audrey sentiu como se ele tivesse fechado a porta de sua vida para ela, mas no ia ligar para isso. York devia estar zangado e nervoso pelo que havia acontecido.
Logo mais voltaria ao normal e eles poderiam comear uma vida nova, inteiramente dedicada ao amor!


                                    CAPITULO IV


Eles se casaram uma semana mais tarde, em  Londres. A cerimnia na igreja foi simples, seguida de uma recepo bastante sofisticada. Muitas das pessoas a que foi
apresentada faziam parte da alta sociedade, e Audrey j tinha visto suas fotografias na coluna social dos jornais.
A secretria de York, uma mulher de meia-idade, tinha tomado conta da organizao da festa e provara sua eficincia. Ingenuamente, Audrey havia achado que o casamento
ia ser simples, sem convidados. Mas a secretria lhe explicou que York era um homem de projeo e que por isso precisava de uma certa pompa e publicidade em tudo
que fazia. Audrey comeou a temer a hora em que precisasse conviver com esse pessoal sofisticado.
- Feliz? - Richard Harries, assistente de York, chegou junto dela oferecendo-lhe uma taa de champanhe. - York me pediu que lhe fizesse um pouco de companhia porque
precisa dar ateno s suas amizades comerciais.
Audrey estava linda. Seu vestido era creme claro e tinha sido comprado numa das melhores lojas de Londres. Era de seda leve, com aquela simplicidade perfeita que
s os grandes costureiros conseguem apresentar. Ela havia sido maquilada por especialistas, que realaram seu perfil perfeito, sua jovialidade.
Na semana que antecedeu o casamento, Audrey reconheceu que existia uma enorme diferena entre o York que ela conhecera no hotelzinho do interior e esse York, magnata
de uma grande empresa. Mal teve tempo de v-lo, e era sempre Beth, a secretria, que estava com ela e a acompanhava para comprar o que fosse necessrio para o casamento.
Somente duas vezes York foi v-la,  noite, e mesmo nessas ocasies havia se mostrado preocupado com os negcios e quase no conversara com ela. Agora, ao ver essa
multido, Audrey tinha medo de enfrentar a nova situao, quando teria ela mesma que organizar as prximas reunies do marido.
- York  um homem muito feliz por ter uma noiva to bonita! - Richard Harries ainda estava a seu lado e Audrey se deu conta que tinha at esquecido dele, to distrada
estava com os prprios pensamentos.
- Venha, est na hora de trocar de roupa. - Beth se aproximou e, com gesto decidido, a levou embora.
Beth tinha ficado muito espantada quando York lhe telefonou dizendo que ia casar e que ela providenciasse a festa. Estava acostumada a ouvir o nome do chefe sempre
ligado ao de Jlia Harding, estranhou essa sbita mudana de planos. Mas, como no gostava de Jlia, ficou feliz por saber que ele no ia casar com ela. Ao ver Audrey,
to jovem, to inexperiente, teve pena dela, ia ser atirada numa sociedade implacvel, onde seria esmagada pela concorrncia das outras mulheres. Alis, j estava
achando que a noiva se sentia insegura e um pouco solitria.
-  uma pena que no possa viajar na lua-de-mel! York est to envolvido com novos negcios com os americanos, que seria impossvel se ausentar agora - Beth comentou.
Que mau comeo para um casamento, pensou. Sem lua-de-mel, com uma moa simples que no estava  altura das necessidades sociais do marido, bastante ingnua para
ser engolida pelas mulheres espertas que estavam sempre  volta dele. Audrey estava diante do espelho, parecendo ainda mais bonita no conjunto discreto que havia
escolhido para iniciar sua vida de casada. Mas em seus olhos havia ansiedade, medo, incerteza...
- Alegre-se, mocinha! No deixe que a assustem assim. - Beth deu um abrao em Audrey.
York a estava esperando quando ela desceu. Audrey sentiu-se segura ao sentir o brao dele sob o seu. Levantando os olhos, ela lhe deu o mais lindo de seus sorrisos,
mas ele nem notou, pois estava ocupado, dando ordens a Richard.
Finalmente saram e entraram no carro que os levou para o apartamento de York. Audrey ficou boquiaberta ao entrar, era enorme, decorado com muitos detalhes finos
e luxuosos, o que a deixou um pouco intimidada. Para disfarar, comeou a examinar um dos quadros.
-  um Matisse - York explicou. - Gosta dele?
-  muito bonito. - Ela no encontrava palavras para conversar sobre os diferentes pintores clebres e seus valores. At nisso achava-se inferior s outras mulheres
que j deviam ter estado ali.
- Sente-se e fique  vontade, vou preparar unia bebida para ns. - Logo depois ele voltava com dois copos na mo. - E usque, voc gosta? - Ele entregou um dos copos
e tomou sua bebida de um gole s.
Audrey se sentia diante de um estranho, estava aterrorizada e sem querer olhava para a porta, como se ela representasse sua salvao.
- No fique apavorada desse jeito, Audrey. Nunca pensei em passar minha noite de npcias tendo que dizer  minha noiva que no precisa ter medo de mim.
Audrey sentiu o rosto em fogo. Se pelo menos fosse mais sofisticada, mais experiente... Pelo menos no ficaria sentada ali, tremendo como um coelho assustado. Ao
dar o primeiro gole na bebida, derrubou um pouco no couro da poltrona.
- Desculpe, foi sem querer. - Sua voz tinha um tom humilde.
- No se preocupe com isso. - Ele foi at o bar, serviu-se de mais uma dose e voltou para junto dela. - Deve estar aborrecida porque no vamos ter lua-de-mel.
-  No estou no. - A nica coisa que Audrey queria era que ele a segurasse nos braos, a beijasse e lhe dissesse que a amava! Mas York parecia impaciente, agitado,
como se a presena dela o incomodasse.
O telefone tocou e York deu suas instrues, esquecendo com-pletamente que ela existia.
Audrey levantou, foi at a janela e ficou olhando para as luzes da cidade que tremeluziam l embaixo. O que estava fazendo ali? Ele no a queria, nem a amava, tinha
casado com ela num impulso de cavalheirismo e j deveria estar arrependido do que fizera.
York acabou de falar ao telefone e chegou junto dela.
- Por que casou comigo, York?
- J est se lastimando por ter casado? Agora  muito tarde, minha querida, para qualquer um de ns.
Ele a abraou e Audrey no pde evitar um tremor. Instintivamente, tratou de se afastar. York a beijava com delicadeza, forando-a a relaxar, mas ela continuava
tensa, sentindo apenas muito medo.
- Somos dois bobos que caram na mesma armadilha, mas agora  tarde demais para pensar nisso, Audrey.
Ele a carregou para o quarto, depositando-a suavemente sobre a cama. Audrey s conseguia ver nele um estranho, duro e diferente do rapaz maravilhoso que a fizera
suspirar de amor.
- Sempre a mesma menina tmida e inocente. - Seu tom era sarcstico. - O que est pretendendo? Que eu no exera meus direitos de marido?
Audrey sentiu que, por algum motivo, o tinha deixado zangado. Ficou mais apavorada ainda, um frio subindo por sua espinha.
- No  muito tarde. - Ela achava que ele estava aborrecido por ter sido to impulsivo a ponto de ter casado. - Poderia ir embora para casa e...
- Casa? Agora esta  sua casa. E nunca mais vai dizer que no  tarde demais, pois vou lhe mostrar que , agora mesmo.
Ele se debruou, colando os lbios aos dela. Seu hlito res-cendia a usque e o medo que Audrey sentia aumentava cada vez mais. Achava que assim que York demonstrasse
seu amor, ela se esqueceria de tudo para apenas se deliciar com o conhecimento do que era amar e ser amada. Mas, quando ele colocou a mo sob sua blusa e lhe acariciou
a pele macia, ela no conseguiu corresponder.
- Agora no adianta pensar em arrependimentos, Audrey. Voc  minha esposa e no casei para dormir sozinho. Eu a
quero e estou decidido a possu-la, ento,  melhor que aceite esse fato de uma vez.
York tinha falado sem emoo nenhuma, como se no sentisse absolutamente nada. Ela forou-se a aceit-lo, ao sentir que ele a abraava com mais fora, pressionando-lhe
os lbios e forando-os a se abrirem.
Pouco a pouco, sob as carcias experientes do marido, ela sentiu que o medo e o nervosismo comeavam a diminuir. Abraou-o e, com a mo sob a camisa dele, acariciou
seu peito forte.
Com um gesto rpido, ele tirou a camisa, jogando-a no cho, do mesmo modo tirou a roupa dela, jogando-a ao lado da sua. Audrey sentia-se corar no corpo todo ao ficar
exposta e ver que York olhava todos os detalhes de sua figura jovem e bonita.
Ele comeou a acariciar seus seios, primeiro por cima do suti, para depois tir-lo e cobrir de beijos seus bicos rosados.
- Quero que me tire a roupa, Audrey, preciso sentir cada centmetro de seu corpo de encontro ao meu.
Com movimentos incertos, Audrey tentou abrir o zper da cala e pux-la para baixo, mas ela se prendeu nos quadris e ele acabou por tir-la sozinho. Ela sentia-se
to idiota por no saber como agir que s tinha vontade de chorar. York devia estar acostumado com mulheres que sabiam exatamente que atitude tomar, que carcias
fazer para excit-lo, ao passo que ela tinha que ser mandada e mesmo assim, ainda no conseguia fazer as coisas direito. Como gostaria de agrad-lo e fazer com que
ele a amasse!
Aquele corpo rijo e quente sobre o dela acabou por despertar sua excitao, fazendo-a abrir os lbios, ansiosa por gozar as delcias daquele contato.
As mos experientes de York a deixaram cheia de vida. Como se estivesse com os sentidos mais alertas, ela retribua seus beijos, sentia a pele quente do marido com
a ponta da lngua e gemia baixinho com as sensaes maravilhosas que ele a fazia sentir.
Audrey sentiu o prprio desejo crescendo, grande e majestoso, trazendo consigo a vontade da posse completa. York a queria e a desejava, e estar com ele em tal intimidade
era estar no paraso! Ele se tornava cada vez mais exigente, suas coxas obrigando as delas a se afastarem.
- No lute contra mim, Audrey. Prometo no machuc-la. Ela podia sentir todo o desejo que havia naquele corpo msculo e teve certeza de que no havia um caminho
de volta.
Seus corpos se uniram e ela se sentiu levada a alturas jamais imaginadas, era o xtase total, a fuso de dois corpos em apenas um!
Ela gemia, murmurando o nome dele, enquanto a respirao de York se tornava mais rpida. Ouviu o grito dele quando o mundo explodiu, e se sentiu cair pelo espao,
extasiada, numa nuvem de intenso prazer, levada pela sensao mxima e completa de pertencer ao ser amado.
- Pelo menos no me enganei sobre isso - ele murmurou, assim que sua respirao voltou ao normal. - Foi bom, no foi?
Audrey tinha ura milho de coisas para lhe dizer, mas no encontrava as palavras. Ainda estava tentando se compenetrar do que tinha acontecido, admirando-se de ter
sentido medo de viver uma experincia to maravilhosa.
Virou-se para conversar com ele, mas York j estava dormindo, a cabea encostada em seu ombro. Uma sensao de contentamento iluminou seu rosto. Tudo ia dar certo.
Foi somente quando j estava quase dormindo que se lembrou, de que nem uma vez York havia dito que a amava. Mas, que bobagem pensar nisso! Claro que a amava, tinha
que am-la! No entanto, teria sido to bom se o tivesse ouvido dizer as palavras mgicas e poder retribu-las com todo o amor que sentia em seu corao!
Era tarde quando Audrey acordou, e York j no estava mais a seu lado. Ela levantou, tomou banho, colocou uma roupa confortvel e foi at a cozinha. Sobre a mesinha
encontrou um bilhete de York dizendo que tinha ido para o escritrio.
Ela no queira se sentir desanimada e se conformou, porque sabia que ele estava muito ocupado. Com certeza, no a acordar de manh para deix-la dormir o quanto
quisesse. Havia sido muita delicadeza da parte dele, mas ela bem que preferia que ele a tivesse acordado. Assim, saberia que o que acontecera na noite anterior no
tinha sido apenas um sonho.
O dia comprido, sem obrigaes, num lugar que lhe era totalmente desconhecido, parecia se arrastar. Uma senhora, baixa e gordinha, tinha vindo para limpar o apartamento.
-  Ento o sr. Laing casou? Nunca pensei que isso fosse acontecer um dia. Era sempre to procurado pelas moas, mas nunca pensei que chegasse a se amarrar. Onde
foram na lua-de-mel?
O telefone tocou e Audrey ficou feliz por poder sair de perto da mulher e evitar outras perguntas.
- York me pediu que lhe telefonasse. - Audrey ouviu a voz eficiente de Beth. - Ele est em reunio com os americanos, para estudar uma fuso. Este negcio surgiu
de repente, e hoje de manh Richard pediu que ele viesse para c. Talvez York v para casa tarde, hoje  noite. Que tal se ns almossemos juntas?
Audrey se sentiu revoltada com o tom de piedade que percebeu na voz de Beth. Com o orgulho ferido, recusou o convite dizendo que precisava fazer umas compras e que
estaria ocupada o dia todo. Assim que desligou, resolveu que a melhor coisa a fazer era sair.
Durante trs horas ela passeou pelo parque, olhando os patos no lago, procurando conversar com pessoas desconhecidas. Quando voltou para o apartamento, se convenceu
de que estava muito solitria, como jamais tinha estado na vida.
Ao chegar a hora do jantar, embora no tivesse fome, preparou uma refeio gostosa para esperar o marido. Mas o tempo passou e, como ele no aparecesse, ela acabou
por ir dormir.
Quando chegou, York foi para o quarto e olhou a esposa com cansao no rosto fatigado. Audrey sentiu a presena dele, abriu os olhos, o corao batendo descompassado,
como acontecia cada vez que estava com ele. York j tinha ido para o banheiro.
Quando voltou, tinha os cabelos molhados, as pernas musculosas aparecendo por baixo do roupo curto. Quando ele puxou as cobertas, Audrey se retesou, uma expresso
de revolta nos olhos expressivos.
York no se impressionou com essa atitude dela. - No estou disposto a brincar, Audrey. - Ele a segurou entre os braos. - O mnimo que um marido pode esperar de
sua mulher  que ela esteja sempre disposta a receb-lo. Mesmo que ela seja uma menina recm-sada da escola.
Os protestos de Audrey dizendo que ela tambm tinha direitos foram abafados pelos beijos selvagens do marido. Ele tirou o roupo e, chegando perto dela, despiu-lhe
a camisola de seda fina. Passou a beijar-lhe o corpo todo, detendo-se, com mais ardor, nos mamilos excitados.
Dessa vez ela correspondeu imediatamente ao desejo de York, pedindo que ele realizasse a posse completa. Ela se sentiu saciada, completa, surpresa pelo total abandono
com que se dera. Pouco depois, mesmo sentindo o marido aconchegado a seu lado, dormindo profundamente, ela ainda permanecia acordada e inquieta, com um inexpressvel
desejo de alguma coisa. Apesar de toda a satisfao que tinha sentido com ele, faltava ainda alguma coisa para que ela pudesse estar completamente feliz.
Embora Audrey tivesse o firme propsito de acordar antes que o marido sasse, conseguiu apenas ouvir a porta da frente que se fechava. O apartamento tinha um ar
vazio de lugar que no era usado, o que a deprimia muito. Precisava fazer alguma coisa! No podia passar o dia inteiro naquela solido.
Os dias que se seguiram foram passados do mesmo modo. York saa muito cedo do apartamento e voltava sempre muito tarde. Os nicos momentos que eles partilhavam eram
as noites, quando ele a acordava, tomava-a nos braos e lhe impunha seu corpo.
Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses e cada vez mais Audrey se ressentia da maneira como ele a deixava fora de sua vida real. Ela chegava a fingir
que estava dormindo quando York entrava, para ver se conseguia ficar em paz. Chegava a se recusar a participar daqueles atos de paixo, mas invariavelmente ele acabava
por vencer suas resistncias.
York era bastante inteligente para perceber as manobras de Audrey, mas nunca se manifestou a respeito delas. No entanto, estava se tornando mais duro, mais exigente,
em vez de procurar conquist-la com palavras de amor e carinho. Ao contrrio, seus atos eram mais selvagens, mais frios e calculados, embora assim mesmo, ela no
pudesse deixar de corresponder ao que ele queria.
Durante os vrios meses em que estiveram casados, nem uma vez York a convidou para sair ou ir com ele a algum lugar. Ele vinha para casa depois do trabalho, comia
o que ela tinha preparado sem nenhum comentrio e depois se fechava no escritrio, trabalhando at altas horas da madrugada.
s vezes, Audrey lhe fazia perguntas sobre seu trabalho, interessada em participar da vida do marido.
- Nem pense sobre isso, Audrey. No iria compreender. "Por que no?", era o que ela se perguntava. Ele a julgava
uma criana, mas ela era bastante esperta e viva para compreender as coisas, desde que houvesse um mnimo de explicao ou participao. Mas York a tratava como
um rob, sem raciocnio ou inteligncia, que s servia para saci-lo sexualmente. Nunca ele lhe dirigia palavras de carinho ou amor, apenas a usava como um objeto
necessrio, que ficava de lado at ser usado novamente.
Audrey no sabia bem a quem ela odiava mais, se a ele, por trat-la daquela maneira, ou se a ela mesma, que sempre correspondia, o corpo traioeiro vibrando sob
as mos dele.
York chegava ao cmulo de trabalhar at nos fins de semana. Um domingo, ela sugeriu que dessem uma volta a p, mas, muito bravo, ele lhe disse que ali no era a
cidadezinha do interior onde ela sempre morara.
Certa noite, eles estavam jantando, sem conversar, como era costume. Audrey estava aborrecidssima, pois Beth lhe havia telefonado  tarde, dizendo que York ia partir
para os Estados Unidos. Ela ficou louca da vida por ter sabido dos planos do marido atravs da secretria e no por ele mesmo.
- Vou ter que viajar para a Amrica - ele comeou a contar.
- Por que est me contando isso s agora? Todo mundo j sabe menos eu! - No conseguiu controlar a raiva.
- Deixei para lhe dizer hoje justamente porque sabia que ia reagir desse modo. Voc no percebe, Audrey, que estou envolvido num negcio importante e que preciso
dedicar a ele cada minuto do meu tempo? Deixe de ser criana e compreenda como esse negcio  fundamental para mim!
- Eu poderia ir com voc... - Mesmo que ela no soubesse nada sobre o negcio porque York nunca tinha lhe contado nada.
- Que diabo! Pensa que no tenho mais nada a fazer seno ficar cuidando de voc? Ou ser que seu corpo ardente no pode passar uma semana sem mim?
-  No diga uma coisa to horrorosa assim! - Ela ficou plida, os lbios descorados, a voz trmula.
- Mas  verdade e no tente neg-la. Sou um homem vivido, minha querida, e sei quando uma mulher est correspondendo plenamente ao que fao com ela.
Esse  o problema, ela pensou com desprezo por si prpria. Bastava York olh-la para que ela se sentisse arder de desejo. Se ele chegasse um pouco mais perto e a
tocasse, ela derretia de paixo e da para a frente era incapaz de se controlar.
Naquela noite, a paixo de York chegou aos limites inimaginveis. Seu corpo queimava, querendo no s que ela se submetesse como tambm que correspondesse com igual
calor e paixo. Ele a segurava com tal fria, como se quisesse deixar a marca de seu corpo no dela.
Audrey se ouviu gemendo, esmagada pelo corpo dele, mas seus gemidos no eram de dor e sim de prazer, de realizao, de completo abandono. Ela se sentia flutuando
no vcuo, onde nada mais existia a no ser a satisfao plena do desejo.
Quando tudo terminou, York ainda a manteve entre seus braos, de encontro ao peito. Audrey podia sentir o bater apressado do corao dele, que aos poucos foi diminuindo
de ritmo at voltar ao normal.
- Me leve com voc, York - ela implorou com voz doce.
- No, adianta, Audrey. Esta fuso vai tomar todo o meu tempo e ateno. No adiantaria nada voc estar comigo, pois mal iria me ver. Fique feliz com o que tem,
minha esposa, h muita gente que no tem nem a dcima parte do que lhe dou. E havia outras que tinham muito mais, era o que ela gostaria de dizer. Havia as mulheres
que tinham carinho, amor, participao na vida dos maridos! E ela s tinha sexo! Era verdade que se sentia transportada para o paraso a cada vez que unia seu corpo
ao dele, mas esperava muito mais de um casamento de amor!

Pela manh, York havia partido. Ela tinha algumas manchas roxas na pele, evidenciando a selvageria da paixo que os tinha invadido. Tomou um banho rpido, sem querer
olhar para seu corpo que tantas vezes a trara. Ele estava sempre pronto a corresponder  paixo, a se entregar, a vibrar com o prazer de cada contato mais ntimo...
Foi at a biblioteca para entregar os livros que tinha emprestado. Ao passar pelo parque, a neve a fez lembrar do tempo em que vivia no interior e da ocasio em
que vira York pela primeira vez. Ela se sentiu cem anos mais velha do que a garota que, h to pouco, pensava ter encontrado o grande amor de sua vida! Com um choque,
lembrou-se de que completaria vinte anos da a trs dias.
Audrey andava por entre as prateleiras de livros procurando achar algum que lhe despertasse o interesse. Mas nem prestava ateno nos ttulos, completamente absorvida
pelos prprios pensamentos.
Quando ser que York ia partir para a Amrica? Ela bem que poderia telefonar para Beth e perguntar. No! Era orgulhosa demais para perguntar  secretria algo que
York no quisera lhe contar! Talvez ele sentisse vergonha dela! Talvez no a achasse bastante bonita e elegante para ser mostrada aos amigos e clientes! Por isso
a mantinha sempre s dentro de casa, escondida!
Pegou os livros e saiu da biblioteca, andando pela rua e vendo as vitrines. Numa delas, viu-se refletida no vidro. Tinha aprendido a usar roupas finas e elegantes
e se sentiu muito bem vestida e bonita com sua saia xadrez, pregueada, formando conjunto com um casaco azul-marinho de excelente corte. Ela se achava digna de qualquer
elogio, por que o marido no era da mesma opinio?
Continuando a andar, ela se dirigiu para Bond Street. O Natal no estava longe e seria uma boa idia ver alguma coisa nova para usar nessa ocasio. Beth sempre dizia
que York fazia uma festa de Natal muito bonita para o pessoal da diretoria e ela queria fazer uma bela figura. Se fosse, convidada, claro!
De repente, ouviu uma voz que a chamava pelo nome. Voltando-se, viu-se frente a frente com Jlia Harding, usando um casaco de vison e um gorrinho do mesmo material.
- Como vai a noivinha? - Novamente, como naquela noite, Audrey sentiu que o veneno destilava daquela boca pintada com batom bem vermelho. - Distraindo-se com as
vitrines?  a nica coisa que pode ver, no , coitadinha? Ainda mais agora, que York vai viajar e no vai lev-la.
-  somente uma viagem de negcios, por isso, no h necessidade de minha presena.
- As viagens so sempre de negcios, no sabia? Ele no lhe disse que no teria tempo para ficar com voc? - Audrey abriu os olhos, espantada. Como ela poderia saber
disso? - No fique to surpresa, eu conheo as tticas de York. A verdade  que a companhia americana com quem mantm negcios vai lhe dar um tratamento de prncipe
e ele no teria tempo para voc, j que estar ocupadssimo com outras mulheres!
- No fique inventando coisas...
-  a verdade, minha cara. No esquea que conheo York h muito tempo e sei tudo sobre essas viagens.
Audrey sentiu um frio no estmago, to grande era seu desespero ao ouvir a conversa de Jlia. Virou-se para ir embora, mas a outra segurou-lhe o brao.
- Parece que a deixei aborrecida! - Havia muita maldade por trs de seu sorriso. - Mas o que esperava? Achou mesmo que poderia manter o interesse de um homem como
York? Muitas outras mulheres, com melhores qualidades, tentaram e no conseguiram.
- Voc inclusive?
- At a mocinha inocente tem garras para se defender? - Jlia sorriu ironicamente. - Tenho pena de voc, Audrey, verdade mesmo. Todos j esto comeando a falar.
Tem gente que chega a duvidar de que York tenha realmente uma esposa.
- Podem dizer o que quiserem, mas a verdade  que sou eu a esposa dele e ningum mais.
- E sabe muito bem por que ele casou com voc, no ? Se York no tivesse sido apanhado em flagrante naquela ocasio e esse negcio grande da fuso no estivesse
para se realizar, voc teria sido apenas um outro caso na vida dele, e dos menos importantes, pode ficar certa. Mas, com tantos interesses em jogo, ele achou melhor
casar e pr um fim ao escndalo que a imprensa poderia fazer, acusando-o de seduo de menores. Ele est almejando coisas muito importantes, para se arriscar. Claro
que meu pai tentou fazer com que ele desistisse da idia, mas York  muito teimoso e quando pe uma coisa na cabea, ningum consegue convenc-lo do contrrio.
Audrey teria dado a vida para no precisar ouvir essas palavras. Como elas lhe faziam mal! Pensar que York casara com ela s para sair de uma situao embaraosa
a fazia desejar a morte.
- Ouvi dizer que ele trabalha at tarde todas as noites.
- Nosso casamento no  da sua conta. - Audrey procurou ser bastante fria, mas perguntava-se como Jlia sabia tantos detalhes sobre sua vida com o marido. Por ele
mesmo?
-  Que casamento? York s a quer como companheira de cama e mais nada. Voc participa da vida dele? Se no fosse uma idiota muito ingnua, ele jamais teria casado
com voc.
- Ou se voc no tivesse entrado no quarto feito uma louca! Mas o fato  que estamos casados.
Jlia deu uma gargalhada cheia de ironia.
- Por quanto tempo? - Virou as costas e foi embora, deixando seu riso flutuando no ar.
Audrey teve a impresso de que haviam cravado agulhas em seu corao, podendo sentir a dor de cada picada. Desnorteada, voltou depressa para o apartamento, mas o
ar de arrumao, de no ser usado, a deixou ainda mais deprimida.
Sentou-se numa das poltronas de couro, examinando cada canto do apartamento e chegando  concluso de que aquele no era o lugar onde uma famlia gostaria de viver.
No era um lar, era uma vitrine! No era a casa onde se poderia criar filhos e, lgico, um dia York os haveria de querer. Todo homem gosta de ter algum que continue
o nome da famlia, algum a quem possa entregar seus negcios e que seja a continuao de si prprio.
Realmente, Jlia tinha razo. Ele no se casara com ela para ter uma vida a dois, para ter mais tarde uma famlia, um lar. York s a queria na cama! E ela havia
correspondido plenamente a esses desejos, pois vibrava intensamente cada vez que ele a tocava!
Sua dor foi to grande e intensa que comeou a soluar alto, um pranto seco, sem o consolo que s as lgrimas trazem. Ali ficou, gemendo, soluando, at que as lgrimas
benditas comearam a descer por seu rosto e ela pde chorar!
Como um autmato, sem plano delineado, sem nem saber direito o que fazia, Audrey foi para o quarto e comeou a arrumar sua mala, colocando nela apenas suas roupas
de solteira. Desceu, chamou um txi e mandou que ele seguisse para a estao de Euston.
A estao estava movimentada, cheia de gente que andava de um lado para o outro. Audrey se informou sobre o trem que saa para Yorkshire, onde o sr. Lopkins tinha
o hotel. Sentou-se num dos bancos do salo para esperar a hora de embarcar.
De repente, sentiu uma mo em seu ombro e, voltando-se depressa, viu-se cara a cara com os olhos furiosos do marido. Ele pegou a mala que estava ao lado e, segurando
Audrey pelo brao, comeou a pux-la para fora.
- York! O que est fazendo aqui? Disse que ia para Nova York!
-  E voc aproveitou a ocasio para partir! Foi s eu lhe virar as costas para voc sair correndo de volta para Yorkshire! Para qu?
Audrey tremia como vara verde, mas no podia contar seu encontro com Jlia e o que isso tinha significado para ela.
- No posso mais ficar com voc, York. J no posso mais viver sem amor!
Ele deu um sorriso duro, o rosto plido e enfurecido.
- Por que no? Voc no tem vivido assim durante os ltimos meses? Ou j esqueceu disso? Muito prprio de voc, Audrey! Acha difcil enfrentar a verdade, no ?
Audrey encarou-o, sem dizer nada. A estao Euston no era o melhor lugar para descobrir que o marido no a amava! Sentia-se insensvel, incapaz de pensar, sofrer
ou reagir, e deixou-se levar por York. Entraram num txi e, como num pesadelo, ela ouviu que ele dava o endereo do apartamento.
- No quero voltar para l - ela gritou em pnico. - No me obrigue a isso, York! No vou aguentar!
York tinha o rosto branco como papel, os olhos cheios de fria. Apertava o pulso delicado de Audrey, deixando nele a marca de seus dedos.
- Mas vai ter que voltar!
Quando entraram no apartamento, ele jogou a mala para dentro do quarto e foi se servir de uma bebida.
-  O que estava querendo fazer, sua criana desmiolada? No entende que a essa hora eu deveria estar no avio, cruzando o Atlntico?
- No sou mais criana, York...
-  criana, imatura e boba! Que diabo voc estava tentando provar?
- Nada! E que no aguento mais a vida que estou levando, que ns estamos vivendo. Voc nunca conta ou discute seus assuntos comigo, nunca partilha sua vida, nem
me quer junto de voc. A no ser na cama! Tudo que quer de mim  um corpo onde possa demonstrar seus instintos sexuais!
-  E  exatamente assim que acho que deve ser. O que, queria? Participar do conselho da firma? Ou talvez, at ficar com o meu cargo?
Audrey suspirou desanimada. Ele no procurava entend-la, alis, no queria compreend-la, queria apenas ridiculariz-la.
- Nunca deveramos ter casado, York.
-  Concordo com isso. Mas, j que casamos, pretendo tirar o maior proveito dos meus direitos de marido. - Ele a carregou no colo, encaminhando-se para o quarto,
surdo aos protestos dela.
- No me toque, sem-vergonha! - Audrey gritava, enquanto York colocava a mo sob sua malha, tentando chegar a seus seios. - Eu o odeio! Odeio!
- Isso  o que voc diz, mas seu corpo est dizendo exata-mente o contrrio! - Ele passava os dedos sobre seus mamilos rijos, mostrando como ela estava excitada
pelos carinhos que lhe fazia, enquanto Audrey se sentia derreter sob o calor das carcias de York.
Ele colocou-a na cama, abaixou-se sobre ela e beijou-a com brutalidade. Mesmo contra sua vontade, Audrey abriu os lbios, gozando da glria suprema de poder senti-lo
to prximo, beijava-o com a mesma intensidade com que era beijada.
- Esquea o amor - ele lhe disse com voz fria e controlada. - Por mais que diga que no me quer, sei que me deseja tanto quanto eu a desejo!
- Eu o quero, sim, York, mas no desse jeito! No v que assim voc est me destruindo?
Sem lhe dar ouvidos, York continuou a acarici-la, agora no corpo todo. Em cada parte que ele colocava as mos ela sentia a pele queimar, o desejo se espalhar por
suas veias e num instante ocupar todo seu ser.
- Por favor, no faa assim comigo - ela implorou ainda. - Por favor... - Mas sabia que era intil pedir, havia determinao nos olhos do marido e seu prprio corpo
j se entregava totalmente ao xtase daquela paixo.
Depois de tudo acabado, Audrey se odiou pelo que tinha deixado acontecer. Deveria ter a firmeza necessria para impedi-lo de possu-la. Mas York no tinha culpa
de tudo, ela tambm o quisera, o desejara, facilitara a posse...
Audrey virou-se para a beira da cama. Queria tanto que ele fosse embora e a deixasse em paz!
- J est choramingando? - Ele sentou na cama para colocar o sapato.
Essa atitude fria, distante, deixou-a mais furiosa ainda. York nem ao menos tinha pensado em fazer sexo com ela, que dir amor! Ele tinha feito guerra contra ela!
E ganhou a batalha com a maior facilidade!
Ela apoiou-se num brao e, com os olhos cheios de dor e desiluso, disse em tom calmo:
- Odeio voc, York. Nunca mais dormirei em sua cama.
- Nem eu vou permitir que durma. A no ser que me pea de joelhos! Cresa, minha cara, e enfrente os fatos. Pode ser que sua mente me odeie, mas a verdade  que
seu corpo anseia por mim, e nenhuma palavra pode mudar essa situao.
Ele saiu do quarto batendo a porta e ela enterrou a cabea no travesseiro, entregando-se a um pranto convulso e dolorido. Por muito tempo deixou-se tomar pelo desespero,
mas quando o choro cessou, Audrey sentia-se mais calma e esvaziada de seus sentimentos. Levantou-se tomou um banho, como se assim pudesse tirar as ltimas marcas
da presena de York em seu corpo.
York a havia destrudo, j no podia lutar contra ele. Seu orgulho tinha sido muito ferido e ela perder o respeito prprio. Sabia que no poderia continuar a viver
com ele e sobreviver. Tinha que tomar um rumo diferente para reencontrar-se.
Precisava ir embora dali, para um lugar onde York jamais pudesse encontr-la, no importa onde fosse. Claro que ele no faria a menor fora para ach-la, pois no
ligava a mnima para ela. Sempre a tinha considerado como uma obsesso, um capricho, um objeto que ele havia sido obrigado a possuir devido a uma situao difcil.
Ela deixou o apartamento sem saber como tinha aguentado viver ali durante nove meses. Sua alma estava em pedaos e suas lgrimas eram to sentidas que pareciam ser
de sangue.
Tinha entrado ali ardente de felicidade, encantada com o rumo de sua vida e agora saa derrotada, amarga, envelhecida, desiludida como se estivesse no fim da existncia.
York nunca a amara! Por isso ele sempre se mostrou aborrecido por ter casado com ela. Por isso quis subjug-la, mostrando que era seu dono e senhor e no o companheiro
sincero e leal que um marido deve ser. Ela tinha sido usada apenas para satisfazer as necessidades fsicas do marido e, mesmo em seus momentos mais ntimos, nunca
houvera unio de almas Era por isso que se sentia to amargurada e infeliz!


                                                     CAPITULO V


O passado  passado e no adiante querer mud-lo, Audrey disse para si mesma, colocando de lado os pensamentos tristes. Ela no era mais aquela garota que tinha
fugido desesperada do apartamento em Londres, em vez de ficar e enfrentar as coisas de frente. No tivera coragem de encarar o fato de que York no a amava. Ele
nunca procurou encontr-la e por muito tempo isso tambm havia contribudo para manter aberta a ferida em seu corao.
Ela no conseguia dormir, virando na cama de um lado para outro pondo a culpa no calor tropical. Mas em seu ntimo sabia muito bem que o problema era outro. Havia
alguma coisa em seu corpo atormentado que no a deixava descansar, que a perseguia com lembranas que no lhe davam paz.
Audrey acabou levantando cedo, aproveitando o frescor da manh, contente de ver o mar de novo. Se suas lembranas pudessem ser limpas de sua memria, do mesmo modo
que as ondas nivelavam as coisas na areia...
Estava pronta para o passeio de lancha. Tinha colocado um biquini verde-gua e por cima um macaquinho de tecido atoalhado. Na mo, levava uma sacola onde havia tudo
o que precisaria para o passeio.
Entrando na recepo, pegou a lista de passageiros, para ver se teria tudo o que precisava. Nesse momento, Sally e Alan entraram no hall do hotel.
- No est arrumando as malas? - Sally lhe deu um beijo de bom-dia.
- S vamos embora amanh.
- York quer ir ainda hoje - Alan comunicou, sentindo-se meio culpado pela situao. - Sally pode tomar conta do passeio em seu lugar.
Isso  bem prprio de York! Queria mandar em tudo, e no ligava para o que os outros tinham vontade de fazer. Mas ela no conseguiu pensar num motivo que a impedisse
de partir um dia antes do combinado, por isso entregou a lista de passageiros para Sally.
- Obrigado... Nem sei como lhe agradecer por tudo. - Alan balbuciava as palavras, incapaz de falar, de modo direto. - York vai investir na Travel Mates e...
- No  a mim que tem que agradecer. York no poria um nquel aqui, se no soubesse que o negcio ia dar lucro! Em primeiro lugar, para ele, esto os negcios.
- Mesmo assim, Audrey, fico aborrecido por no ter lhe contado tudo antes, mas...
- Compreendo, Alan. No pense mais sobre isso.
Alan abraou-a, agradecido porque ela no tinha ficado zangada. Beijou-a de leve nos lbios e, quando a soltou, viu que York os olhava com expresso sombria.
- No se esquea de que est beijando minha esposa! "Que homem hipcrita!", pensou Audrey. Agia como se se
importasse com ela!
- J lhe avisaram que vamos partir hoje e no amanh? - York falou com Audrey, sem esconder a raiva que sentia.
Ela apenas concordou com a cabea e se encaminhou para a porta.
- Aonde pensa que vai? - Eleja a estava quase alcanando.
- Vou arrumar minhas coisas - Audrey, respondeu, impaciente. Alm de hipcrita, o marido ainda era bobo! Numa ilha pequena, para onde ela poderia ir? Ser que imaginava
que ela ia fugir? Para onde?
Audrey passou pela porta e saiu para o sol brilhante daquela manh radiosa. Sentiu que York a seguia.
- No preciso de um guarda atrs de mim, vigiando meus passos. No vou fugir.
- O que h entre voc e Alan?  por isso que est to ansiosa por conseguir o divrcio? Est pensando em casar com ele?
Apesar do calor trrido, Audrey se sentia gelada.
- Acha que eu teria a coragem de me casar de novo, depois do que nosso casamento me fez?
- Voc no foi a nica a sofrer! Tambm no foi muito agradvel para mim!
- No quero saber, York. Para mim, somos dois estranhos que vo viver juntos apenas para que eu possa ficar livre.
- Ento no vai haver nada de diferente no nosso relacionamento. No fomos sempre estranhos?
York a deixou e seguiu de volta ao hotel, os cabelos balanando sob a brisa suave.
Eles partiram logo depois do almoo. Audrey teve que sentar muito perto do marido, pois o aquaplano que os viera pegar tinha o espao bastante reduzido. Em Santa
Lcia, passaram rapidamente pela alfndega e embarcaram num enorme jato que pertencia  Companhia Laing de Aviao.
O comandante sorriu assim que entraram a bordo do avio.
- J recebemos ordem de decolagem, senhor. Chegaremos na Inglaterra s seis horas da manh.
- Avise pelo rdio que mandem o carro nos esperar no aeroporto. Tem algum recado para mim?
Enquanto o comandante dava as mensagens recebidas, Audrey foi para dentro do avio, ajeitando-se numa das poltronas. Ficou impressionada com o luxo que via. Havia
um terminal de computador de um dos lados da cabine, um bar com um enorme estoque de bebidas e quatro poltronas muito confortveis, do outro lado. Ainda havia uma
mesa redonda e vrias cadeiras a seu redor. Aquele avio devia servir York em suas viagens de negcios e estava aparelhado com tudo necessrio para uma reunio comercial.
Era um verdadeiro escritrio voador.
Logo aps levantarem vo, York foi para o fundo do avio e voltou pouco depois, parecendo mais descansado. Tinha trocado de roupa e seus cabelos ainda estavam midos
do banho.
- H um chuveiro e um pequeno quarto no fundo, caso queira se refrescar.
Audrey estava vestindo um conjunto de linho, bastante agradvel para o calor tropical da ilha, mas no ar condicionado da cabine estava at com um pouquinho de frio.
- Estou bem assim, obrigada.
Ele no disse mais nada e afastou-se para logo depois voltar trazendo uma malha, que colocou no colo dela.
- Acho que daqui a pouco vai precisar vesti-la, a no ser que prefira ficar gelada - foi o nico comentrio que fez.
Ela agradeceu, impressionada com tanta gentileza. O casaco tinha um leve odor que lembrava, at demais, dos momentos em que encostava a cabea no peito forte do
marido, em seus momentos de paixo.
Suas mos tremeram enquanto ela vestia o casaco. Sentiu-se quente e confortvel e, virou-se para agradecer-lhe, mas York j tinha se sentado e examinava uns papis.
O vo ia ser longo e Audrey lamentou no ter lembrado de trazer um livro com que pudesse se distrair. Havia jornais sobre a mesa e ela os pegou. Ficou logo absorvida,
lendo um artigo que falava sobre a situao difcil entre rabes e israelenses. Ao terminar de ler, olhou para o lado e viu que York a observava, uma expresso estranha
no olhar.
Ser que achava esquisito que ela se interessasse pela situao mundial? Mas ele logo abaixou os olhos para seus negcios e Audrey se perguntou se o que ele achava
fazia alguma diferena para ela. Ningum sabia como ela tinha vasculhado os jornais,  procura de notcias sobre a Companhia Laing de Aviao, durante o tempo todo
em que estiveram separados. E foi nessa poca que comeou a se interessar pelas notcias sobre poltica e finanas.
Mais tarde, a aeromoa serviu o jantar, que era digno do mais fino restaurante de Paris: salmo com salada e o bife mais delicioso do mundo, acompanhado de molho
madeira. Audrey no estava com muita fome, mas estava to delicioso que comeu tudo. A refeio era muito bem acompanhada por um precioso vinho tinto e Audrey congratulou
o marido pela refeio divina. - Esse  o tipo de comida que servimos a nossos passageiros de primeira classe.  uma comida leve, mas tentadora e muito bem apresentada,
no acha?
Audrey at estranhou que York lhe desse alguma explicao sobre a companhia que dirigia, jamais tinha feito isso antes!
Depois do caf, Audrey se distraiu reparando nas mos finas e eficientes de York, que lidavam com rapidez com aquele monte de papis. Quantas lembranas aquelas
mos lhe traziam! Quanto prazer elas lhe haviam dado!
- Se quiser, posso reclinar sua cadeira para descansar um pouco, podemos tambm escurecer a cabine. Gostaria disso? - York continuava solcito e preocupado com o
bem-estar dela. - No  preciso, no estou cansada.
No entanto, o barulho montono das turbinas do avio foi deixando-a amortecida e, sem sentir, acabou fechando os olhos, adormecendo.
Quando acordou, logo se deu conta que estava dentro do avio, voltando para a Inglaterra. Espreguiou, sentindo-se muito confortvel e bem acomodada. Sua cabea
estava reclinada em alguma coisa familiar. S ento percebeu que estava deitada entre os braos de York, a cabea no ombro dele.
Ele tambm estava dormindo, um vago sorriso pairando em seus lbios. Estavam to juntos um do outro, que essa intimidade a fez tremer de emoo. Tentou se endireitar,
sem acord-lo.
Mas no mesmo instante ele abriu os olhos, sentindo ainda os cabelos dela tocar-lhe o rosto.
- Voc adormeceu e insistiu em me usar como travesseiro... Talvez por fora do hbito!
- Que hbito? - Audrey falou, quase sem pensar. - Voc sempre voltou as costas para mim!
- E gostaria que tivssemos dormindo assim? Com voc em meus braos?
As palavras de York tinham um toque to sensual que Audrey comeou a tremer, sentindo-se mole como se no tivesse ossos no corpo. Havia um brilho especial nos olhos
dele e ela imaginou se ele estava pensando em faz-la partilhar no s a casa mas tambm a cama dele! Mas isso no ia acontecer, porque nada havia mudado! Talvez
ele ainda a desejasse, mas era
o mesmo sentimento que teria por qualquer mulher atraente e nada mais. Ela dizia que no sentia nada por York, mas isso no era verdade! No tinha sentido nada enquanto
ele estava a milhares de quilmetros de distncia. Agora porm, to prximo, ela estava perturbada e insegura em relao a seus sentimentos.
- Acho que no vem ao caso o que eu sentia, York. O que importa  como me sinto agora.
- E o que sente?
- Nada!
Os dois ficaram se olhando, tentando descobrir seus verdadeiros pensamentos.
-  Chegaremos em Londres em duas horas, senhor. - O capito tinha entrado na cabine e estava ligeiramente embaraado por julgar que havia interrompido algo importante.
- Repare no sol, querendo nascer sobre o Atlntico, Audrey. Veja como o cu est comeando a ficar rosado. Bem, vou tomar uma ducha... Se o chuveiro no fosse to
apertado a convidaria para ir junto.
Ela no respondeu a essa provocao e ficou olhando a aurora que se aproximava.
Ao sarem do aeroporto, um Rolls Royce os esperava. Depois de andarem por bastante tempo, Audrey comeou a achar que no estavam indo para o apartamento que conhecia.
Reparou na estrada e viu um sinal que dizia "Bristol".
- Para onde estamos indo? - ela perguntou.
- Para casa.
Passaram por alguns vilarejos e os primeiros raios tmidos do sol comearam a surgir. Saram da estrada principal e seguiram por uma secundria, com curvas suaves
e rvores plantadas em suas margens. Depois passaram por um imponente porto de ferro trabalhado, e seguiram por um caminho em curva at parar diante de uma enorme
casa em estilo Tudor.
- Venha, j pedi  governanta que nos esperasse. Entraram num hall muito grande, onde no centro havia uma
mesa redonda e sobre ela uma bacia e jarra de prata cheia de rosas que perfumavam o ambiente. Escadas de mrmore muito amplas levavam ao andar superior.
- Gosta da casa? - York perguntou com voz suave.
Antes que ela respondesse, um co pastor, grande e brincalho, comeou a lhe fazer festa. Inutilmente a governanta tentava segur-lo.
- No se incomode com ele, gosto muito de animais. - Audrey agradou a cabea enorme do co, que abanava a cauda, feliz.
- Vou mostrar-lhe o quarto, senhora.
- Pode deixar, sra. Jacobs, eu mesmo fao isso. - York j segurava o brao de Audrey para mostrar-lhe o caminho. - Mas acho que a sra. Laing gostaria de uma xcara
de ch.
Como era esquisito ser chamada assim de novo!
York abriu a porta de um dos quartos e Audrey no pde reprimir uma exclamao de assombro ao entrar. Lindas janelas abriam para o jardim bem tratado e uma cama
antiga, de madeira torneada, ocupava a parte central do aposento. O cho estava coberto por um tapete verde-musgo e a colcha da cama e as cortinas eram de tecido
estampado combinando com o tom do carpete.
- Esta casa  bem antiga e pertenceu  mesma famlia durante muitos anos, antes que eu a comprasse. J foi reformada vrias vezes e eu ainda fiz mais uma. Gosto
muito dela! - York se encaminhou para uma porta que havia no fundo do quarto. - Aqui fica o banheiro.
Perto da porta havia outra e Audrey chegou at l.
- E a, o que ?
- O que voc acha? Bem, a sra. Jacobs sabe que eu trouxe minha esposa comigo e que estivemos separados por muito tempo. Portanto, nada mais natural do que ela ter
nos preparado a sute principal da casa. - Ele abriu a porta e entrou. - Este  meu quarto, Audrey. Mas no se preocupe porque essa porta jamais ser aberta por
mim.
A porta se fechou atrs dele, deixando Audrey sozinha, at que um discreto empregado entrou no quarto, trazendo as malas.
-  A sra. Jacobs me pediu que lhe dissesse que ela pode trazer a bandeja do ch aqui em cima, caso queira.
- Diga-lhe que no precisa, vou descer j.
Audrey abriu as malas e guardou suas coisas dentro de um armrio. O que teria feito York comprar uma casa assim? Era grande demais para um homem sozinho! A no ser
que ele estivesse pensando em casar de novo.
Audrey desceu e foi direto para a cozinha, muito grande e bem aparelhada, mas que conservava o ar de fazenda. A sra. Jacobs indicou-lhe um carrinho, sobre o qual
havia xcaras, pires e um pratinho com biscoitos.
- Ia levar o ch  sala, mas o sr. Laing est no escritrio.
- No vou incomod-lo, ento - Audrey respondeu com um sorriso. - Tomo meu ch aqui mesmo e depois vou dar uma volta pelo jardim.
-  Acho que o sr. Laing a est esperando para tomarem o ch juntos. Ele me pediu que lhe mostrasse onde fica o escritrio.
Audrey concordou, tinha esquecido que precisava fazer seu papel de esposa que se reconciliara com o marido!
O escritrio era sbrio, com algumas paredes cobertas de estantes com livros. Uma janela ampla dava para os fundos da casa e, pouco alm do gramado, havia uma parte
adicional da casa, que servia de acomodaes extras-
- Gosto muito de morar aqui.  o lugar em que me escondo, para escapar um pouco dos negcios e poder descansar. - York ofereceu uma cadeira a Audrey.
-  Mas ela  enorme!  boa para quem tem uma famlia grande, muitos filhos...
- Bem, o fato de no t-los, no significa que um dia no venha a t-los!
Ser que ele estava pensando num novo casamento? Ela no tinha nada a ver com isso, mesmo assim, no pde evitar uma dor no corao ao pensar em crianas brincando
l fora! Filhos de York, com os mesmos cabelos escuros, os mesmos olhos expressivos...
Ela tremia tanto que a xcara comeou a balanar no pires.
-  Voc est cansada Audrey! V descansar, darei ordens para que no a perturbem.
- Vai estar aqui para jantar? - Se ela tinha um papel a cumprir, era melhor comear a faz-lo desde o incio. Precisavam mostrar a todos que estavam reconciliados,
e sabia que se cometesse deslizes, York a puniria bem depressa.
-  Estarei aqui o dia todo. Posso trabalhar to bem aqui como em Londres, e de modo muito mais agradvel! Aproveite para descansar bem. Assim que souberem que estamos
aqui, comearemos a receber convidados. Alis, Beth e Richard vm na sexta-feira. Quero conversar com ele sobre a Travel Mates.
- Vai avis-los sobre a nossa falsa reconciliao?
- Quero que fique bem claro, Audrey, que para eles e para todo mundo, ns nos reconciliamos de fato. As nicas pessoas que sabem que  s fingimento somos eu e voc!
Portanto, no cometa nenhum erro, nem tente chorar suas mgoas no ombro de Richard.
Se ela tivesse que chorar no ombro de algum, seria no de Beth, nunca no de Richard! Beth, pelo menos, sempre tinha sido gentil com ela!
Embora achasse que no estava cansada, Audrey dormiu quase a tarde toda, acordando somente quando a sra. Jacobs entrou no quarto, carregando uma bandeja.
- Que pena que acordou, sra. Laing, no era essa a minha inteno.
- No tem importncia, j dormi mais do que o suficiente. Estou at triste por ter perdido uma tarde to linda.
- Estamos tendo um fim de vero perfeito. A previso  de tempo bom a semana toda, e ter muitas ocasies para aproveit-lo.
- O sr. Laing ainda est trabalhando?
- No, senhora, ele saiu para passear com o cachorro. Normalmente sai a essa hora, sempre que est aqui. O jantar  servido s oito e meia. Est bem assim.
- Est timo. - Audrey no queria mudar a rotina da casa, ainda mais que ia ficar muito pouco tempo. Mas era um lugar to lindo que qualquer mulher se sentiria feliz
por poder diri-
gi-lo, e a sra. Jacobs poderia achar estranho se ela no se interessasse por nada.
-  Deve estar querendo suas malas, senhora. O sr. Laing deu ordens para que o motorista as trouxesse para cima assim que a senhora acordasse. Vou mandar traz-las.
-  Mas elas j esto aqui, sra. Jacobs! J guardei minhas coisas.
- So as malas que vieram de Londres, senhora.
York tinha mandado vir suas roupas do apartamento de Londres? Como isso era possvel?
Bem, com ele nada era impossvel. As malas que subiram continham realmente as coisas que tinha deixado no apartamento.
Audrey escolheu um vestido com saia rodada e corpo bem justo para usar no seu primeiro jantar naquela casa maravilhosa. Vestiu-se com esmero, no para impressionar
o marido, mas para mostrar-lhe que a moa tmida e insegura que ele tinha conhecido dera lugar a uma mulher confiante, que sabia como se comportar em qualquer lugar.
A comida estava deliciosa, e Audrey elogiou a sra. Jacobs pelo magnfico jantar que havia preparado.
- Como est mudada, Audrey. Antigamente voc ficava corada e sem jeito por qualquer coisa, principalmente quando amos a restaurantes!
- Na verdade, voc s me levou duas vezes para jantar fora, York. Acho que ficava com vergonha de ser visto comigo, e ainda por cima tinha medo que eu cometesse
uma gafe, no ? - Para surpresa de Audrey, ele ficou um pouco sem jeito. Ento York no era invulnervel! - Acho que dessa vez quer tornar nosso casamento o mais
pblico possvel. Estou certa?
- Exatamente. Vai precisar de roupas e jias, Audrey. J abri uma conta no banco, em seu nome, s falta voc assinar os papis.
- No quero seu dinheiro, York. Azar seu, se minhas roupas no so bastante sofisticadas.
- Voc concordou em agir como minha esposa e isso inclui roupas elegantes e jias. At mesmo isso!
York estendeu a mo e,  luz das velas que a Sra. Jacobs romanticamente tinha colocado na mesa, ela reconheceu o solitrio de brilhante rodeado de safiras que ela
havia usado no incio do casamento.
Instintivamente Audrey se afastou, com vontade de esconder as mos. Mas York foi mais rpido e, segurando sua mo esquerda, colocou a magnfica jia em seu dedo,
junto da aliana.
- Seja bem-vinda, Sra. Laing. Tenho tambm um presente pelo seu aniversrio. No esqueci que  hoje. - Ele colocou um pacote muito bem embrulhado no colo dela.
Com tanta mudana em sua vida, Audrey tinha at esquecido da data, e o presente a deixou espantada. Desfez o pacote devagar e se viu diante de uma caixa longa, de
couro marrom. Abriu-a e ficou boquiaberta: dentro havia um fabuloso colar de brilhantes e safiras.
- Deixe que eu o coloco em voc. - Com movimentos precisos, York ps o colar do mesmo estilo do anel no pescoo dela.
- Tinha certeza de que eu concordaria com voc em fazer o papel de esposa dedicada, no , York? - Um tom amargo dominava sua voz. -  melhor tir-lo, no o quero.
Audrey comeou a abrir o fecho, mas York colocou as mos sobre as dela, que comearam a tremer, recordando outras vezes em que tinham estado muito perto um do outro.
Por mais que tentasse negar, ele no lhe era indiferente e, ficando assim to junto dele, acabaria por vencer suas resolues de evit-lo a todo custo.
Tinha certeza apenas de que queria muito o divrcio, e faria tudo para obt-lo.
- No estou lhe dando as jias como suborno, nem pense nisso. Lembre-se de que, para o mundo, somos um casal que acabou de fazer as pazes depois de dois anos de
separao. Nada mais natural do que eu lhe dar presentes valiosos, no ? Sou um homem rico, Audrey, e voc  a esposa desse homem rico.
- Voc s consegue pensar em dinheiro e h algumas coisas que ele no pode comprar, York.
- Como o qu?
- Amor! Mas voc nunca fez questo de ter amor! - Ela saiu de perto de York, antes que ele pudesse responder. Gostaria de ir direto para o quarto, mas o orgulho
a obrigava a ficar, a viver seu papel de esposa, com o qual havia concordado. Ela foi at a mesinha e comeou a servir o caf.
- Quer creme ou acar com o caf, York?
- No lembra mais de como eu o tomo? Acho que no vai convencer ningum como minha esposa adorada, se no sabe esses mnimos detalhes.
-  No se preocupe com isso, darei conta do recado. Mas seria uma boa idia dizer a todos que sou muito reservada e que no gosto de demonstrar meus sentimentos.
- No gosta, Audrey?
-  Pare com isso, York. - Ele no havia se mexido e no entanto a atmosfera da sala parecia carregada de sensualidade. Audrey j sentia o corao bater mais forte.
- Talvez seja um golpe para seu ego, mas o fato  que voc me  indiferente.
- Sou mesmo?
Ele chegou mais perto, o peito largo contra os seios dela, os braos ao redor de sua cintura fina. Audrey tentou se livrar, fazendo fora para sair daquele abrao,
virando a cabea de um lado para o outro para evitar que York a beijasse. Mas, ao reparar no brilho sensual que pairava nos olhos do marido, chegou  concluso de
que, quanto mais lutava, mais ele ficava excitado. No entanto, agora ela no tinha mais dezenove anos e sabia bem o que significava a presso das coxas dele contra
as suas.
- Me solte!
- Voc parece estar coberta por uma camada de gelo, mas no pode se esconder por trs dela a vida inteira, Audrey. Um dia algum vai derreter esse gelo todo e chegar
ao seu verdadeiro eu.
Audrey tremia, comeando a sentir a antiga vontade de se dar toda a ele. Seu corpo e sua mente pareciam duas entidades diferentes, o corpo ansiava por York e a mente
o afastava. Com um gesto rpido, ela se soltou daquele abrao apertado.
- Voc  covarde, Audrey! Eu tinha razo: a camada de gelo que a cobre  bem fininha.
- Vamos parar com isso! Afinal de contas, no estou aqui agindo como esposa dedicada apenas em meu benefcio. Voc tambm tem muito a ganhar. Por isso, quero que
saiba que no estou disposta a aceitar intimidades com voc.
- No entanto, seu corpo correspondeu a meus carinhos. Pude sentir muito bem que voc vibrou.
- Vibrei de medo e no de desejo. Acha que eu seria capaz de esquecer as lies que me deu? - Audrey tinha a expresso dolorosa de quem j sofreu muito. - Somos
seres humanos e no animais, York. Temos o poder de pensar e de sentir, meu corpo guarda lembranas de prazer e satisfao, ao passo que minha mente s lembra de
voc com medo e revolta.
-  Ento no vai lhe fazer diferena nenhuma estar junto do meu corpo novamente. - Ele a segurou nos braos, aproximando sua boca da dela, obrigando-a a entreabrir
os lbios.
Audrey foi tomada pelo medo e pavor, e forava os punhos fechados contra o peito dele, procurando afast-lo. Quando York finalmente a largou, ela cruzou os braos
sobre os seios numa atitude de defesa.
- No precisa tomar ares de mrtir, Audrey. Voc me provocou e no pude me controlar. Mas no ia violent-la ou algo parecido, embora me sentisse tentado a isso.
Audrey se sentiu atingida por essas palavras. Lembrou que tia Emma dizia que s um determinado tipo de mulher permitia que um homem a desrespeitasse. Ela era esse
tipo de mulher? A que leva o homem  violncia? Ficou enojada, doente de pensar no assunto. Virou as costas ao marido e saiu da sala, quase correndo, para chegar
logo  segurana de seu quarto.
York era o culpado de tudo! Por que tinha insistido em que vivessem aquela farsa? Ela no queria comear a sofrer de novo! Lutara tanto para conseguir levantar um
muro de indiferena a seu redor, e em pouco mais de vinte e quatro horas ele havia destrudo sua proteo!
Ela queria dormir, para conseguir esquecer seus problemas, mas o sono no chegava. Foi at a janela, distraindo-se com a viso das rvores e flores do jardim. Nisso
avistou York entre as sombras e saiu depressa da janela para que ele no a visse.
Tinha vontade de fugir, para evitar encontrar-se com ele de novo. Ao mesmo tempo, uma outra parte de seu ser a obrigava a ficar. Por que se sentia assim dividida?
Por que no o odiava de uma vez e no punha um fim a seu sofrimento?
Somente depois de muito pensar, Audrey chegou  concluso de que s quando conseguisse vencer as emoes que sentia pelo marido,  que estaria realmente livre.


                                     CAPTULO VI


Ela estava no jardim quando viu que York saa de casa e se aproximava. Felizmente, no estava sozinho. A seu lado havia um homem de cerca de cinquenta anos e uma
garota muito bonita.
-  Sir Giles, quero lhe apresentar minha esposa, Audrey. Este  Sir Giles Barlow, minha querida, e sua linda filha An-nette.
Sir Giles cumprimentou Audrey, no escondendo um olhar de profunda admirao. Em compensao, Annette mal olhou para ela, pois no tirava os olhos de York.
Annette, embora um pouco mais cheia que Audrey, tinha um corpo bonito, valorizado pela fina qualidade das roupas que vestia. Embora tentasse ostentar um ar de adulta,
no devia ter mais que dezessete anos, e era evidente que estava encantada por York. No saa do lado dele e, sempre que possvel, segurava-lhe o brao de modo que
seus seios encostassem nele.
- Fiquei muito feliz por saber que voc e York se reconciliaram. - Sir Giles tinha uma voz muito agradvel. - Um homem de posio, como ele, precisa de uma esposa
e, acima de tudo, da esposa certa.
A medida que a conversa prosseguia, Audrey deduziu que sir Giles era do Servio Civil e provavelmente tinha sido ele quem avisara York sobre a entrega do ttulo
de cavalheiro.
- O motivo da minha visita, hoje - sir Giles explicava -  convid-los para conhecer Charles Phillips, secretrio do pri-meiro-ministro. Ele vai ficar uns dias conosco,
na minha casa, e acho que seria muito interessante que se encontrasse com vocs.
Enquanto sir Giles falava, o pensamento de Audrey ia longe. Esse tal de Charles Phillips deveria ter sido encarregado de observar o casal para depois decidir sobre
o ttulo a ser conferido a York.
- Voc vai, no , York? Seno vai ser to chato. - Annette mais uma vez se pendurou no brao dele.
Audrey gostava cada vez menos da garota. No sabia bem se no gostava de seus modos ou se sentia inveja porque a moa paquerava York descaradamente.
- Eu e minha esposa teremos imenso prazer em ir. - York soltou-se do brao da moa e comeou a conversar animadamente com o pai dela.
-  Papai vai me dar um vestido maravilhoso para a festa!
- Annette no teve outro remdio seno conversar com Audrey.
- E voc, j resolveu que cor de vestido vai usar?
- Ainda no fao a menor idia! - Virando se para sir Giles, Audrey convidou: - No gostaria de tomar um caf?
- Adoraria! Sabe, essa  a desvantagem de ser vivo, sempre dependo de amigos carinhosos para me convidarem para tomar caf, almoar... Annette ainda no  muito
do tipo domstica, no , minha flhinha?
Os quatro se dirigiram para casa e York teve o cuidado de andar ao lado da esposa, com a mo em seu ombro, demonstrando ser um marido delicado e atencioso.
Logo aps o caf, sir Giles e a filha foram embora.
- Esse convite  para que voc possa ser observado, antes da entrega do ttulo, no , York? - Os dois tinham ficado na sala para conversar mais um pouco.
- Voc  esperta, Audrey,  isso mesmo. Agora no temos mais como voltar atrs e desistir de nosso acordo.
-  Ento cabe a voc fazer com que eu no desista. Que espcie de festa vai ser?
- Vai ser bastante sofisticada. Todas as pessoas importantes da comunidade estaro presentes. No est preocupada, est?
- No, claro que no! - Mas, em seu ntimo, ela no sabia o que usar para estar realmente  altura da ocasio. - Pena que eu no tenha sabido da festa antes, assim
teria comprado una vestido novo.
- Isso no  problema, podemos ir a Londres hoje  tarde. Passo pelo escritrio para resolver alguns negcios, e voc procura o vestido que achar mais bonito.
York foi guiando um carro esporte muito veloz. Seu interior no era espaoso como o Rolls Royce e Audrey sentiu-se perturbada com tal intimidade.
Por um instante, York parou o carro em Bond Street para que ela descesse e colocou-lhe um cheque na mo. A quantia era to grande que Audrey ficou de boca aberta.
Estendeu a mo para devolv-lo, no queria aceitar dinheiro nenhum dele.
- Considere essa quantia como uma parte de seu trabalho e o vestido novo como um uniforme. Faria a mesma coisa com qualquer um dos meus funcionrios. - Ele fechou
a porta do carro e foi embora.
Audrey olhou em vrias lojas, tentando encontrar um vestido que estivesse de acordo com a ocasio e que combinasse com sua personalidade.
Acabou encontrando o que queria numa loja bastante exclusiva, em Mayfair. Ele era de seda creme, muito leve, a saia rodada, o que punha em evidncia sua cintura
fina e delicada. As mangas eram bufantes e o decote redondo era bem baixo, mostrando a suave curva de seus seios. Era um vestido simples, mas muito elegante, e o
decote ousado o tornava sensual. Assim que o experimentou, Audrey no teve dvidas,  esse o vestido que sonhei, ela se afirmou. Ficou impressionada com o preo,
mas ainda era bem inferior  quantia que York havia lhe dado.
- Escolheu muito bem, senhora. - A vendedora fazia o pacote. -  um modelo clssico e poder us-lo durante anos!
Audrey j estava saindo da loja quando viu um vestido pendurado num cabide prximo. Foi at l e comeou a examin-lo.
- Esse  um modelo exclusivo, senhora. Foi feito sob medida, mas a cliente acabou mudando de idia. E um tamanho bem pequeno.
- Vou experiment-lo.
A roupa era sensacional! De seda preta e transparente, com vrias saias sobrepostas era completado por um colete em cetim vermelho, muito justo, que dava ao conjunto
um aspecto flamengo, de um toureiro em plena exibio. Audrey se apaixonou pela roupa e, apesar do preo assustador, acabou comprando-o. Saiu da loja feliz e realizada.
Eles tinham combinado de se encontrar para o ch. Quando Audrey chegou ao Fortnum, uma confeitaria muito elegante, York j a estava esperando.
- Encontrou o que queria?
- Encontrei. - Ela no queria entrar em detalhes sobre o que tinha comprado, para fazer uma surpresa no dia da festa. Ao pensar no provocante vestido preto, ficou
um pouco arrependida de t-lo comprado. Era sexy demais e no sabia quando iria us-lo. Era o tipo de roupa que uma mulher usa quando quer atrair um homem, e esse
no era o seu caso.
- Quer ficar em Londres para jantar ou prefere ir para casa?
- Prefiro ir para casa. - Ela se sentia mais  vontade com York em casa do que num restaurante chique, sofisticado, que daria ocasio a uma conversa mais ntima
e romntica.
- Est bem. A propsito, Audrey, estou pensando que poderamos dar uma festa em casa, pelo Natal. Que acha?
Audrey olhou para o marido com surpresa, ele nunca a consultara antes!
-  Todos esperam que a gente oferea uma reunio, para que possam ter a oportunidade de conhecer minha esposa, que por tanto tempo esteve ausente.
- O que disse para explicar nossa separao?
-  Que meu trabalho tinha ficado entre ns dois e que por isso cada um tinha procurado levar a prpria vida. Essa  uma situao bastante comum, acontece todos os
dias.
- Compreendo...
- O que esperava que eu dissesse, Audrey? Que de repente minha mulher se tornou frgida e preferiu me abandonar do que me ter na cama, a seu lado?
-  Tenho certeza de que as mulheres, pelo menos, jamais iriam acreditar nessa explicao.
- Um elogio, Audrey? E vindo de voc? - Seus olhos brilhavam, maliciosos e ela tratou de mudar de assunto.
-  A sra. Jacobs sempre prepara o jantar para as oito e meia...  melhor no chegarmos atrasados.
No carro, Audrey se sentou o mais longe possvel dele. O esforo constante de mante-lo a distncia a deixava exausta e com os nervos a ponto de estourar! E ela s
estava morando com ele h uma semana! Como ia aguentar quatro meses?
O jantar, como sempre, estava perfeito. A sra. Jacobs era uma cozinheira excelente.
-  Quantas pessoas viro para a festa de Natal, York? Se forem muitas, poderemos contratar mais gente para ajudar.
- Umas cinquenta ou sessenta pessoas. - Ele a olhava com interesse, imaginando como ela teria vivido durante o tempo em que ficaram separados. Audrey havia mudado,
e para melhor. No parecia assustada, e mesmo ao pensar numa festa to grande tinha o ar confiante e sossegado.
Audrey, por sua vez, j estava imaginando como organizaria a festa para que ela fosse um sucesso. O tempo que trabalhara com Alan tinha lhe dado experincia e confiana
em sua capacidade. Alm disso, havia feito vrios cursos noturnos, porque sabia que esse era o nico jeito de conseguir sempre melhores posies. Tinha frequentado
cursos de boas maneiras, etiqueta, arranjos de mesa., decorao e tantos outros... e ps tudo em prtica, enquanto trabalhava com Alan.
Foram tomar um caf na sala e Audrey se surpreendeu como York vivia bem o papel de marido dedicado. Quando moravam no apartamento, ele sempre ia para o escritrio
assim que terminava a refeio. Agora, estava ali com ela, tomando o caf com calma, na sala aquecida pela lareira.
York se aproximou e Audrey, no mesmo instante, se retesou.
- Meu Deus do cu! Que exagero, Audrey, eu no ia toc-la.  melhor no se comportar assim amanh, na casa de sir Giles, ou ningum vai acreditar que somos um casal
feliz.
- Acho que muita gente ficaria feliz por saber que no somos esse casal perfeito. - Audrey estava pensando em Annette, mas deveria haver muitas outras mulheres que
pensavam do mesmo jeito.
- O que quer dizer com isso?
Na luz que vinha da lareira, Audrey percebeu que York estava zangado. Ela no devia esquecer que, por baixo daquela superfcie calma estava o homem de quem um dia
tinha fugido apavorada.
- Quero dizer que Annette no deve ser a nica mulher que no gosta da idia da nossa "reconciliao".
- Est com cime?
- Por que deveria estar?
-  Claro! Por baixo dessa crosta de gelo no pode mesmo sentir nada! - Mudando da ironia para o tom srio, ele continuou; - Annette  viva e muito observadora. No
quero que ela suspeite de nada!
- Ento vamos fazer o mximo para enganar a filha de sir Giles, no ? Podemos pr em risco o seu ttulo de cavalheiro! - Alm de ironia havia amargura em suas palavras.
- Foi bem diferente comigo! Voc nunca se importou em me humilhar e ferir meus sentimentos!
- H um mundo de diferena entre vocs duas!
Com a voz entrecortada de raiva, ela disse com revolta:
-  Tem toda razo! Desculpe se esqueci meu lugar! Claro que somos completamente diferentes! Annette  a filha de um baro, e eu sou apenas a moa rf...
-  Deixe de ser boba, Audrey. No foi isso o que eu quis dizer!
- Ento o que foi? Explique, se puder. E no v me dizer que no sabe como Annette se sente a seu respeito, nem que no sabe que sir Giles ficaria muito feliz se
voc seduzisse a filha dele como...
-  Da mesma maneira como seduzi voc? Era isso que ia dizer? Acho que est esquecendo de um pequeno detalhe... O que quer que tenha havido entre ns, foi mtuo!
Audrey ficou quieta, impressionada com a maneira como havia reagido. Em geral, ela era muito calma e raramente tinha essas exploses. Enquanto estivera separada
dele, no havia se exaltado nem uma vez, e agora, em poucos dias, parecia uma fera enjaulada, pronta para dar o bote.
- Annette  muito esperta, Audrey, e no a quero perto de mim. Ela significa problemas e j os tive suficientes para o resto da vida.
- No espere que eu sirva de escudo contra ela! - Audrey se levantou. - Estou cansada, vou deitar.
Ao chegar ao quarto, Audrey j no sentia mais raiva, mas dor de cabea. Estava sempre tendo que reprimir suas emoes e isso a deixava esgotada. Era incrvel como
York exercia influncia sobre ela! Bastava se aproximar um pouco para que logo ficasse alerta, desejando-o como sempre. Mas tinha que manter a mente comandando o
corpo, seno seria envolvida pelo charme do marido! Por mais que dissesse que no o amava mais, sabia que isso no era verdade. Cada fibra de seu ser vibrava ao
menor contato com ele!
Ela foi tomar banho, na esperana de relaxar. Colocou uma camisola azul-clara de que gostava muito e sentou-se na frente do espelho para escovar os cabelos. Continuava
imersa em suas recordaes quando ouviu um rudo na porta do quarto. Esta se abriu e York entrou, fazendo com que Audrey derrubasse a escova no cho, to grande
foi seu espanto ao v-lo ali. Ele se abaixou para peg-la e, ao erguer-se, percorreu o corpo dela com o olhar, detendo-se em cada pequeno detalhe daquele corpo mal
coberto pelo tecido transparente.
Audrey retesou o corpo, tentando fugir quele vexame. York apertou os lbios, numa expresso zangada.
- Trouxe sua bolsa, voc a esqueceu l embaixo. Audrey nem se mexeu. Tinha to pouco controle sobre si
mesma que, se o fizesse, era capaz de quebrar-se em mil pedaos. Ao ver York em seu quarto, ela de camisola, numa cena to ntima, transportou-se para o apartamento
e os momentos de paixo que se desenrolaram entre as quatro paredes do quarto. Sentiu o mesmo frmito de desejo, a mesma vontade incon-tida de senti-lo perto.
- No respondo por mim se continuar a me olhar desse jeito,
335GAIOLA DOURADA
Audrey. - York veio mais perto e foi obrigando-a a se afastar, at que ela sentiu a beirada da cama atrs dos joelhos. A, ele segurou-a entre os braos. - No 
de mim que tem medo! E de seus prprios sentimentos! Queira ou no, voc  uma mulher capaz de grandes paixes, Audrey. Nunca tive que for-la...
Ela levou as mos aos ouvidos, os olhos cheios de pavor e angstia.
- Pare com isso! Pare! No quero ouvir mais nada! - Sua voz se quebrou, num soluo seco.
Ele a fez deitar na cama, prendendo-a com o corpo.
- Pois vai ter que ouvir! Pode tentar se enganar, pensando que  fria e intocvel, mas a verdade,  que no  assim. Ainda no esqueci de como se entregava quando
estava em meus braos, Audrey. Era uma entrega total, de corpo e alma!
Audrey gemia baixinho, balanando a cabea de um lado para o outro, tentando no ouvir aquelas palavras que reavivavam lembranas que ela queria esquecer.
- No... No... Nunca quis voc! Eu no quero ningum! O peso do corpo de York sobre o seu estava despertando sensaes to fortes e reais que Audrey j no sabia
mais como lutar contra elas. Batia no peito do marido com os punhos fechados para ver se ele a deixava em paz.
Com muita facilidade, York segurou-lhe os pulsos sobre a cabea, enquanto continuava a olhar as curvas sensuais de seu corpo.
- No fique preocupada comigo, Audrey. Quando fizermos amor voc vir para mim de livre e espontnea vontade.
- Nunca! - Ela fixou os olhos nos dele, havia raiva e dio em seus bonitos olhos que se mostravam dourados e brilhantes.
Ele aproximou o rosto do dela e ligeiramente, como uma borboleta pousa numa flor, passou os lbios nas faces, olhos e lbios de Audrey. Ela contraa os msculos
para se controlar, pois se sentia tentada a corresponder s carcias sensuais que s ele sabia fazer!
- Me deixe em paz, York, no sinto nada por voc!
York continuou a acarici-la como se nem a tivesse ouvido. Seus lbios ainda a tocavam levemente nas faces, nas orelhas, 336
GAIOLA DOURADA
junto  boca. Audrey se sentia tonta, carregada por um desejo que era mais forte que sua fora de vontade... Sentia que ia parar de lutar e se abandonar ao prazer
de um contato mais ntimo. Ela suspirou fundo, pronta a se entregar.
York ouviu esse suspiro. Endireitou o corpo e, afastando um pouco o rosto, olhou-a com firmeza.
- No, Audrey. Dessa vez no vou lhe dar a chance de dizer que eu a forcei. - Ele levantou e foi at a porta de comunicao entre os quartos. - Se voc me quiser,
sabe onde me encontrar.
Audrey se sentiu mortificada pela traio de seu corpo. York tinha visto que, apesar das firmes decises, por um breve instante ela havia esquecido tudo, disposta
a corresponder ao chamado da paixo.
Levantou-se e comeou a andar pelo quarto, sentia-se amargurada ao pensar no que acontecera. O que estava havendo com ela?
No conseguia se manter fria e distante daquele homem a quem devia odiar? E York? Por que a tinha feito partilhar da vida dele de novo? Seria apenas interesse em
obter o ttulo de sir ou existia algum outro plano em sua mente?
Ele era muito orgulhoso e talvez algumas perguntas tivessem ficado sem resposta, quando ela partiu de repente. Ser que ele ia usar esses quatro meses para castig-la
pelo passado? Ele teria a coragem de for-la a implorar para voltar para a cama dele? Audrey se sentiu desesperada. No ia aguentar tanta humilhao! Por que seu
corpo ansiava tanto pelo dele? E por que ele insistia tanto em despert-la para a paixo? Aquele desejo imenso s podia ser sinal de amor e, no entanto, York no
a amava!
Perdida nesses pensamentos, s depois de muito tempo ela conseguiu dormir.

No dia seguinte, Audrey se recusou a pensar mais sobre o assunto. Quando desceu, York j estava tomando o caf. Ela lhe deu um bom-dia seco e sentou-se, pegando
o jornal para ler, enquanto esperava que a sra. Jacobs lhe trouxesse o caf quente.
Um artigo sobre St. John chamou sua ateno. Estava muito bem escrito e falava das maravilhas do hotel e da ilha, deixava que a fascinao do lugar despertasse desejo
nas pessoas de visit-la.
Audrey sentiu que York estava de p, atrs de sua cadeira, e acariciava seus ombros. Viu ento que a ara. Jacobs tinha acabado de entrar na sala e provavelmente
ele quisera demonstrar  empregada que eram um casal muito amoroso.
York chegou a cabea bem perto da dela.
- Esse rapaz que escreveu o artigo  sensacional. Acho que vai ajudar muito a promover a ilha e o hotel.
- Foi voc quem encomendou o artigo?
- Foi. Tenho que fazer promoes para l... Afinal de contas, foi um investimento muito grande! E no desisto facilmente das coisas em que invisto, sejam elas quais
forem. Bem, no se esquea de avisar a sra. Jacobs que jantamos fora hoje. Vou para o escritrio. Estarei l, se me quiser.
- Nunca vai chegar esse dia - Audrey resmungou to baixinho que ele no a ouviu.
Quando comeou a se arrumar para a festa daquela noite, Audrey caprichou. Pintou-se com esmero e prendeu os cabelos num coque baixo, sobre a nuca. Colocou o vestido
creme que lhe caa como uma luva e usou seu perfume predileto. Estava quase pronta quando York bateu na porta e entrou.
Ele a examinou de alto a baixo e ela esperou, trmula, sua opinio, mesmo que fosse de desaprovao.
- Parece uma esttua de marfim, Audrey, mas sob ela existe carne e sangue e ns dois sabemos disso!
Ao chegarem  festa, a casa estava toda iluminada e cheia de gente. A noite estava fria e em cada aposento havia uma lareira acesa, queimando madeira de sndalo,
que deixava a casa perfumada.
Assim que Annette os viu chegar, correu para junto de York e, segurando seu brao, beijou-o no rosto. Sir Giles pareceu ficar aborrecido com a atitude da filha e,
mais para deix-lo sossegado, Audrey colocou a mo no brao do marido, chegando mais perto dele. York estranhou o procedimento da esposa, mas no teve tempo de dizer
nada, pois logo foram rodeados pelos outros hspedes.
Pela prtica adquirida como relaes-pblicas, Audrey conversou com todos com muita naturalidade, sorrindo calmamente ao contar sobre seu casamento refeito.
Annette no deixava escapar uma oportunidade para ficar ao lado de York. Quando olhava para Audrey tinha raiva e inveja no olhar. Ao ver que um grupo de grandes
industriais cercava York e comeava uma conversa interessante, Audrey, discretamente, se afastou. - Ento, voc  a esposa de York!
Audrey virou-se para ver a dona dessa voz e viu-se diante de uma senhora pequena, de cabelos grisalhos, vestida com muita elegncia.
- Desculpe, mas no sei...
- No sabe quem eu sou? - Um sorriso sincero iluminou o rosto da mulher. - E, pelo jeito, seu marido no vai ter tempo de nos apresentar. J reparou que quando homens
de negcios esto juntos falam mais do que ns, mulheres? Pode ser que no me conhea, minha querida, mas sempre segui muito de perto a carreira de York. Desde que
ele era criana sempre acreditei que ele conseguiria ser algum.
- Conheceu York quando era menino?
-  Morvamos nesta mesma cidade. No sabia que ele foi criado em Cotswolds?
- Ele no fala muito sobre a infncia. - Audrey achou melhor no mentir, porque a mulher parecia conhec-lo muito bem.
- E muito justo que seja assim, em vista das circunstncias. Nem sei como ele voltou para c... Um homem precisa de muita coragem para voltar ao lugar onde existem
tantos fantasmas do passado. Fiquei ainda mais feliz quando soube que tinham vindo juntos!
-  Obrigada. - Audrey sentia simpatia por aquela mulher to agradvel e que parecia gostar tanto de York.
- J tinha ficado feliz ao saber que ele havia casado pois, mais do que ningum, York precisava de um casamento slido. Mas quando ele veio para c sozinho e comprou
a casa, cheguei a achar que o passado tinha afinal acabado por venc-lo. Ainda bem que esto juntos de novo! Merecem ser felizes. York nunca teve muita alegria,
enquanto garoto!
Audrey j estava pronta para perguntar mais quando sentiu que York colocava o brao no seu. Ele parecia muito contente por encontrar aquela mulher,
- Lady Morley, como vai? - Ele beijou-lhe a mo e a mulher lhe deu um sonoro beijo na face.
-  Essa  uma das vantagens da idade! Posso fazer o que toda mulher nessa festa gostaria de fazer! - Mais uma vez o sorriso simptico apareceu no rosto de lady Morley.
- Seu marido  muito atraente e voc  muito feliz por t-lo, minha querida. Fao questo que venham  minha casa. Est bem na prxima quinta-feira?
Depois de aceitarem o convite, York apresentou Charles Phillips a Audrey. Ele era pequeno e tinha olhos escuros muito vivos, que pareciam examinar e pesar cada detalhe
da atitude do casal.
- Seu marido me disse que esteve trabalhando no Caribe. Deve achar Cotswolds muito diferente do que tinha por l.
- Adoro estar aqui! Principalmente agora, que York consegue ficar mais tempo em casa.
- Tem razo. Soube que o trabalho demasiado de seu marido foi o motivo da separao.
- Essa  uma coisa que preferimos esquecer agora - York interrompeu. - Venha, querida, quero apresent-la aos outros convidados.
Estavam se encaminhando para a outra sala quando Annette surgiu, o rosto um pouco alterado, talvez por ter bebido alm da conta. Ela parou em frente a York, agarrando
lhe o brao, os olhos tentadoramente voltados para ele.
- No vai danar comigo, York? - Annette teimava em ignorar a presena de Audrey, que virou para o lado, procurando no participar daquele dilogo.
Foi ento que ela viu o rosto familiar de Jlia Harding. Nunca esperara encontr-la ali! Assim que Jlia percebeu a presena de Audrey, parou de conversar e lhe
sorriu com malcia.
- Audrey, minha querida, que bom v-la novamente! - Jlia foi para junto de Audrey. - Ouvi dizer que voc e York estavam juntos outra vez! Conhece meu amigo Toby,
colunista social do Daily Herald? - Jlia apresentou-a ao rapaz loiro que a acompanhava. - Para ele, nada  segredo!
Eles devem ser amantes, Audrey pensou. No entanto, pela maneira como Jlia olhava para York, no devia estar muito apaixonada pelo jornalista.
- O tempo passa e as coisas no mudam, no , Audrey. - Jlia continuava destilando seu veneno. - Pelo jeito, York ainda tem uma queda por garotas bem jovens! Coitada
de voc, Audrey, deve estar morrendo de cime!
- No ligue para essa garotinha - Toby disse para Audrey. - Somente o pai de Annette no v que espcie de moa ela .
- Voc no conhece as preferncias de York, Toby. - Jlia se sentia feliz em demonstrar como conhecia bem York. - Audrey tambm era muito criana quando ele casou
com ela!
- Nem tanto - Audrey respondeu com frieza. - Tinha de-zenove anos.
- Exatamente! Mal sada da escola! E ele tinha trinta anos ou mais. E lembra-se de que eu j previa que o casamento no ia durar, Audrey?
- Lembro muito bem, Jlia. E, como v, voc estava errada. Com licena. - Audrey foi para junto de York, colocando a mo sobre o brao dele,
Annette ainda estava pedindo e insistindo que queria danar com ele.
Audrey sentiu raiva da garota, principalmente depois da provocao de Jlia.
- Voc prometeu que s danaria comigo, meu querido. - Audrey olhava Annette, com dio. As duas estavam, declara-damente, disputando a ateno de York.
Ele passou o brao pela cintura da esposa, segurando-a bem perto de si. Annette sentia tanto cimes que, se pudesse, mataria Audrey ali mesmo.
York foi com Audrey para o salo de danas. Assim que estavam longo de Annette, ele comentou:
- Obrigado! Voc me salvou na hora certa... Est interpretando seu papel muito bem.
- No sei como! No sou muito boa para cenas de cime.
- Annette deve ter problemas. Acho que ela  ninfomanaca e nem  atraente!
- No mesmo? - Como Audrey se arrependeu do ter dito essas palavras. Estava parecendo uma esposa ciumenta!
- Achou que uma criana boba como ela podia ter alguma atrao?
- Ela no  mais criana. Pelo menos, no no sentido sexual, York. E bem diferente quando a pessoa  mais infantil. Quando eu tinha a idade dela...
- Na idade dela e, bem mais velha, voc era completamente inocente e ingnua, at que eu entrei na sua vida. Estava esperando que voc me acusasse disso h muito
tempo! Agora s falta me acusar de t-la seduzido!
Audrey queria responder  altura do desafio, mas Giles se aproximava com Annette e York imediatamente virou-se para ela.
- Vamos danar, Audrey, antes que Annette chegue perto. Saram danando, o brao dele em redor da cintura de Audrey, mantendo-a to prxima que ela podia sentir
o bater de seu corao debaixo das mos que colocara habilmente sobre o peito de York, tentando mant-lo um pouco mais afastado. Ao som da msica romntica, ela
se sentia transportada ao mundo de magia, encantamento, que s a presena dele podia causar. Sentia-se mole, sem vontade, pensamentos erticos lhe ocupando a mente.
Tinha que ficar mais longe de York! Empurrou o um pouco com as mos. Ele chegou os lbios junto dos cabelos dela e, muito baixinho, murmurou: - Esto ns olhando,
tome cuidado!
Ela deixou-se ficar nos braos dele, sentindo que York acompanhava com os dedos a curvatura de sua espinha. Audrey tinha vontade de gritar! Ele a estava deixando
hipnotizada com esses carinhos, estava usando a dana como um pretexto para mant-la bem unida ao corpo dele! A presso das pernas fortes sobre as suas a fazia recordar
situaes que ela preferia esquecer. Meu Deus! Como ele podia ter tanto domnio sobre seu corpo, a ponto de obscurecer seu raciocnio e sua vontade?
A msica parecia no acabar nunca e, quando ela terminou, Audrey sentia os msculos doloridos e cansados de tanto se controlar.
Sir Giles se aproximou, sozinho dessa vez.
- Charles Phillips j vai embora.
- Vou me despedir dele, foi um prazer conhec-lo. - York foi buscar o abrigo de Audrey enquanto ela ficava conversando com sir Giles.
- Sua casa  muito linda, sir Giles.
-  Tambm gosto muito dela. Foi um meu ancestral que a construiu. Gostaria de ver o retrato dele, que um pintor famoso da poca lhe deu de presente?
- Com muito prazer.
Audrey e sir Giles foram at a outra sala, onde a pintura estava exposta. Examinavam o quadro, quando perceberam, nas sombras, uma voz abafada.
-  Quero que me beije, York... - Era Annette, que ainda no havia desistido de suas intenes.
Audrey ouviu perfeitamente bem as palavras, o mesmo acontecendo com sir Giles.
-  Sinto muito sobre este pequeno incidente, mas Annette acha seu marido encantador. No se preocupe, porm! Ela  apenas uma menina fascinada por um homem mais
velho. Coisa de criana!
- Isso no me afeta, sir Giles - Audrey disse com sinceridade, ou, pelo menos, achava que sim. Teve que se obrigar a sorrir quando viu Annette e York aparecerem
juntos e perceber uma expresso satisfeita no rosto da garota.
York no estava aborrecido nem embaraado, apenas chegou junto de Audrey, colocando o abrigo sobre seus ombros. Sir Giles se afastou em companhia da filha.
- Pensei que tivesse esgotado sua cota de menininhas, York!
- Audrey mantinha seu tom mais gelado.- Ou garotas de escolas so uma presa muito mais fcil?
York apertou os olhos, com raiva. Parecia que ia estourar e Audrey at teve medo que se tornasse muito violento. Mas ele se limitou a comentar:
- Guarde as garras, Audrey. No h motivo para tanto exagero!
-  Estava apenas com pena de sir Giles! - Audrey tinha tido realmente pena do bom homem, mas sentira prncipalmen- te muito cime.
Claro que no ia admitir que se sentia assim, porque nem tinha razo para isso. Seu caso com o marido j terminara h muito tempo e ele a havia humilhado demais!
No entanto, daria   tudo para trocar de papel com Annette. Como gostaria de poder   demonstrar a York a paixo que ainda sentia. Mas tinha que se controlar, para
no sofrer de novo. Tudo estava acabado, precisava se convencer disso!
Foram para casa em silncio. Mas o espao pequeno do carro estava repleto do poder sensual de York e ela sentia os pulsos latejarem, o corpo doer de desejo contido!
O problema todo era que, quando concordara em voltar a viver com ele, havia deixado bem claro que uma das condies seria que no tivessem nenhum contato fsico.
Tinha esquecido que no dia-a-dia de um casamento, qualquer pequeno contato poderia se transformar numa poderosa exploso sexual!
Aquele homem sentado a seu lado tinha ensinado a seu corpo o que era o prazer e o xtase. Audrey havia procurado esquecer esses momentos de felicidade completa,
agindo como se eles nunca tivessem existido. Agora seu corpo se revoltava contra ela, na nsia e procura de uma sensao maravilhosa que jamais poderia ser esquecida!


                                       CAPITULO VII


Assim que chegaram em casa, Audrey foi direto  para o quarto. Tratou logo de se despir, como se com movimentos rpidos, pudesse apagar as sensaes que havia sentido
ao danar cora o marido. Ainda podia sentir a presso das pernas dele contra as suas, os braos quentes e aconchegantes que a tinham mantido to prxima.
Do outro lado da porta de comunicao, vinham rudos que demonstravam que York tambm se preparava para dormir. Com um frio na espinha, ela lembrou que ele tinha
sido muito firme ao dizer que aquela porta s abriria a pedido dela!
Audrey soltou os cabelos e tentou abrir o fecho do colar de brilhantes, que estava difcil de se desprender. Ela tentou vrias vezes, mas no conseguiu.
Foi at o banheiro para ver se conseguia abri-lo em frente ao espelho. Foi ento que viu sua imagem refletida, estava at engraado! Ela, nua, com o colar brilhando
no pescoo! Depois de algum esforo intil, acabou desistindo. Envolveu-se numa toalha e voltou para o quarto.
York estava l, encostado a uma parede, apenas vestindo a cala do pijama, seu peito estava nu e Audrey no pde deixar de admirar o fsico perfeito do marido.
- Que voc quer aqui? - Ela no escondeu sua raiva.
- O que acha que quero? - Ele tentou tirar a toalha que a cobria. - Viveu to bem seu papel de esposa amante, que achei que talvez quisesse continuar sua atuao
por mais algum tempo.
O medo deixou-a paralisada, mas ela ainda teve presena de esprito para segurar a toalha. York, porm, foi mais rpido e num instante Audrey sentiu que esta lhe
era arrancada do corpo para ser jogada a um canto do aposento.
- Pare com isso, York. - Audrey se afastou. - No pedi que viesse aqui!
- Voc no fez outra coisa a noite toda, Audrey. Sei que me quer e por isso mesmo vai me ter!
York estava to excitado que no adiantava mostrar-lhe a razo ou tentar convenc-lo pelo raciocnio. Seus olhos brilhavam de desejo intenso, o que provocava ondas
de calor no corpo nu de Audrey.
- No quero voc, York - insistiu, tentando no olhar para aquele peito onde gostaria tanto de estar aninhada. Por mais que seus lbios dissessem que no o queria,
ela sentia uma vontade imensa de lhe beijar o pescoo, de sentir o calor daqueles lbios, que sabiam beijar to bem!
Ele continuou se aproximando e Audrey levantou as mos para mant-lo a distncia. Num movimento brusco, York a segurou, apertando-a contra si. Com as mos em seu
peito, ela tentava empurr-lo, mas cada vez mais ele a apertava de encontro ao corpo forte.
- Voc me deseja, Audrey, e antes que essa noite acabe vai ter que admitir isso, no s com palavras mas tambm com aes.
Audrey tremia! Gostaria de se entregar totalmente, mas sabia que isso seria sua destruio completa. York no a amava, ele apenas a desejava, e no era isso o que
ela queria.
- Me deixe em paz, York. - Ela estava quase sem flego, sentindo os lbios de York em seu rosto, seu pescoo, pressionando cada vez mais para que os corpos ficassem
juntos.
Comeou ento a bater com os punhos fechados no peito do marido para que ele a soltasse. Com muita facilidade, York segurou seus pulsos e os prendeu com unta das
mos. atrs da cintura, ela protestava, mas ele fingia nem ouvir. Logo passou a lhe acariciar a pele do corpo com a ponta dos dedos e com lbios ardentes.
- No faa assim, York. - O desejo crescia em seu corpo, j nem sabia mais como resistir! Tinha os olhos bem abertos e cheios de medo e raiva,
- Voc gosta disso, Audrey. No adianta fingir que no sente nada porque vejo que est querendo a mesma coisa que eu.
- Odeio suas carcias! Odeio voc!
- Est vendo como est progredindo? J no existe, mais indiferena. Alis, nunca existiu, no ? - Ele passava os lbios bem de leve sobre o rosto dela. Foi descendo
pelo queixo, garganta, pescoo... - Voc me deseja, Audrey! Posso sentir que me quer!
-  No! No o quero! - Suas palavras foram esmagadas pela boca de York que a beijava, com fria.
Ele a acariciava com selvageria, convidando, querendo, e exigindo completa rendio. Ela se sentia envolvida por um turbilho de emoes, incapaz de pensar ou de
agir de modo racional.
Ouvia apenas seus prprios soluos secos, sua respirao forada, sentia apenas os msculos doloridos pelo esforo de se livrar daquele abrao apertado.
De repente sentiu que York a soltava um pouco e, quando abriu os olhos, notou que ele a observava, enquanto passava os dedos sobre os lbios dela.
- Eu a machuquei? Desculpe, vou beij-la com mais cuidado. Audrey sabia que ele estava fazendo um jogo com as emoes
dela, assumindo s vezes o papel de inimigo, outras de protetor. Tinha certeza de que ele s a deixaria quando tivesse conseguido o que queria.
Sempre havia pensado que a nica maneira de se livrar do domnio do marido seria ficar em seus braos e chegar ao mais ntimo dos contatos sem sentir emoo alguma!
Mas agora sabia que isso era impossvel, ele nunca lhe seria indiferente! Ela o desejava agora, como sempre o desejara, com a mesma intensidade, com a mesma vontade...
Tinha que reconhecer que no adiantava lutar contra esses sentimentos, pois eles eram mais fortes que sua prpria vida, maiores que sua capacidade de raciocinar...
No tinha mais foras para recus-lo, quando seu corao ansiava pelos carinhos que s ele sabia fazer!
Pronta para a entrega total, Audrey passou os braos ao redor do pescoo do marido, suspirando fundo, entregando-se ao prazer do contato com seus lbios quentes
e sensuais. Passava os dedos por seus cabelos, sentia os msculos de suas costas, apertava-o contra os seios.
York levantou-a nos braos e a colocou sobre a cama, o corpo moreno tremendo de paixo e desejo. Beijou-a novamente, um beijo longo, explorador, sentindo a umidade
quente da boca ansiosa de Audrey. Com as mos, fazia carcias em seu corpo, sentindo a rigidez de seus mamilos, a curva suave de seus seios, a cintura delicada,
os quadris redondos...
Ela tambm o acariciava, sentindo o calor da pele do marido, seguindo a linha de sua espinha, voltando ao pescoo forte.
Audrey s notou que estava chorando quando sentiu o gosto salgado de suas lgrimas na pele de York. Agora que tinha comeado, no conseguia parar. As lgrimas rolavam
por seu rosto, esvaziando-a de suas dores, amarguras, angstias...
- Finalmente derreteu! Voc  uma bobinha, Audrey! O que estava tentando fazer consigo mesma?
Como um animal perseguido, encurralado por seus caadores, Audrey ainda tentou escapar. Mas York queria ter seu triunfo completo e continuou a segur-la muito perto
at que ela soluasse e chorasse, at ter vencido sua tempestade emocional.
Quando Audrey conseguiu se acalmar, ele deitou-a de lado e ela ficou quieta, exausta demais para reclamar quando as mos do marido comearam de novo a passear pelo
seu corpo.
- Agora que j venceu esse tormento, sabe o que vou fazer com voc? - York falava num tom de voz baixo, profundo, que mexia com cada fibra de Audrey. - Vou lhe fazer
tantos carinhos at que voc me implore para que eu a possua. Quero que pronuncie meu nome com prazer e delcia e, por Deus, prometo que vou conseguir!
Ela devia protestar! Esse desejo incontido no era amor, era apenas sexo! Mas sentia-se to esgotada, que no conseguia mais lutar, estava vencida pela intensidade
de suas emoes!
No tinha mudado e havia sido uma boba de pensar que seus sentimentos pudessem ser diferentes! No era possvel amar uma pessoa a ponto de consider-la uma obsesso
e depois trat-la com indiferena! Ela sempre o amara e nada ia mudar essa situao!
Audrey podia sentir o peso do marido sobre seu corpo. Entregou-se ao prazer daquele contato, passando as mos pelas costas to queridas! O desejo obscureceu sua
mente e ela se apertava contra ele, tocando-o, acariciando-o, os olhos fechados pela fora do prazer.
Os dois se davam inteiramente ao grande desejo que os consumia. York continuava com suas carcias alucinantes que faziam o sangue de Audrey circular mais rapidamente
nas veias, e ela, pela prpria vontade, acariciava a corpo dele, sentindo cada pequeno detalhe de sua figura mscula.
Audrey j no se controlava mais. Deixava que o corpo seguisse os prprios impulsos e correspondia com paixo s carcias do marido, vibrando, participando, gozando
os momentos de grande intimidade.
- Diga que me deseja, Audrey! Diga!
Ela apenas gemeu, queria falar, mas no podia! York segurou o rosto dela entre as mos.
- Diga, Audrey! Quero ouvi-la! - ele insistia, os lbios colados aos dela, as respiraes se misturando, os coraes batendo no mesmo compasso alucinado. - Seu corpo
j est dizendo o que sua boca ainda se recusa...
Lgrimas de frustrao encheram os olhos de Audrey. Ela queria mand-lo para o inferno e, no entanto, seus lbios j estavam murmurando palavras que traziam prazer
aos olhos de York.
- Diga outra vez, Audrey. Diga mais alto, agora. Quero ter a certeza de que ns dois estamos ouvindo!
-  Eu o quero, York! No posso evit-lo, meu Deus! Eu o desejo... - Ela se sentiu aliviada pela dor da rendio e da angstia, mas York ainda no parecia satisfeito.
- Agora me pea, me implore que eu faa amor com voc! Audrey ainda tentou escapar daquele encantamento, mas as mos de York em seus seios mostravam que ele continuava
dominando a situao.
"Nunca!", o crebro de Audrey gritava, mas o toque suave das mos de York estava fazendo com que ela perdesse com-pletamente o domnio sobre si mesma. Com um gemido
desesperado, ela lhe deu a satisfao final. As palavras saram de sua boca, calmas a princpio, depois mais inflamadas, at que pareciam o apelo desesperado de
um nufrago em busca da salvao.
A paixo explodiu entre aqueles dois seres de modo total, completo e absoluto! No havia mais vencedor ou vencido, existia somente desejo. Eles pareciam estar pondo
sua alma em descoberto e dando vazo a um sentimento longamente reprimido.
Quando chegou ao clmax, Audrey sentiu-se muito mais feliz, completa e satisfeita do que jamais havia se sentido antes. Era como se o passado, presente e futuro
se interligassem, dando-lhe uma sensao de realidade!
Lentamente, como se fosse difcil focalizar, ela olhou para York. Ele estava plido, mas com uma expresso de total satisfao. Meu Deus, eu ainda o amo! Audrey
sentiu o gosto amargo que s o amor no correspondido pode dar!
York abriu os olhos, parecendo estar a quilmetros de distncia.
- Voc me desejou, Audrey.
Essas palavras entraram fundo em sua alma e Audrey no pde escapar da verdade que elas encerravam.
-   verdade... - Sofria ao ter que admitir sua rendio. Estava muito exausta para se mexer, mas sua mente estava clara e percebia tudo com objetividade. - Espero
que tenha valido a pena, York. Pouqussimos homens teriam aguentado tanta degradao. No possa negar o bvio, mas quero que saiba que me odeio e desprezo pelo que
meu corpo exigiu. Se pudesse, carregaria voc para dentro do meu inferno, eu o faria, sem dvida alguma! Porque  assim que me sinto, York, no inferno! - Seu corpo
foi sacudido por soluos violentos e ela mal conseguia continuar a falar: - Voc queria dominar meu corpo e conseguiu muito mais que isso! Conseguiu me destruir,
York! Conseguiu me marcar to fundo como se o tivesse feito com um ferro em brasa.
- Estou pagando muito caro pelo que obtive! - Seu rosto estava duro como se fosse esculpido no mrmore. Voc ter o divrcio.
Ela comeou a rir, um riso histrico, nervoso, o som de sua gargalhada parecia encher o quarto de amargura.
-  E ento eu estarei livre! Para qu? Para me casar de novo? Acha que eu teria coragem de dar a um outro homem os restos daquilo em que voc me transformou?
Com a expresso transtornada pelo dio, York levantou, apanhando suas roupas.
- Fizemos um acordo, Audrey.
- E vou cumprir minha parte. Porm, voc no cumpriu a sua! No disse que eu teria que implorar para t-lo novamente na cama comigo? No foi bem assim que as coisas
aconteceram!
Sem uma palavra York foi at a porta de comunicao, deu um ltimo olhar  esposa e foi para seu quarto, batendo a porta com raiva, e fazendo Audrey tremer de apreenso.

Somente no dia seguinte, quando acordou, Audrey percebeu que ainda estava usando o colar de brilhantes. Olhando para o relgio, viu que no tinha muito tempo para
se arrumar, pois Beth e Richard vinham almoar com eles. Colocou um conjunto de saa e malha azul-claro, que tornou seus olhos ainda mais profundos. Desceu depressa
e foi ao encontro da sra. Jacobs, na cozinha.
- Teria acordado a senhora, mas o sr. Laing disse que a deixasse dormir. A festa estava boa, ontem?
- Estava tima. - O co pastor estava perto dela e Audrey acariciava seu plo macio. - Meu marido ainda est em casa?
- Est no escritrio. Posso lhe servir o caf!
- Quero apenas um suco de laranja. A que horas acha que os convidados chegaro?
- Normalmente vm por volta de onze horas.
Audrey foi para o escritrio. Deveria ter pedido que a governanta a ajudasse a tirar o colar, mas achou melhor no, pois a sra. Jacobs poderia achar estranho que
ela lhe pedisse ajuda, em vez de pedir ao marido.
York no levantou os olhos quando ela entrou.
- Pode deixar a bandeja sobre a mesa, sra. Jacobs. Eu mesmo me sirvo.
Uma grande dor invadiu o corao de Audrey. Seria to bom se York a amasse. Poderiam ser to felizes! Mas a verdade era que ele no sentia nada por ela, e tinha
que enfrentar essa realidade.
- No  a sra. Jacobs, York, sou eu. - Queria lhe demonstrar que os acontecimentos da noite passada no haviam mudado a situao. - No consegui abrir o fecho do
colar e por isso vim pedir sua ajuda.
- Se outra pessoa estivesse me falando isso, pensaria que era um convite. Por que no pediu  sra. Jacobs que a ajudasse?
-  Porque achei que no devia lhe dar a chance de ficar pensando por que no tinha pedido a voc.
- Uma atitude muito nobre. - Sua voz estava carregada de sarcasmo. - O que est querendo fazer comigo? Quer que eu me sinta culpado e tenha remorsos pelo que aconteceu?
York chegou junto dela e Audrey pde sentir a mo dele em seu pescoo. Ela retesou os msculos, mas Jogo em seguida o colar se desprendeu.
Audrey virou-se, enfrentando o olhar do marido. - Nunca tento obter o impossvel, York. Ns dois sabemos que voc no tem compaixo nem generosidade e que tratou
de obter sua vingana at o ponto mais extremo. Foi uma pena que no deixasse o vinho amadurecer. Ainda temos trs meses juntos e, se no fosse to impetuoso, teria
tido a oportunidade de me humilhar durante esse tempo todo. No acha que isso daria sabor extra  sua vingana?
Audrey sentiu-se satisfeita de ver que York ficava vermelho, com tanta raiva que parecia que ia estourar! Como se no tivesse conseguido esse resultado e estivesse
falando coisas muito corriqueiras e normais, ela continuou:
- Presumo que a farsa deva continuar e que Beth e Richard devem acreditar que estamos muito felizes com nossa reconciliao.  isso mesmo?
-  Saia j daqui. sua... - York estava furioso. Voltou depressa para sua escrivaninha, como se ela no existisse.
Apesar de achar que tinha vencido essa pequena batalha, Audrey se sentia triste. Sua vontade era chegar perto dele, encostar a cabea no peito forte e ali ficar,
acariciando-o. J estava perto da porta quando ouviu que York se dirigia a ela.
- E no seja tonta de deixar que Beth ou Richard percebam a verdade! Se tentar, no respondo por meus atos.
"Beth continua a mesma. J no a vejo h dois anos, mas  como se esse tempo no tivesse passado!", Audrey pensou, ao abraar a secretria de York.
- Nem pode avaliar como estou contente em v-la de volta, Beth - comentou no ouvido da amiga.
Audrey estendeu a mo para cumprimentar Richard, mas ele, muito  vontade, chegou mais perto e beijou-a no rosto.
- Lembre que est beijando minha esposa - York comentou, fazendo com que Richard soltasse Audrey.
- Desculpe, patro! s vezes esqueo como  possessivo! - Richard riu e as outras pessoas na sala o acompanharam.
Audrey, no entanto, sabia que York ainda estava zangado com ela e que no tinha gostado da brincadeira.
Durante o almoo, para surpresa do Audrey, York dirigiu a conversa para assuntos gerais, em vez de concentr-la em negcios.
Mesmo assim, por vezes, Richard mencionou a questo da aviao comercial de uma maneira inteligente e sensata.
- Um almoo delicioso! - Beth acabava de saborear o ltimo pedao de seu doce. - Acho que vou precisar andar mais de uma hora, para fazer a digesto!
- D uma volta pelo jardim - York sugeriu. - Tenho alguns assuntos para discutir com Richard e no vou precisar de voc imediatamente.
- Vou com voc. - Audrey se ps de p. - Poderemos trocar idias sobre a festa de Natal.
As duas mulheres foram para o jardim e, enquanto andavam, iam conversando.
- Estou muito feliz que voc e York estejam juntos de novo. Logo que se casaram tive minhas dvidas se o casamento iria dar certo. Havia muita diferena de idade
entre vocs e achei que York ia exigir muito da mulher com quem se casasse. Para ser sincera, no me surpreendi quando o deixou, mas fiquei apreensiva. Ele sentiu
muita falta de voc, Audrey. Estes ltimos dois anos foram longos e dolorosos para ele!
York era esperto, Audrey admitiu para si mesma. Devia ter pensado em busc-la desde que teve a primeira notcia de que ia receber o ttulo, e com isso conseguiu
enganar at mesmo Beth, com quem estava sempre em contato. Ele havia agido da maneira que lhe fora mais conveniente! Era muito mais fcil trazer de volta sua antiga
esposa do que casar-se com outra mulher, da qual mais tarde teria dificuldade em livrar-se. Mas como ele tinha conseguido ach-la? Quando o deixou, passou a usar
seu nome de solteira e nunca havia tocado num centavo do dinheiro que ele tinha depositado em seu nome no banco.
- Foram dois anos de separao, Beth.  bastante tempo e faz a gente pensar um pouco...
- Tem razo. A princpio, me preocupei quando ele comeou a receber uns relatrios sobre suas atividades. Mas, quando soube que ele a procurava para que ficassem
juntos de novo, fiquei felicssima!
Audrey no entendia como Beth podia ser to cega! Ser que acreditava que York se dera a todo esse trabalho apenas porque gostava dela? Que engano! Ele tinha agido
assim porque no queria se sentir derrotado!
- Voc mudou muito nesse meio tempo, Audrey. Me parece mais madura, mais mulher.
- Estou apenas mais velha, Beth, e amadureci na dura escola da vida. Quem no mudou nada foi Jlia Harding. Ns nos vimos ontem  noite, numa festa.
- Espero que agora esteja mais apta a lidar com as Jlias da vida, minha amiga. Ela ficou com um cime louco, quando voc e York casaram.
- Sei disso, Beth. E essa  uma ironia do destino, porque, se no fosse por ela, acho que no nos teramos casado. York teve que escolher entre uma publicidade negativa
e um ato cavalheiresco, e optou pela segunda hiptese. - Vendo a expresso espantada de Beth, Audrey continuou: - No fique chocada assim. Devia ter adivinhado que
se tratava de qualquer coisa no gnero. Ainda mais levando em considerao a diferena de idade e experincia entre York e eu.
-  S sei que quando York voltou daquela viagem era um homem completamente mudado - Beth respondeu com diplomacia. E para evitar dificuldades, passou a falar sobre
a festa de Natal e seus preparativos.
Enquanto voltavam para casa, Beth no podia deixar de se admirar por ver Audrey to mudada. Tinha deixado de ser aquela criana insegura para se tornar uma mulher
madura, inteligente e interessante, que sabia conversar e expor suas opinies.
Ao entrarem na sala, viram que York e Richard estavam sentados, tomando um conhaque.
- Gostariam de beber alguma coisa? - York ofereceu com gentileza.
As duas recusaram e Audrey notou que Richard a olhava com muita intensidade, parecendo gostar do que via. Ele j havia estado no Caribe e os dois comearam a conversar
animadamente sobre a poltica e a vida naquelas ilhas.
- A pobreza  to grande e h to pouca coisa para se fazer! - Audrey comentou.
- Acho que deve haver algo de errado comigo. - Richard deu uma gostosa gargalhada,. - Estou aqui, falando com uma linda mulher, e meu nico assunto  sobre poltica!
Acho que seria muito mais interessante se tivesse lhe pedido que me mostrasse os jardins da casa!
Audrey se uniu a risada de Richard e somente depois de alguns segundos perceberam que York tinha a expresso carregada de aborrecimento.
Constrangida, Beth logo se levantou e, pegando Richard pelo brao, lembrou que j era tempo de irem embora. Audrey lamentou que a tarde tivesse passado to depressa.
Aps acompanharem as visitas at o carro, York puxou Audrey de volta para casa, sem esconder sua raiva.
-  assim que voc gosta, no ? Fica provocando os homens e ao mesmo tempo os mantm a uma distncia conveniente, no? No caiu na asneira de deixar Richard pensar
que voc est disponvel, espero.
- Estvamos apenas conversando, York, s isso. No vejo motivos para tamanho escndalo,
- S conversando, no, Audrey? Pois v se olhar no espelho! Ningum fica assim animada s de falar! Estava era paquerando aquele moleque e bem debaixo do meu nariz!
Como espera convencer algum de que estamos bem um com o outro, se continua agindo dessa maneira?
- Est exagerando, York. Se era para ficar zangado eu teria muito mais motivos de ficar louca da vida ontem  noite, com a tal de Annette. Ou pensa que no estava
claro que vocs estavam muito mais do que paquerando?
- Annette que v para o inferno! J estou cansado de lhe dizer... - Ele estava ficando cada vez mais furioso. Ainda andaram mais uns passos at que ele parou e olhou-a
bem no fundo dos olhos. - Meu Deus, o que adianta tudo isso? - Ele a soltou e entrou no escritrio, batendo a porta.
Audrey respirou fundo, tentando readquirir o controle. Quando York a tocava, mesmo com raiva, ela sentia que seu corpo vibrava e ainda ansiava por estar mais perto
dele, acarici-lo, senti-lo... tinha que enfrentar trs meses dessa situao!
Audrey foi para a cozinha para combinar os detalhes da festa de Natal com a sra. Jacobs. Chegaram  concluso de que precisariam apenas de alguns garons e uma pessoa
para ajudar a preparar os pratos. A festa seria no sbado, antes do Natal, e, logo em seguida, os empregados da casa teriam uma semana de descanso para visitarem
suas famlias.
York no quis jantar. Andrey comeu sozinha e depois foi para a sala, onde ficou lendo. Mas o assunto parecia no interess-la e ela se sentia agitada, preferindo
andar pela sala, sem conseguir ficar parada.
s nove e meia ela ouviu que a porta do escritrio se abria.
Ficou esperando que York entrasse na sala, mas pouco depois escutou o barulho de seu carro que se afastava ligeiro. Aonde ele estaria indo a essa hora? Para os braos
de Annette, onde encontraria consolo e satisfao para seus desejos? Audrey deixou escapar um gemido, o cime corroendo-lhe as entranhas.
Ainda tentou se distrair ouvindo msica e jogando pacincia, mas no conseguia concentrar a ateno em nada. Acabou indo deitar, embora soubesse que no conseguiria
dormir. Ainda estava acordada quando ouviu os rudos de York que chegava. Olhou para o relgio e viu que eram duas e meia da manh!
Prestando ateno aos rudos, Audrey percebeu quando York subiu, logo depois ouviu o barulho do chuveiro e depois o silncio. Ento, ele no ia entrar no quarto
dela! Alis, para qu? J tinha conseguido o que queria na noite anterior, e ento para que entrar ali agora? Durante muito tempo ela ainda ficou deitada, sem dormir,
at que conseguiu finalmente conciliar o sono.

Os dias se passavam em igual monotonia. Eles tomavam caf juntos, mal se falando, a no ser quando a sra. Jacobs estava presente. Depois, York se fechava em seu
escritrio e ela cuidava dos preparativos da festa ou ia dar uma volta com o cachorro.
Audrey cada vez mais ficava encantada com a paisagem. Adorava passear pelos campos, aproveitava o ar limpo e claro, parava junto a um regato cristalino...
J tinha esquecido completamente do convite de lady Morley, quando ela telefonou para lembr-la. York no estava, mas o motorista podia lev-la no Rolls Royce que
tinha ficado na garagem.
A casa era pintada de creme, na encosta de um morro, num lugar onde parecia haver muita calma e tranquilidade. Lady Morley veio receber Audrey na porta, parecendo
muito feliz por rev-la.
- Vamos para a biblioteca, minha cara. Aqui est muito frio para ficarmos conversando.
Elas entraram numa sala cujas paredes estavam cobertas por estantes repletas de livros. A moblia era de couro e tudo tinha um ar bem masculino.
- Este era o lugar predileto do meu marido - lady Morley explicou. - Agora, esta casa est grande demais para mim e tenho a maioria dos cmodos fechados. Fico normalmente
na salinha ntima que se abre para os jardins e quando estou nostlgica venho para c, onde posso sentir mais a presena dele.
- Deve ser horrvel perder se o companheiro de tantos anos! - Audrey sentiu pena daquela senhora.
- Ainda mais quando se passou a vida inteira juntos, minha filha. Quando nos casamos, eu tinha dezessete anos e ele trinta,  Isso foi logo depois da Segunda Guerra
Mundial. Estvamos tremendamente apaixonados e esse amor durou a vida toda. Mas nem tudo foram rosas, claro. A guerra foi uma experincia traumatizante para todos
ns. Bem, no vamos falar de coisas tristes. Venha, vamos sentar, vou pedir que nos tragam ch.
Audrey tinha pensado que haveria outros convidados e ficou um pouco surpresa por ver que ela era a nica.
- Acho delicioso ter algum com quem conversar - Lady Morley ajeitou melhor a almofada em suas costas -, mas odeio muita gente ao meu redor. Somente fui a festa
de sir Giles para poder conhecer voc. - Ela sorriu ao confessar isso. - Gosto demais do seu marido! Acho-o uma pessoa excelente!
-  Fico contente por saber que ele tem uma boa amiga na senhora.
-  Sabe, fiquei muito preocupada quando soube de seu casamento to rpido! Pensei que York tivesse arranjado uma moa interessada somente em subir na vida e que
quisesse apenas os bens materiais que ele possui.
- Acha que York se deixaria enganar assim facilmente?
- Sei que York  muito inteligente, minha filha. Mas emo-cionalmente ainda acho que  imaturo.  como se fosse uma criana que tivesse se queimado e ficasse com
medo do fogo. Mas j deve ter notado isso por si mesma! Nunca pensei que ele conseguisse vencer os traumas da infncia, e por isso fiquei to feliz ao ver que havia
muito amor entre vocs dois. J pensaram em ter filhos?
A intimidade dessa pergunta deixou Audrey sem jeito para responder.
- Sei que no devia ter perguntado. Mas, infelizmente, Geor-ge e eu no pudemos ter filhos, e sempre tenho imenso prazer de saber que um beb est a caminho. No
existe maior prova de amor do que ter-se um filho do homem que se ama, no concorda comigo?
Essas palavras de lady Morley tocaram fundo o corao de Audrey. Realmente, deveria ser delicioso carregar o filho de York em seu ventre, sentindo-o crescer, dia
aps dia, ms aps ms, at que a semente crescesse a tal ponto de aparecer como a prova viva do amor que os unia!
- Como era York quando criana? - Audrey sentia uma incrvel necessidade de saber mais detalhes a respeito do marido.
- J deve saber de tudo a respeito dele, mas em todo caso... Os pais se separaram quando ele tinha seis anos e o pior de tudo  que o pai, Ian, deixou a mulher para
viver com a filha de seu scio. A me dele era muito ciumenta e fazia cenas de cimes que chegavam a ser violentas.
Lady Morley parou de falar para servir o ch e oferecer biscoitos  sua convidada. S depois que estavam de novo instaladas no sof, saboreando o ch.  que ela
continuou:
- Quando Ian a abandonou, todos pensaram que a me de York ia sair da cidade para nunca mais voltar. Mas ela achou melhor ficar, para permanecer como um espinho
perturbando a vida do marido. Era uma mulher amarga, orgulhosa e vingativa, e se recusou a dar o divrcio a Ian e ningum ficou sabendo o que contou ao filho. O
fato  que sempre criticou o marido pelo que ele fizera. Talvez isso a ajudasse a vencer a prpria dor, mas nem por um momento pensou como o filho reagiria a essas
circunstncias.
-  Uma criana no deve crescer achando que o pai agiu mal! - Audrey sentiu pena de York.
- A me dele nunca me pareceu muito normal. Em vez de tentar compensar o filho pela falta do pai, como geralmente acontece, ela parecia odi-lo cada vez mais. Lembro
que uma vez os encontrei na cidade e ele, ainda um menininho, tinha cado e chorava de dor, segurando o joelho machucado. Pensei que ela fosse acarici-lo e coloc-lo
nos braos, mas fez exata-mente o contrrio. Empurrou-o para o lado e ainda ficou zangada porque ele tinha sujado a roupa! Quando olhei para a carinha de desespero
de York, senti meu corao se fechar de tanta tristeza.
- No deviam ter permitido que ela continuasse com a criana! - Audrey estava revoltada.
- Todos na cidade sabiam o que acontecia e at chegamos a falar com Ian. Mas ele no ligava para o filho e no quis saber. As coisas ainda pioraram mais depois que
York cresceu. Faltava muito  escola e tentou fugir de casa vrias vezes. Foi assim que eu e meu marido acabamos por conhec-lo. Um dia ele estava fugindo to apavorado
que s conseguia dizer que estava procurando o pai. No entanto, tanto York como ns, sabamos que o pai no queria nada com ele.
-  Mas York  hoje um homem to preparado, to culto! Como ele conseguiu vencer, Lady Morley?
- Conseguimos intern-lo num timo colgio, e mais tarde ele ganhou uma bolsa de estudos para a faculdade. York sempre foi um rapaz de grande valor e na primeira
oportunidade que teve demonstrou sua capacidade.
- Os pais dele ainda so vivos?
-  A me morreu quando ele tinha quinze anos e o pai a seguiu dois ou trs anos depois. Por incrvel que parea, nenhum dos dois deixou nada para o filho, nem ao
menos um pequeno objeto pessoal! No conheci outra criana que tenha sido tratada to sem amor como York. Sempre achei que esse rapaz no seria capaz de ter nenhuma
emoo ou sentimento. Por isso nunca pensei que ele fosse capaz de vencer essas barreiras da infncia e encontrar a felicidade.
Audrey sentia que as lgrimas escapavam de seus olhos. Quanta coisa ficava explicada ao saber dos antecedentes do marido! Somente agora podia compreender por que
ele queria domin-la, obrig-la a implorar seu amor! Era talvez o que gostaria de ter feito com os pais!
Como uma pessoa podia agir assim com o prprio filho? No conseguia entender! Mesmo que aquela criana tivesse se tornado intolervel, ao lembr-la do amor que havia
sentido por Ian, ainda assim o amor de me deveria ter sido mais forte! No se destri a vida de um ser que se ps no mundo!
- No sabia de nenhum desses detalhes e nem sei como lhe agradecer por ter me contado, lady Morley. O que eu soube faz com que ame York ainda mais.
- Achei que iria ajudar, minha querida. Sou bem mais velha que voc, acho que podia ser sua av, e por isso enxergo mais longe. Vi que vocs dois estavam juntos
de novo, mas sinto que ainda existem algumas barreiras a serem vencidas. No teria lhe contado nada se no soubesse que o amava.
- Nem pode avaliar como ajudou!
-  No, esquea, Audrey, que mais do que ningum York precisa de amor e compreenso. E se voc tiver coragem, tenho certeza de que vencer todos os obstculos que
surgiro entre voc e ele.
As duas ficaram conversando por mais algum tempo. Audrey se sentia muito ligada quela mulher que a tinha feito entender muitas coisas que estavam atrapalhando sua
vida.
Ao se despedir, Audrey convidou-a para ir  festa de Natal.
- J lhe expliquei que no sou muito socivel e que gosto de conversar com uma pessoa de cada vez, minha querida. Mas ficarei muito feliz se for convidada para o
batizado do beb, quando ele vier. A, terei segurana absoluta de que todas as barreiras foram derrubadas e que vocs so realmente felizes!


                                                CAPTULO VIII


As revelaes de lady Morley levaram Audrey  a observar o marido mais de perto, procurando por traos daquela infncia de menino que no recebeu o amor dos pais.
As semanas se passaram, transcorreu novembro e chegou dezembro. A distncia entre York e Audrey crescia cada vez mais. Ela j no ia mais para o quarto ansiosa,
pensando que ele a procuraria. York agia como um estranho educado e sua maneira fria e distante sugeria que ela no seria bem recebida no quarto dele.
Muitas vezes Audrey se perguntava se ele seria capaz de amar algum ou se sua infncia infeliz tinha terminado com seus sentimentos.
Na semana que antecedeu  festa de Natal, Audrey e a sra. Jacobs ficaram muito ocupadas na cozinha, separando loua e talheres, alm de prepararem os pratos para
a festa que foram depois colocados no congelador, apenas para serem aquecidos no momento certo.
Alm de vrios convidados de natureza comercial, estariam presentes sir Giles, alguns visitantes, Beth e Richard. Quando Beth telefonou aceitando o convite, Audrey
brincou:
-  Ainda bem que vem! Se a festa for um fracasso, posso contar com um ombro para chorar!
- Nada vai dar errado, Audrey. Acho que ainda tem muitos talentos escondidos,  s lanar mo deles.
Quando tudo estava bem adiantado, Audrey pensou em ir a Londres para arrumar os cabelos, comprar alguns presentes de Natal que ainda faltavam e tambm para se distrair
um pouco do muito trabalho que tivera.
O melhor seria passar o dia todo em Londres. Por isso, foi falar com York, pois poderia ir com ele de manh e aproveitar tambm a carona para voltar.
Ele concordou, com uma resposta bastante seca. Estava com um copo de usque na mo e j no era o primeiro do dia. Ser que sua presena estava sendo to desagradvel
que ele havia comeado a beber? Audrey se mostrava preocupada. Uma coisa tinha ficado bem clara: desde aquela noite em que estivera em seu quarto, ele havia tratado
de evitar qualquer conta to fsico com ela, at mesmo o toque dos dedos para passar alguma coisa  mesa.
Talvez ele a tivesse desejado demais, pensava Audrey, mas sua entrega total havia matado aquela sede de desejo! Agora ele era o homem mais frio e distante que ela
j tinha visto. Parecia ate detestar o sexo feminino de um modo geral. Ela teria culpa nessa mudana ou a culpada seria a me, que no o tinha ensinado a amar?
-  A que horas vamos para Londres amanh? - Audrey queria estar pronta na hora certa.
- Esteja pronta s oito. - Ele acabou de tomar a bebida, e colocou o copo sobre a mesa. - Vou sair agora.
"De novo?", pensou Audrey. Ele saa todas as noites, e sempre voltava bem tarde. Nunca dizia aonde ia e ela ficava esperando acordada ate ouvir o rudo inconfundvel
de seu carro.
Na manh seguinte, na hora exata, Audrey estava pronta. Usava um conjunto de saia e casaco de tweed e uma blusa de seda rosa que combinava muito bem com ele. Estava
com sapatos de salto mdio, pois pretendia andar bastante e no queria ficar cansada. Sentia-se elegante e atraente.
York estava acabando de tomar caf, o jornal aberto  frente. Audrey reparou que ele tinha emagrecido, que os ossos de seu rosto estavam um pouco mais salientes.
Em seus olhos havia sempre um vu de tristeza e, no entanto, ele continuava sensual e atraente como sempre. Como sentia falta de estar entre aqueles braos fortes
e quentes!
O trfego estava bastante intenso e York deu toda sua ateno a ele. Somente quando estacionou o carro para que ela descesse  que lhe dirigiu a palavra.
- Volto para casa s cinco horas e pego voc aqui mesmo. Ele se inclinou para lhe abrir a porta e seu brao roou no corpo de Audrey. Ela teve que se controlar para
no dar um suspiro de satisfao e prazer.
As compras levaram mais tempo do que Audrey tinha planejado. As lojas estavam todas cheias por causa do Natal e todos pareciam muito apressados.
Ainda no comprara um presente para York, porque no sabia o que lhe dar. Gostaria demais de presente-lo com algo que lhe mostrasse o quanto ela o queria, mas deveria
trair seus sentimentos? No! No havia nada que pudesse lhe dar para mostrar como ele lhe era importante, porque tudo o que York quisera dela, ele j tinha conseguido.
Ao passar por uma joalheria, escolheu um par de abotoadu-ras de ouro, de desenho simples e as pagou com o prprio dinheiro.
J era quase hora do almoo e Audrey achou que seria uma boa ideia convidar Beth para almoar. Estava bem perto do escritrio de York e talvez pudesse alcanar Beth
e conversarem durante a refeio.
Andou mais alguns quarteires, e j estava diante do prdio do escritrio quando ouviu uma voz conhecida cham-la.
- Alan! Que surpresa agradvel. No sabia que estava na Inglaterra!
- Cheguei h poucos dias. Estou muito contente em v-la. Seu tom queimado de pas tropical contrastava com a palidez
de inverno de Audrey.
- O que est fazendo por aqui?
- York mandou me chamar. Ele no lhe contou?
-  No, Ele tem estado muito ocupado e por isso no me disse nada.
-  , acho que tem coisas mais interessantes a fazer com voc do que ficar falando de mim! - Havia tanta malcia em seu tom que Audrey ficou sem jeito.
- Ora, Alan, deixe de ser bobo! Sabe muito bem qual  meu relacionamento com York!
- Achei que sabia, at que a encontrei aqui, em frente ao escritrio dele. As mulheres no procuram seus maridos em hora de trabalho, se eles lhes so indiferentes.
- No vim ver York. Vou apenas deixar estes pacotes aqui.
- Ento, venha almoar comigo.
Ela aceitou o convite e Alan carregou os pacotes. Foram at um restaurante que ficava perto do escritrio.
-  Descobri este lugar antes de ir para St. John. - Alan puxou a cadeira para que ela se sentasse. - A comida  tima, embora no seja um lugar sofisticado.
Realmente, a comida estava excelente. Durante toda a refeio os dois ficaram conversando sobre St. John.
-  Aquele anncio que York mandou fazer fez com que o hotel se transformasse num sucesso total! Acho que ele tem o instinto certo para negcios, Audrey. A melhor
coisa que podia ter me acontecido foi associar-me a ele.
- Ainda bem que pelo menos algum ficou contente com a situao toda.
- Sei que sou culpado por ela, mas no acha que tudo saiu melhor do que se podia esperar?
- Melhor? - Audrey olhou-o sem entender.
- Como vocs continuam juntos, pensei que...
- No tire concluses apressadas, Alan. Acho que no conhece bem York. - Audrey desviou o olhar do rosto de Alan e quase morreu de susto ao ver o marido sentado
a alguma distncia deles.
York estava com uma mulher morena e bonita, e Audrey sentiu que o cime a invadia como uma onda gigantesca. York no deu sinal de t-la visto, dava toda sua ateno
 mulher que o acompanhava. Quem era ela? Era por isso que York passara a ir ao escritrio todos os dias? Ser que j a havia levado para o apartamento? Audrey tinha
vontade de matar aquela desconhecida que a perturbava tanto!
-  Audrey, que aconteceu? Est to plida! - Alan ficou preocupado ao ver a expresso de desespero no rosto dela.
- Estou bem - ela mentiu.
- Acho que est precisando se distrair um pouco. Que tal sairmos hoje  noite? Poderemos ir jantar, depois ao teatro,
- No posso, Alan. Tenho que ir ao cabeleireiro agora, amanh vamos ter uma festa em casa. - Com o rabo dos olhos, Audrey vigiava York. Ele estava acendendo o cigarro
da morena, que lhe segurava as mos, enquanto aproximava o cigarro da chama. Mais uma vez Audrey sentiu a mordida do cime. - No precisamos fazer um programa longo,
Audrey... Prometo lev-la para casa at a meia-noite. Que tal?
Levada por um impulso repentino, Audrey aceitou. Seria bem-feito se ela estragasse a imagem de casai feliz e isso fizesse York perder o ttulo de cavalheiro. Ele
bem que merecia isso! - Quando terminar o que tem que fazer, v at o meu apartamento, e de l sairemos para jantar. Ainda lembra onde ? - Alan estava muito entusiasmado.
Por vrias vezes Audrey tinha levado papis importantes ao apartamento de Alan, enquanto trabalhava para ele.
- Vou levar seus pacotes, comigo. Pode peg-los mais tarde, quando eu for lev-la para casa. Que tipo de pea quer ir ver?
- Deixo a escolha a seu cargo.
Eles se levantaram para sair do restaurante e passaram perto da mesa de York, que no os olhou. Alan, distrado com os embrulhos que carregava, no prestou ateno.
No cabeleireiro onde Audrey tinha planejado passar uma tarde descansada, ela se sentia angustiada, pois no podia deixar de pensar no marido. Que pena que havia
concordado em sair com Alan! Preferia ir embora para casa!
Quando ficou pronta, pegou um txi e foi at o escritrio de York para lhe deixar o recado de que no ia voltar com ele. Com certeza, ia ficar furioso! Ou talvez
no. Assim teria a oportunidade de ficar mais tempo com a boneca morena com quem estava almoando!
Ao chegar no apartamento de Alan, ele veio lhe abrir a porta, ainda com os cabelos molhados do banho.
- Deixei o banheiro livre, caso queira se arrumar.
Audrey entrou no banheiro e aproveitou para trocar sua roupa por um outro vestido, dos que tinha comprado naquela tarde, mais de acordo com o programa que iam fazer.
Quando saiu do banheiro, Alan assobiou mostrando sua aprovao. Brincando, pegou Audrey nos braos, comentando como ela estava bonita e lhe dando um beijo no rosto.
- Alan! No esquea que sou casada.
- No esqueo, no, e acho que York  muito feliz por ser o marido. s vezes me lastimo por no ser eu.
Alan era um companheiro ideal, alegre e brincalho, mas Audrey no se sentia contente. Era a primeira vez que saa com um homem desde que tinha voltado a viver com
York e, por mais que quisesse, no conseguia tir-lo da cabea.
Depois de jantarem, foram a um teatro que apresentava um musical muito na moda. Quando saram, Audrey tinha a cabea doendo de tanto esforo para se mostrar contente,
quando na realidade s havia pensado e se preocupado com o marido.
- Vamos at o meu apartamento para um drinque de boa noite?
Audrey olhou-o aborrecida. No deveria ter contado como estava seu relacionamento com York, pois acabou dando a Alan a oportunidade de pensar que ela estava disponvel
para alguma coisa alm de jantar e ir ao teatro.
-  No, obrigada, Alan. A noite foi muito agradvel, mas prefiro ir para casa. Como voc mesmo disse, lembre-se de que gosta de ser scio de York.
Felizmente, Alan no insistiu e a levou para casa. Mesmo assim, Audrey chegou mais tarde do que esperava. Sua dor de cabea tinha aumentado muito e ela sabia que
era de tenso e ansiedade. No via a hora de poder relaxar em seu quarto,
Alan lhe entregou os pacotes e a levou at a porta.
- No sei como se sente, Audrey, mas at acho que valeria a pena tentar roub-la de York. Seria um golpe nos meus negcios, mas, quando estou com voc, esqueo o
resto.
- Boa noite, Alan. - Audrey tratou de entrar logo em casa, cansada dos avanos de Alan.
O hall estava escuro e Audrey se encaminhou, rateando, para acender a luz. Um dos pacotes escorregou de suas mos e caiu no cho, fazendo um barulho enorme em meio
ao silncio. Ela se abaixou para peg-lo e, nesse instante, as luzes se acenderam. York estava no alto de escada, o olhar furioso. - Onde diabo voc andou at, agora?
Assim parado muito acima dela, Audrey teve a impresso de que ele era um gigante e comeou a tremer de medo  medida que York se aproximava. Tinha vontade de largar
tudo no cho e sair correndo dali para s parar quando estivesse to longe que ele no pudesse alcan-la. Mas... por que estava to apavorada? No tinha feito nada
de errado! Levantou bem o queixo em atitude de desafio.
- Eu lhe fiz uma pergunta. Responda! - York chegava cada vez mais perto.
Audrey ficou parada, incapaz de se mexer, segurando os pacotes junto ao peito como se eles pudessem proteg-la. Foi somente quando York comeou a retirar os embrulhos,
um a um, que ela conseguiu se movimentar. Tentou fugir, mas tinha as costas para a parede e no pde ir longe. Ele se aproximou,
encostou-a contra a parede e colocou os braos um de cada lado
do corpo dela.
- Responda, Audrey, ou quer que lhe arranque as palavras?
-  Sabe muito bem onde estive... Deixei recado para voc. - Audrey conseguiu finalmente encontrar a prpria voz.
- Disse que ia sair com Alan, mas no foi s isso que fez! Foi para o apartamento dele, no foi?
- Fui somente porque era mais conveniente encontr-lo l.
No mesmo instante, Audrey se arrependeu de seu tom defensivo, mas agora era tarde! York parecia no escut-la, olhan-do e examinando-a de alto a baixo.
- No esta com a mesma roupa com que saiu hoje de manh. O que aconteceu? Alan agiu como cavalheiro, enquanto voc se despia?
O sarcasmo dessas palavras ficou ressoando nos ouvidos de Audrey. Ela se sentiu to revoltada, to caluniada que no pde mais controlar a raiva que lhe invadia
a alma.
- Como se atreve a falar assim comigo? Como se d o direito de achar que eu agiria dessa maneira? E mesmo que eu quisesse fazer as coisas de que me acusa, o que
 que isso tem a ver com voc? Ou j esqueceu que nosso casamento  apenas um acordo comercial?
- Tenho todo o direito de exigir que se comporte bem justamente porque  minha esposa!
- E por acaso no est esquecendo que a fidelidade deve funcionar de ambos os lados Como voc passou sua tarde? A morena sensual teve que lhe implorar para que fizesse
amor com ela?
Audrey podia ver o quanto o marido estava furioso, mas no tinha medo nenhum. Estava at mesmo satisfeita em pr para fora coisas que gostaria de ter dito h muito
tempo.
York chegou mais perto, o dio estampado em seu rosto. E Audrey podia jurar que ele ia agarr-la e tornar a beij-la com ardor, para castig-la. Chegou at a se
preparar para enfrentar mais um ataque sexual do marido: fechou os olhos, esperando ser tomada nos braos e talvez at carregada para a cama.
Mas no foi isso o que aconteceu! York virou as costas, praguejando alto, e foi para o quarto, batendo a porta com estrondo. O silncio que se seguiu foi to pesado,
que Audrey teve uma sensao enorme de solido! Pegou os pacotes e reconheceu o embrulho bem-feito que continha as abotoaduras. Teve vontade de destru-lo, como
York a tinha destrudo tambm!
Precisava admitir que bem no fundo de seu corao sabia que, saindo com Alan, deixaria o marido furioso. Mas no esperava aquela reao dele. Das outras vezes em
que ele havia ficado zangado, tudo tinha terminado na cama. E era isso o que achava que ia acontecer! Sentia se frustrada, vazia, desesperada.

A festa de Natal estava sendo um sucesso! Audrey atendia a todos, maravilhosa, usando o vestido em estilo flamengo. J tinha ouvido vrios elogios e realmente havia
se achado bonita!
- Acho que no sou o primeiro a lhe dizer que est encantadora, e extremamente sensual, no ? - Richard a cobiava com os olhos,  - Acho que York vai ter muito
trabalho com os gavies!
- No  uma boa idia? Assim eu o mantenho to ocupado, que no d tempo dele se distrair com outras mulheres.
- E voc acha que ele iria querer outras? - Richard estava surpreso. - Deve saber como ele  louco por voc!
-  No sei se  to louco assim! Ainda ontem, sei que ele almoou com uma mulher lindssima.
- Lorraine Edwards? Realmente, ela  encantadora! Trabalha na companhia de publicidade que cuida das nossas propagandas. Mas  casada e ama o marido, com quem tem
dois filhos. Acho que no deve duvidar, Audrey, York  o tipo de homem que ama apenas uma mulher, e sem dvida, essa mulher  voc.
Ele devia trabalhar no teatro, foi o que Audrey comentou para si mesma. Durante a festa, em vrias ocasies o mesmo pensamento voltou  sua mente. York a mantinha
sempre junto dele, o brapo em volta de sua cintura. Puxava-a para mais perto, acariciava-lhe os cabelos, dava-lhe beijos no rosto... como um marido apaixonado faria.
- Que festa maravilhosa! - Sir Giles sorria contente. - Seu marido vai indo muito bem, Audrey. Talvez no devesse lhes contar, mas Charles Phillips ficou muito impressionado
com o casal!
De uma maneira velada, sir Giles procurava lhes dizer que York ia receber o ttulo. Em vez de ficar feliz com a notcia, Audrey sentiu-se triste. Ele ia conseguir
ser cavalheiro e ela ia ficar livre. Por que no estava contente?
- Por que Annette no veio? - Audrey ps seus pensamentos de lado.
-  Ela est na ustria, fazendo um curso. S volta dentro de seis meses.
Coitado de sir Giles! Ia passar o Natal sozinho!
- No quer vir passar o Natal conosco? - Audrey convidou.
- Agradeo muito, minha querida, mas no posso aceitar. Acho que seu marido deve querer toda sua ateno nesse dia.
Sei como esses momentos so preciosos e acho que fazem muito bem de aproveit-los.

No fim da festa, quando o ltimo convidado se foi, Audrey sabia que tinha sido aceita pela sociedade local. Haviam recebido vrios convites para reunies, mas sabia
que no iria aceitar nenhum. No valia a pena cultivar amizades, se tinha que ir embora muito em breve.
Ela sentia-se cansada, mas satisfeita. Foi at a cozinha. Tudo j estava em ordem, pois no dia seguinte, bem cedo, os empregados sairiam para as frias de Natal.
Teve vontade de tomar um ch quente para depois ir dormir. Comeou a prepar-lo, quando York entrou.
- Vou tomar uma xcara de ch, quer uma tambm?
-  Quero, sim, acho que vai me ajudar a dormir. - York sentou-se.
Audrey reparou que ele parecia abatido e cansado, com olheiras. Talvez estivesse muito preocupado sobre a possibilidade de receber o ttulo ou, talvez, fossem os
negcios.
- No deve ficar preocupado agora, York. Pelo que sir Giles falou, j pode considerar como certo que eles vo aprov-lo como cavalheiro. - O ch ficou pronto e Audrey
serviu duas xcaras. Comearam a toma-lo em silncio,
- Arrumo tudo depois. Se quiser, v deitar - ela sugeriu. Muito irritado, York bateu a xcara na mesa, derramando
parte de seu contedo.
- Pare de me tratar como se eu fosse uma criana, Audrey! No preciso da sua piedade nem da sua ajuda. - York levantou e saiu da cozinha, resmungando alguma coisa
que ela no pde entender.
Audrey ficou na dvida se devia ir atrs dele ou no. Ao pensar nos olhos cansados, na expresso abatida do marido, resolveu se aventurar, mesmo que sua presena
no fosse querida.
York ainda no tinha deitado. Estava sentado, vestido, numa poltrona em frente  janela. Tinha a cabea entre as mos e os cabelos estavam revoltos, como se tivesse
passado os dedos muitas vezes por eles.
Ele no a viu de imediato, mas depois, levantando a cabea notou a figura delicada de Audrey oferecendo-lhe a xcara de ch inacabada. Parecia to surpreso que nem
se mexeu. Pouco a pouco, seu rosto se encheu de fria e, com um tapa, derrubou a xcara no cho.
Seguiu-se um silncio pesado, enquanto o lquido se espalhava pelo carpete e eles apenas se mediam com o olhar.
- Saia j daqui, Audrey, antes que eu tome uma atitude que nos dois vamos lamentar mais tarde.


                                           CAPITULO IX


Na vspera de Natal comeou a nevar, os flocos leves e alvos cobrindo o cho com uma brancura imaculada. York tinha sado para comprar um rvore de Natal. Ele tinha
ficado muito surpreso quando Audrey fez questo de ter uma.
- Mas para que rvores? Ou est tentando dar um ar de festa a esse mausolu? Acho que est perdendo seu tempo... Alm disso, no temos nada para pendurar nela.
- Temos, sim. - Ele no tinha conseguido diminuir o entusiasmo de Audrey. - Comprei umas coisas quando estive em Londres, na ltima vez. - No sabia dizer porque
era to importante ter uma rvore, mas o fato  que lhe era fundamental.
Audrey estava na cozinha preparando umas tortas e doces, quando York voltou. Ele ficou muito surpreso em ver as coisas que ela tinha feito.
-  Quer um pedacinho daquela? - Apontou uma torta de ma que estava esfriando sobre a mesa.
York tirou um pedacinho e experimentou, guloso.
- Est tima!
- Obrigada! - Ela ria de satisfao. - Conseguiu a rvore?
- Est no hall, venha ver.
Audrey enxugou as mos e seguiu o marido at o hall, levando um susto ao ver o tamanho da rvore. Nunca iria ter coisas suficientes para enfeit-la!
-  Naquelas caixas trouxe algumas coisas para pendurar nela. Onde quer que a coloque?
- Ponha na sala. Assim poderemos abrir os presentes junto dela, logo depois do caf da manh. - Audrey ainda lembrava com saudade das manhs de Natal com tia Emma,
em que havia uma poro de presentinhos debaixo da rvore. Eram coisas pequeninas, de pouco valor, mas altamente significativas. Tinha feito a mesma coisa com York:
comprou pequenas coisas que achava que ele poderia gostar.
-  Presentes? De quem? - York colocou a rvore junto  janela.
- De Papai Noel...
Audrey passou uma boa parte do tempo arrumando a rvore, at que comeou a descer a escada. Foi ento que sentiu os dedos de York envolvendo seu tornozelo, olhou-o
com um ar de surpresa.
- Est presa, Audrey!
- Me solte, York! - Ela pediu, mas ele nem pareceu escutar. York continuou a olh-la, movimentando a mo, subindo at
o joelho e, com muita ousadia, alcanando-lhe a coxa. O tempo todo seus olhos estavam desafiadores, esperando qual a reao de Audrey.
O telefone tocou, quebrando o encantamento em que eles se encontravam. A princpio, Audrey achou que York nem ia atender, mas depois de uma carcia em suas pernas,
ele se afastou para atender ao chamado insistente da campainha.
Quando voltou  sala, a rvore estava pronta e Audrey a salvo, no cho. Durante a tarde, ela preparou uma ceia ligeira e deixou tudo pronto porque queria ir  missa
de Natal.
Durante a ceia, York mal tocou na comida, parecendo impaciente. Continuava nevando, mas na sala havia o calor da lareira acesa.
-  No gostou do que fiz? Gosta mais da comida da sra. Jacobs?
- Gomo eu gostaria que o Natal nunca tivesse sido inventado! - Ele se levantou, zangado e saiu da sala.
Audrey sentia pena dele. Provavelmente suas lembranas anteriores de Natal no eram muito agradveis. Achou melhor no lhe perguntar se ele a acompanharia  igreja,
no queria aborrec-lo nesse dia to bonito. Foi andando at a igreja, gozando aquela noite linda, os flocos de neve permitindo um Natal branco, as luzes da igreja
parecendo to acolhedoras!
A missa foi simples e por isso mesmo muito tocante. Audrey cantou com emoo todas as canes de Natal, sentindo-se como uma parte daquelas comemoraes. Lastimava
somente que York no estivesse ali.
Voltou para casa e foi direto para o quarto. Acabou de embrulhar os ltimos presentes e deitou, dormindo profundamente. Acordou com a claridade forte que penetrava
por sua janela. A casa estava muito quieta, mas, olhando para o relgio, viu que eram nove horas. York j devia estar de p h muito tempo!
Enquanto se vestia, Audrey notou que tinha parado de nevar, mas que o jardim estava coberto por um manto branco. O cu, muito lmpido, indicava que a temperatura
devia estar bem baixa. Ela desceu at a sala e reacendeu as chamas na lareira. Foi at a cozinha, onde o co pastor lhe fez muita festa, pedindo para sair. Abriu
a porta e o cachorro saiu, deixando as marcas de suas patas na neve fofa e funda. Audrey, atirou-lhe um pedao de madeira, que o co foi buscar com animao para
depois deposit-lo aos ps da dona. Durante uns minutos ela se divertiu com o animal e depois entrou em casa novamente.
A casa permanecia silenciosa, onde estaria York? De repente lhe passou pela cabea que ele tinha sado deixando-a passar o dia de Natal completamente sozinha! Correu
para a garagem com o corao apertado, mas os dois carros estavam ali.
Ela se encostou num deles, suspirando aliviada! Tinha que admitir que a vida sem York lhe parecia insuportvel. Precisava de sua companhia, de sua presena, at
mesmo de suas repreenses, enfim, precisava dele do mesmo jeito que precisava de oxignio para viver! No podia ficar sem ele!
Voltou para casa, sempre acompanhada do fiel co, e tratou de pr o peru no forno. Onde estaria York? Normalmente ele gostava de levantar cedo! Ser que quis ficar
na cama por mais tempo, naquele dia?
Comeou a preparar o caf e decidiu que, se ele no aparecesse at que o caf estivesse coado, ela iria levar-lhe uma xcara no quarto. York parecia estar aborrecido
desde que ela sara com Alan, provavelmente estava cansado de ter que conviver com ela contra a prpria vontade. Mas em breve estaria terminado. Ele teria o ttulo
e ela estaria livre! Um suspiro fundo escapou de seus lbios.
O caf ficou pronto e nada de York. Audrey preparou uma bandeja com caf, leite e um pratinho com bolo e levou-a para cima. Chegando na porta do quarto dele, ela
bateu, mas no obteve resposta. Juntando toda sua coragem, abriu a porta e entrou.
As cortinas ainda estavam fechadas e Audrey achou melhor colocar a bandeja sobre a mesa, antes que fizesse um desastre e derrubasse tudo no cho. Depois foi at
a janela e puxou as Cortinas para deixar o quarto claro. York estava na cama, tinha os olhos fechados e respirava com bastante dificuldade. Assim que ela o viu notou
que estava doente. Chegou mais perto dele,  chamou-o vrias vezes, mas nem assim ele abriu os olhos. Colo-   cou a mo em sua testa e viu que a pele estava mida
e quente, e os lbios estavam secos e rachados. Estava com febre alta.
Audrey sentou-se na cama ao lado dele, para decidir o que fazer. Lembrou-se ento da conversa que ouvira na igreja sobre o surto de gripe que havia atingido muitas
pessoas naquela regio. Provavelmente, York a tinha pegado! Alcanou o tele- fone no criado-mudo e ligou para o hospital, para falar com um mdico.
- Neste inverno a gripe veio muito forte - o doutor lhe explicou. - No h muita coisa que se possa fazer contra ela, alm de boa alimentao e repouso. Posso dar
um pulo a e ver o doente, sei que isso a deixar mais sossegada. Mas no se preocupe, ele dever se sentir melhor em dois ou trs dias.
Audrey reps o fone no gancho e ficou olhando para o rosto de York. Como o amava! Ainda mais sentindo-o assim indefeso, e sofrendo por causa da doena!
O dr. Meadows era um homem de seus quarenta anos, simptico e prestativo. Ele examinou York com o mximo de ateno.
-  gripe mesmo, sra. Laing. Os sintomas comearam h muito tempo?
- Acho que desde ontem, doutor. Ele j no tinha apetite nenhum no jantar de ontem.
- Esse  um sintoma clssico! E ele no dever ter muito apetite enquanto estiver com febre. Esto sozinhos aqui, sra. Laing?
- Estamos, mas posso muito bem tomar conta dele!
- Sei disso, minha senhora, mas esse tipo de gripe produz temperaturas muito altas e ser necessrio tentar baix-la no s com comprimido, como tambm mantendo
o corpo dele sempre mido com uma esponja embebida em gua morna. Em geral, esses grandes capites da indstria detestam esse tipo de tratamento, mas  o mais indicado.
Alm disso, devido  febre, ele poder delirar. Conserve o quarto fechado, com temperatura mdia,  mantenha-o bem coberto. Se ele no melhorar dentro de dois dias,
no mximo trs, me chame de novo. Vou lhe deixar um vidro com comprimidos de antibitico, que ele deve tomar a cada seis horas.
- Obrigada, doutor, vou fazer o que mandou.
- De qualquer maneira, passo por aqui amanh. Essa gripe  muito rpida e a senhora poder ficar no mesmo estado que ele, sem perceber. Como esto sozinhos na casa,
no teria ningum para acudi-los.
Depois que Audrey acompanhou o doutor at a porta, foi  cozinha, desligou o forno e foi para a sala. Olhou a rvore de Natal, to linda e to bem enfeitada. Como
era horrvel ficar sozinha nesse dia. at o brilho dos enfeites parecia triste.
Audrey subiu novamente e ficou lendo no quarto de York, para observ-lo melhor. A tarde, a febre subiu demais e York comeou a tremer, batendo os dentes como se
estivesse morrendo de frio. Ele tinha dormido quase que o dia todo e acordou enquanto ela estava passando a esponja em seu corpo, para manter a temperatura um pouco
mais baixa. Ele abriu os olhos, mas parecia no v-la.
- Sou, eu, York, Audrey. Voc est gripado, mas vai ficar abatido, parecia ter rejuvenescido. Audrey tentou levantar sem que York acordasse, mas ele se virou e abriu
os olhos.
- Voc est aqui! Pensei que tivesse sonhado! Audrey... Audrey... - Seus lbios tremeram.
- Estou aqui com voc. Descanse para recobrar suas foras... Audrey estava impressionada como o marido estava fraco.
- No me deixe mais, Audrey - ele ainda sussurrava. - No v embora de novo... Eu no aguentaria!... Prometa que no vai. - Seus olhos brilhavam, mas pareciam no
reconhec-la.
Audrey sabia que ele estava delirando, vagando por um mundo desconhecido do qual ela fazia parte.
- No vou deix-lo, York. Procure relaxar e dormir! - Acariciava seu rosto e cabelos com ternura.
-  Dormir? Como posso dormir? Se eu adormecer, sei que no a encontrarei mais aqui quando acordar! - Uma expresso de sofrimento cobriu seu rosto. - Meu pai no
estava mais l, quando acordei! - Seu corpo tremia de novo. - Audrey... Audrey...
Audrey continuava acariciando o marido para lhe dar segurana. Foi ento que notou que os olhos de York estavam mi-dos de lgrimas. No podia acreditar! Segurou-o
entre os braos, aconchegando-o perto de si, como faria com uma criana que estivesse desesperada. Acalmou-o com palavras doces, com expresses de amor, para conseguir
que ele relaxasse e conseguisse descansar.
- Prometa que nunca vai me deixar, Audrey. Prometa... Por favor!
Por um breve instante, Audrey teve a sensao de que talvez ele estivesse falando a verdade! Talvez, com a febre alta e o consequente delrio, York tivesse posto
abaixo suas reservas e falasse srio! A alta temperatura tinha dominado seu raciocnio e ele dera vazo aos sentimentos que lhe enchiam a alma!
No viva de iluses, Audrey, ela se avisou. Isso no pode ser verdade! No deixe que a vontade vena a lgica. York estava apenas delirando e juntando a imagem dela
 do pai. No podia considerar o que ele dizia como uma expresso verdadeira de sua mente. J tinha tido muitas provas de que ele no a amava, portanto, por que
criar iluses agora?
No entanto, durante todo o dia, a mente de Audrey divagou sobre a possibilidade de York ter dito a verdade. Ela o observava atentamente para ver traos de sua melhora.
 noite, notou que a febre tinha sumido. Ele estava bem normal e podia reconhec-la perfeitamente bem.
Audrey chegou perto da cama e ps a mo sobre sua testa, agora fria.
- Est melhor?
Por um breve segundo York permaneceu quieto, mas logo
em seguida disse:
- Que diabo est fazendo aqui? No tenho paz nem mesmo em meu quarto?
Audrey sentiu vontade de gritar, pensando na noite que tinham passado juntos, e nessa maneira estpida como ele falava com ela.
-  Voc esteve doente, York. Teve uma gripe muito forte,
com muita febre e eu s vim para cuidar de voc.
- Nunca estive doente na minha vida! - Ele levantou da cama, jogando as cobertas para o lado. No entanto, logo sentou de novo, sentindo-se tonto e incapaz de se
manter em p.
-   melhor deitar de novo e nem tentar ficar de p, sua gripe foi muito forte! Vou l embaixo preparar alguma coisa para voc comer.
-  Pare de cuidar de mim com esse jeito maternal, Audrey!
No gosto disso!
Audrey estava cansada da noite sem dormir, da preocupao que havia sentido. Ficou zangada com as palavras do marido e resolveu responder:
- No foi isso o que disse ontem  noite!
Durante algum tempo eles se encararam. York estava plido, apenas os olhos muito vivos mostravam sua preocupao.
- As pessoas dizem muitas bobagens quando deliram - ele falou com calma.
-  verdade.
Um plano comeou a se formar na cabea de Audrey, em uma tentativa desesperada, e ela nem sabia se teria coragem para execut-lo. No entanto, no podia ser medrosa
agora, pois havia muita coisa em ebulio. York poderia mesmo ter apenas delirado e dito palavras sem nexo. Mas era bem possvel que tivesse posto para fora emoes
verdadeiras, reprimidas durante anos. Tinha que tentar!
- Agora que temos certeza de que vai receber o ttulo de cavalheiro, acho que no preciso mais ficar aqui.
-  verdade - ele comentou sem expresso.
- J que estamos acertados nesse ponto, vou lhe trazer alguma coisa para comer.
Ela desceu, preparou uma omelete e um copo de leite, colocou tudo numa bandeja e levou para cima. No permitiu que York sasse da cama para fazer a refeio. Acomodou
a bandeja em seu colo, e colocou o guardanapo em seu peito para que no se sujasse.
- S falta agora voc me dar a comida na boca, mas como no sou criana, no preciso de tantos mimos.
- Acho que precisa, sim. Todo mundo precisa de carinhos e mimos de vez em quando, principalmente quando se est doente. Sua me no era mais carinhosa quando voc
estava doente? - Audrey o observava bem de perto e notou o ligeiro tremor nas plpebras dele.
- J lhe disse que nunca estive doente na minha vida.
- Mas est agora. O mdico vir v-lo amanh.
- E assim que ele me der alta e eu no precisar mais de enfermeira, voc vai embora. - York mal tinha tocado na comida, apenas olhava para Audrey que estava de costas
para ele.
-  isso o que quer, York? Que eu deixe voc?
Audrey tinha esperanas de que ele se lembrasse do que tinha dito durante o delrio, mas York no deu mostras de perceber coisa alguma.
No dia seguinte, o mdico foi visitar seu paciente e achou-o muito bem, em plena convalescena:
- Teve muita sorte com sua enfermeira, York. - O mdico sorriu, - Muita sorte mesmo!
O dr. Meadows se despediu e Audrey foi lev-lo at a porta. Quando voltou ao quarto de York, encontrou-o dormindo. Ajeitou as cobertas, reprimindo a vontade que
tinha de toc-lo.
Mais tarde, ela desceu para preparar o jantar. O telefone tocou e, para sua surpresa, era o mdico.
- Desculpe incomod-la, sra. Laing. Bem,  que fui ver sir Giles e ele tambm pegou essa maldita gripe. Est sozinho, naquele casaro e fiquei pensando se...
-  Quer que eu v tomar conta dele? - Audrey no tinha vontade nenhuma de abandonar York em convalescena, mas no podia deixar de atender o pedido do mdico.
- Seria apenas por algumas horas, at que eu arranje uma enfermeira para ficar l com ele.
- Muito bem, doutor, eu vou.
Audrey subiu para pegar um casaco e avisar York. Mas ele estava dormindo e ela sabia como o marido precisava desse descanso. No o acordou. Esperava apenas que a
tal enfermeira no demorasse muito para chegar, assim ela poderia vir correndo de volta para perto dele.
Sir Giles no estava to doente como York tinha ficado, mas realmente no poderia ficar sozinho. Audrey cuidou dele, dando-lhe bastante lquido e fazendo-lhe companhia.
A enfermeira chegou assim que comeou a escurecer.
Audrey dirigiu de volta muito devagar, pois a estrada estava coberta de gelo e ela no tinha muita prtica com o carro esporte de York. Entrando pela porta da cozinha,
encontrou o cachorro pastor que a olhava com tristeza.
- Pensou que eu tivesse esquecido de voc, Sanso? Voltei em tempo de lhe dar o jantar!
Ela alimentou o cachorro e resolveu tomar um banho, em busca de novas foras. Depois do chuveiro, colocou apenas a camisola e um robe, pois esperava poder dormir
cedo. Sentou diante da penteadeira e comeou a escovar os cabelos.
De repente, a porta de comunicao foi aberta e York estava encostado no batente, plido e abatido.
- Audrey! Pensei que tivesse ido embora! - Quando ela o olhou, surpresa, ele continuou: - Voc tinha dito que ia!
York cambaleou, ainda fraco demais para estar de p. Imediatamente Audrey correu para ampar-lo, mas ele se afastou, o rosto muito vermelho.
- Por favor, Audrey, no chegue perto de mim! Ou se diverte vendo meu tormento? - Ele fechou os olhos, a respirao ofegante. - Precisa sair daqui... No aguento
mais! Nunca deveria ter pedido que voltasse a viver comigo! J deveria ter aprendido com a primeira lio que tive, quando a forcei a casar, embora ainda no estivesse
preparada para isso!
Audrey o olhava com muita surpresa por causa do que ouvia, estava to apalermada que nem conseguia falar!
- No me olhe assim, Audrey! Pensa que no me reconheo? Pensa que no sei as bobagens que fiz? Eu mesmo, muitas vezes, me odiei tanto como voc me odiava!
- York - ela finalmente encontrou a prpria voz -, voc  que no queria casar comigo! Voc foi obrigado a casar para evitar o escndalo que haveria! Sei que queria
apenas um caso, sem maiores consequncias.
- Nada disso, Audrey! Desde o primeiro instante eu queria possuir no s seu corpo, mas sua alma tambm. Eu j no podia mais viver sem voc, mas, voc era to jovem...
to inocente... to inexperiente! Nem ao menos consegui fazer amor com voc, sabendo que ainda era virgem. Quando Jlia chegou, me pareceu uma resposta s minhas
preces. Era a maneira de eu conseguir que voc ficasse legalmente atada a mim. Mas, ao mesmo tempo, eu me odiava por lanar mo desse estratagema...
- Oh! York...
-  Quando comeou a se afastar de mim, pensei que fosse ficar louco! A nica maneira que eu tinha de segur-la era atravs do contato sexual, e eu ficava desesperado
por saber que podamos nos entender muito bem fisicamente, mas que eu era incapaz de atingir seu corao!
- Por que no me disse como se sentia?
- No conseguia.
Audrey sentiu o corao derreter de amor pelo marido. Claro que ele no podia ter dito nada! A criana que nunca havia recebido amor no conseguia pedir que lhe
desse algum. Ela chegou perto de York, colocando as mos sobre seus braos.
- No chegue perto de mim, Audrey... Sabe que no consigo me controlar.
Audrey chegou mais perto ainda, acariciando a mo do marido.
- No quero sua piedade, Audrey.  melhor me deixar em paz.
- No posso deix-lo - Audrey falou com voz calma e doce, sentindo-se confiante. - Voc est me pedindo o impossvel! Do mesmo modo que no posso parar de respirar,
no posso viver sem voc. Eu o amei desde o princpio. Eu o amo, York, e estou lhe pedindo que faa amor comigo... Estou implorando... - Ela colocou as mos no peito
dele, arqueando a cabea para trs,  espera de um beijo que selaria esse amor.
York imediatamente passou os braos ao redor de Audrey, os olhos brilhando intensamente, procurando no rosto dela a confirmao dessas palavras que o faziam to
feliz.
-  verdade, York! Eu o amo, sempre o amei e vou am-lo para sempre. Queria ter lhe confessado antes, mas pensei que tivesse casado comigo apenas para evitar um
escndalo. Em Londres voc estava sempre to distante, nossos mundos pareciam nunca se encontrar! Nosso nico contato era na cama e cada vez mais eu me convencia
que voc no me amava. Foi ento que comecei a me irritar com seu domnio fsico, e por isso abandonei voc! No podia mais continuar vivendo com voc, sob o mesmo
teto, sem que me trasse e lhe contasse como me sentia!
- Como gostaria que tivesse dito, Audrey! Como temos sido bobos, minha pequena. Eu a queria tanto, que comecei a me portar como um carrasco! Mal tomava uma atitude
e j a lastimava profundamente!
- Meu querido... Como sofremos por no contarmos o que sentamos! Cheguei at a deix-lo!
- Logo que partiu, coloquei detetives  sua procura. Quando comeou a trabalhar para Alan, e achei que as coisas estavam ficando srias entre vocs dois, no pude
mais aguentar. Precisei traz-la de volta.
- Voc foi me buscar por causa do ttulo de cavalheiro, no foi?
- Acha mesmo que eu me importava cora isso? No! Isso foi s uma desculpa que arranjei para conseguir que voltasse. Quando fui a St. John, queria apenas falar com
voc, conversar para ver se chegvamos a um acordo. Mas, assim que a vi, fiquei louco de paixo e sabia que tinha que traz-la de volta...
- Mas depois que j estvamos aqui voc se mantinha to distante, saa tantas noites...
- Naquelas noites saa sem rumo e dirigia por vrias horas, at ficar to cansado que tinha a certeza de que seria capaz de deix-la em paz.
- Eu me preocupava tanto com suas ausncias!
- Tinha que agir assim, Audrey. J tinha forado a situao uma vez, obrigando-a a me aceitar, lembra-se? Tivemos um contato ntimo maravilhoso! Sabia que ainda
podia despert-la fisicamente, mas senti que voc continuava a me odiar.
-  No era a voc que eu odiava! Era a mim mesma, por responder com tanta rapidez aos chamados do seu corpo, passando por cima do meu prprio orgulho!
- Devia ter esperado que voc crescesse, antes de casarmos. Mas eu no podia esperar! Tinha medo de perd-la!
- Eu j era crescida, York, mas era demasiado ingnua.
Eles se abraaram, felizes porque tinham finalmente conseguido unir suas almas. Ela podia sentir nas mos o bater do corao de York.
- Achou mesmo que eu tinha ido embora?
-  Achei, sim. Quando acordei, procurei voc em todos os cantos e no a encontrei.
- Me procurou? Nas suas condies de fraqueza? No devia nem ter sado da cama!
- Tem razo! Mas estou cansado de dormir sozinho!
- Eu tambm! - Audrey suspirou, apertando-se mais contra ele. - Vai me obrigar a implorar de novo?
Por um instante eles ficaram se encarando, olhos nos olhos.
- Voc imploraria? - ele perguntou com suavidade.
- E voc imploraria?
Ela ficou imaginando se algum dia York seria capaz de pr em palavras aquilo que sentia.
- Eu j pedi. Pelo menos foi o que fiz durante o tempo em que delirei. Lembro at de algumas palavras e sei que elas foram muito reveladoras.
- Mas me disse que tinha sido apenas o delrio inconsciente de sua mente atormentada pela febre!
- Sei que estava delirando, mas o que disse era o que tinha no corao durante muitos anos, sem nunca ter a coragem de diz-lo. Mas assim que me viu melhor, voc
logo tratou de dizer que ia embora!
- No podia saber se o que tinha dito em seu delrio era verdade ou no, por isso achei que, dizendo que ia embora, eu o foraria a me confessar como se sentia!
-  Nossos coraes se encontraram finalmente, Audrey, e no existe mais dvida alguma pairando sobre nosso amor. Vamos ser felizes, minha querida.
Audrey inclinou a cabea, entreabrindo os lbios, esperando por York, que logo juntou seus lbios aos dela, num beijo longo e cheio de promessas. Mantiveram-se num
abrao apertado, sentindo-se um ao outro. O tempo passava e eles nem sentiam.
Suas almas estavam unidas, abafando anos de tortura e sofrimento para renascer radiosas de amor.
York levou Audrey para a cama e tirou sua camisola com muito carinho. Examinou cada centmetro daquele corpo amado, com total admirao.
- Como  bom, Audrey, no precisar esconder o que se sente no corao!
Uma dimenso nova foi acrescentada ao seu amor, derrubando de uma vez o que restava daquelas velhas barreiras que tanto os tinha atrapalhado!
-  Meu Deus, Audrey! Como a desejo! - York abraou-a todinha, fazendo-a sentir a imensido de sua paixo.
Ela o olhava com carinho, seu corpo tomado pelo desejo. No entanto, ainda havia um pequeno obstculo, que tinha que ser derrubado.
- Mostre o quanto me deseja, York! - ela disse, provocante. - Ou vou ter que lhe implorar?
O passado estava vencido, os fantasmas j no existiam mais. O futuro se apresentava brilhante, cheio de uma felicidade madura, que parecia brotar daquelas duas
criaturas que finalmente descobriam o verdadeiro sentido do amor!
- Eu a amo, minha querida! - E nada mais precisou ser dito.


                                      F I M

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Gaiola Dourada (Long Cold Winters)                                                   Penny Jordan
Julia no. 172

                                                   Livros Florzinha                                            - 1 -

